Parte I - Na rodoviária

Conto de Victor Heideck como (Seguir)

Parte da série Confusão na feira de Games

Faz exatamente duas semanas que eu o conheci. Há duas semanas me sinto entorpecido, anestesiado. Me sinto tão idiota que sorrio do nada, ando distraído pela casa tropeçando nos móveis, e passo mais tempo em frente ao computador que qualquer viciado em Red Tube. Nesse exato momento, no entanto, meu coração está disparado, a respiração ofegante e suo incessantemente como um jogador de futebol ao término de uma prorrogação inútil que acabou levando aos pênaltis. Estou na rodoviária de Blumenau (cidade próxima ao município onde moro), sentado em frente à plataforma 2, prestes a embarcar num ônibus com destino a São Paulo, onde o Lucas (o garoto que conheci na internet) mora. Há alguns minutos meu tio, que me trouxe até aqui, foi embora. Agora tenho que me virar por conta própria.

Pode parecer algo completamente normal para muita gente, mas o fato é que para mim, um garoto de 17 anos que nunca saiu da cidade do interior, essa viagem é como escalar o Everest sozinho. Além disso, conseguir convencer a minha mãe a me deixar fazer essa loucura era impossível, então a única alternativa foi mentir. Dissimulei descaradamente, com uma atuação digna de, ao menos, conseguir uma indicação ao Oscar. Meu primo Manuel foi meu cúmplice.

- Tia, nós precisamos te pedir uma coisa... – Minha mãe olhou com uma cara tão desconfiada quanto a de um policial que passa ao lado de um típico “funkeiro” que está ouvindo Dom Dom Dom no último volume. - Eu e o Victor queremos ir na BGS, que vai começar essa semana.

- BGS? O que é isso? – Perguntou minha mãe, esbugalhando os olhos com o choque da ideia de me deixar ir ao que ela provavelmente imaginava ser uma festa.

- É uma feira de jogos, mãe. Lembra? BGS, Brasil Game Show. A senhora viu ontem no Jornal da Globo. É onde as fabricantes de jogos expõem os games que ainda nem foram lançados e tal, vai ser muito top.

Mesmo com cara de poucos amigos ela tentou fingir aceitação. Apesar dos pesares, ela é aquele tipo de mãe que adora fazer o filho feliz, mesmo que para isso, tenha que passar por cima dos próprios conceitos.

- E onde vai ser isso?

- Vai ser em São Paulo, mãe.

- São Paulo? Você só pode estar brincando né? Nós estamos em Santa Catarina. Você sabe qual a distância de Rodeio até São Paulo? (Rodeio é o nome da cidade em que moramos).

- Seiscentos e vinte e quatro quilômetros! – Respondi sorrindo ironicamente. Mesmo sabendo que era uma pergunta retórica não consegui evitar.

E nesse momento, pude ver em seus olhos, eu consegui. Minha mãe sempre se orgulhou pelas minhas notas e pelo meu comportamento na escola. Eu não sou exatamente aquele típico nerd que senta na carteira da frente e só tira notas altas, mas sempre fui esperto o suficiente para me destacar. Por isso, é como se minha mãe achasse que tem algum tipo de dívida comigo. E sempre que eu demonstro o mínimo de inteligência eu a lembro da tal “dívida”.

- Mas vocês não podem ir sozinhos, não é mesmo!? E eu trabalho praticamente todos os dias da semana, não posso levar vocês. Quem será o responsável? – Indagou minha mãe.

- A gente vai com o meu pai tia. - A mãe do Manuel, irmã de minha mãe, morreu há alguns anos. Depois da morte, minha mãe e o pai do Manuel (que é cunhado dela) pararam de se falar. Eu nunca soube exatamente o porquê, mas o fato é que dificilmente ela entraria em contato com meu tio Paulo, para pedir maiores informações sobre a viagem.

- Com o Paulo...!? – Ficou clara a indignação em sua voz. Ela parou por um instante, como se sua mente estivesse em outro lugar. - Vou pensar. – Disse, numa visível luta interna. E subiu as escadas, imagino, já fazendo uma lista das coisas que eu precisaria para sobreviver à viagem toda, ao mesmo tempo em que se perguntava se realmente ela deveria me deixar ir.

