Um Sentido Na Vida - Capítulo 9
Parte da série Um Sentido Na Vida
Capítulo 9
Quando amamos demais uma pessoa, chegamos ao ponto onde fazemos tudo por ela, e começamos a viver em função disso. Pensamos mais neles do que em nós mesmos. Será que amar é mesmo isso, pensar mais no próximo do que em si mesmo? E se a gente pensar nos dois e acabar sofrendo por isso? No fundo todos sabem que somos nós que complicamos as coisas.
Entrei em casa chorando naquela noite, ainda bem que todos já se encontravam dormindo. Tranquei-me no meu quarto e comecei o choro interminável. No chão e depois deitado na cama olhando para o teto, vinha tudo num turbilhão de lembranças na minha cabeça. Os beijos, abraços, encontros, carinhos e juras e mais juras de amor que nós fizemos. Era uma dor crucial, como se eu estivesse sendo torturado de todas as maneiras, e meu coração por mais que fosse dilacerado ainda resistisse mesmo eu não aguentando. As lágrimas que caíam, molhavam não só á mim, mas minha cama quase toda. Por que ele terminou comigo assim? A gente não devia conversar como pessoas adultas? Não devíamos tentar ser fortes e aguentar tudo juntos? Por quê? Ainda não acredito que ele fez isso comigo.
Num desespero repentino peguei meu celular e liguei para ele, eu precisava que ele me escutasse. Ele não atendia, deixei vários recados e mensagens. Léo era minha vontade de levantar todo dia, eu não podia perdê-lo de novo. Eu só queria que ele me entendesse. Passei a madrugada toda preocupado com ele, chorando litros, e sem nenhum sinal de sono. O pior de tudo é começar a lembrar da minha mãe, da morte, das ofensas, da procura que resultou no seu acidente. Aquilo desmoronou também e eu me acabei de vez. Droga! Tudo dá sempre errado pra mim. Nos últimos meses tenho sido destruído e reconstruído diversas vezes, tenho medo que num desses processos meu eu seja interrompido de vez.
As horas foram passando e o dia começou a amanhecer rapidamente. Estava sentado na cama, sem chorar olhando pro nada, quando minha avó bate na porta e tenta abrir. Após um tempo ela finalmente desistiu e foi embora. Meu celular começou á tocar e dei um pulo, atendendo logo em seguida, era ele.
- Daniel... Daniel eu não queria fazer isso com você cara... Desculpa... Eu não quero viver sem você... – ele disse tudo àquilo com um tom meio estranho.
- Léo, Você está bem? Onde você está? – eu quase gritei.
- Na frente da sua casa... Eu quero te vê... Eu preciso te pedir perdão... – ele disse e ouvi um tipo de choro nada normal. Ele estava Bêbado.
Corri para fora do quarto e minha avó que estava fazendo um café na cozinha, se assustou ao me vê correndo porta afora, ainda com a roupa do jantar de ontem. Assim que abri o portão da minha casa, o vi meio alterado do outro lado da rua. Corri para os seus braços com um alívio tão grande, que o apertei com uma força arrasadora.
- Não faz mais isso comigo... – eu disse o abraçando e chorando um pouco.
- Você me ama mesmo? – ele disse com um cheiro até que suportável de álcool na boca. E os olhos fundos e molhados o entregavam completamente.
- É claro que eu te amo. Léo, o tamanho do meu amor por você supera tudo... Eu nunca vou deixar de te amar, nunca! – eu falei tudo isso olhando bem para seus olhos.
Nos abraçamos e ele foi caindo de leve, quase dormindo nos meus ombros. Segurei-o e o levei nada mais nada menos do que pra minha casa. Eu precisava desperta-lo, cuidar dele até deixa-lo sóbrio o bastante pra ir para casa. Levei-o quase caindo de tanto sono. Abri á porta de casa e minha vó tomou um susto ao me vê com ele.
- O que é isso? O que ele está fazendo aqui Daniel? – perguntou minha vó apreensiva.
- Calma, ele só está bêbado e não pode ir pra casa agora vó, eu vou colocar ele no meu quarto. Assim ninguém vai vê-lo, principalmente meu pai. – eu disse o levando apressadamente para meu quarto.
- Aí meu deus! Sua sorte é que seu pai ainda está dormindo. Não deixa ele vê esse rapaz aqui, pelo amor de deus hein. Vai... Eu vou levar um café pra vocês. – disse minha vó correndo pra cozinha.
- Obrigado vó! – eu disse fechando a porta do quarto.
Coloquei o Léo na minha cama e ele desabou dormindo por horas e horas. Decidi dormir do seu lado, de frente pra ele. Assim eu podia ficar admirando-o enquanto dormia. Era tão bom ter sua presença assim tão perto de mim, e ainda mais na minha cama. Ok! Sem pensamentos maliciosos. Até que de repente caí num sono pesado, com muitos sonhos e uma pitada de pesadelos.
...
Num desses sonhos eu estava num jardim fechado por árvores e plantas verdes. Com vários caminhos e saídas que davam para o mesmo local. Era noite e eu caminhava encantado por um emaranhado de cores verdes escuras num tom sombrio e até macabro. Não tive medo, pois quem estava atrás de mim era ele, o Léo, que por sinal estava com uma camisa branca, e diferenciava as cores daquele lugar. Percebi que eu também estava de branco. Ele só fazia me seguir, eu ria, e ele estava serio, mas eu não me importava, eu andava e ele me seguia. Para minha surpresa, um monte de rosas brancas começou a aparecer, no meio do caminho, desabrochando e iluminando aquele mar verde. Elas iam desabrochando uma á uma, grandes e bonitas. Eu parei de andar e fiquei olhando para a beleza daquilo. O sonho era perfeito, tudo no verde escuro se iluminava com aquele branco puro. Ele não estava mais atrás de mim, o procurei e o encontrei á alguns metros da minha frente, ele sorriu dessa vez eu fiquei com vergonha dele me olhando de longe e abaixei a cabeça constrangido. Quando olhei de volta ele tinha sumido. Fui até onde ele tinha estado e nada, senti-me sozinho, perdido e com medo. Corria em voltas por aqueles caminhos de rosas brancas e plantas e não o encontrava. Nem o encontraria... Eu o tinha perdido pra sempre.
...
Acordei triste e ao vê-lo na minha frente dormindo, o abraço e fico assim até pegar de novo no sono. Nos meus sonhos que eu tinha com o Léo, nunca tinha sonhado assim. Ele não desaparecia da minha vida. Era apenas um sonho bobo e sem sentido algum, que me pegou apenas por causa da minha separação da noite passada. Só isso! Eu não acreditava em superstições relacionadas com sonhos, e não seria agora que eu ia mudar de assunto. Que ótimo! Eu não conseguia parar de pensar nisso. Quando abri meus olhos novamente, já eram quase 17:00 de uma tarde de domingo. Vejo o Léo, com os olhos abertos olhando para o nada.
- Faz tempo que você acordou? – perguntei.
- Não muito... – ele respondeu. Ainda pensativo.
- Você bebeu ontem né?... Não faz mais isso Léo, você não é disso. Os dois meses que a gente passou junto, nunca ouvi falar que você bebe. – eu disse.
- Fiz uma grande besteira ontem, eu sei. Minha cabeça estava explodindo e eu não sei, resolvi me distrair. Cara, eu só