Os detalhes depois disso não importam. O fato é que realmente a convenci a me deixar viajar. Uma viagem de mais ou menos dois dias para ir e dois dias para voltar. Meu primo, na verdade, não está indo junto comigo, ele vai me encobrir o máximo que conseguir. Basicamente, durante minha vida toda fui muito responsável. Porém, devido ao fato de que minha mãe é extremamente preocupada, existe uma grande possibilidade de que ela descubra a loucura que estou fazendo. Espero que até lá, eu, ao menos, já tenha chegado a São Paulo.

- Ei, você não vai guardar suas coisas moleque? – O antipático motorista perguntou, me fitando com um olhar de desdém, ao mesmo tempo em que olhava o relógio.

- Foi mal, eu estou meio distraído.

- Tá legal, mas anda logo que senão eu vou me atrasar por sua causa.

Fiquei com vontade de pegar as malas e jogar com força o suficiente para quebrar os braços dele. Mas o bom senso e falta de tal força me impediram de tentar. Eu já estava com o pé no primeiro degrau do ônibus, quando um garoto, que vinha correndo e gritando em direção à plataforma 2, me chamou a atenção.

- Espera, espera... eu também vou!

Devo admitir que fiquei excitado no mesmo instante em que o vi. Aproximadamente 1,70 de altura, magro, grandes olhos verde azulados, cabelos castanho claros e lisos, meio emo, com um skate numa mão e a alça da mochila na outra, deveria ter uns 14 ou 15 anos. Era aquele tipo de garoto, que as meninas ficam olhando nas revistas feito bobas.

- Só pode ser brincadeira, viu! – O motorista cerrando os dentes e fechando os punhos, tornou a abrir o bagageiro do ônibus.

- Desculpa, é que eu tive que ir no banheiro. – Falou o garoto, ao mesmo tempo em que sorriu para mim. Eu fiquei louco, nesse momento, ele era lindo.

- Anda moleque, dá logo a mochila! – O garoto entregou sua bagagem aparentemente não se importando com a grosseria, mas eu já ia instintivamente avançando para discutir com o motorista, quando o menino colocou a mão em torno da minha cintura, me fazendo parar no mesmo segundo.

- Ei, fica frio. Esse idiota não vale a pena. - Sem dizer nada, eu apenas concordei. Não conseguia acreditar na incrível coincidência de viajar no mesmo ônibus que aquele garoto. Naquele instante, eu resolvi ignorar o fato de que o Lucas estava me esperando em São Paulo. “Falta muito até lá”, pensei. “Esse garoto deve ser hétero, nem vai rolar nada.”

Subi os degraus meio que empurrado por ele. Foi nesse momento que percebi que haviam muito poucas pessoas no ônibus. Contando comigo e com meu novo “amigo”, haviam sete passageiros. Eu ainda de pé, me virei para o garoto e sorri. Ele correspondeu, aparentemente chegando à mesma conclusão que eu: essa viagem iria ser muito mais interessante do que poderíamos imaginar!

Este é o fim da primeira parte, pessoal. Ainda estou avaliando se devo dividir a história em três partes ou mais. Por favor, comentem o que estão achando. Críticas e sugestões são bem vindas. Criei um enredo que pode se estender bastante ou terminar com duas ou mais partes. Estou aguardando os comentários para saber se devo continuar ou não. Espero vê-los em breve. Até lá.

Comentários

Há 3 comentários.

Por ruan em 2014-08-18 23:51:53
Pode continuar To adorando.Ruan
Por jooaltair em 2014-08-18 23:48:43
continua esta muito bom mesmo,to numa anciedade q e de deixa qualquer um louko
Por limaajonas em 2014-08-18 23:41:50
Muito bom continua sim ! Não entendi esse negocio de de 3 partes ai kkkkkkkk ??? mais posta rápido rrrsrsrsrsr adorei parabéns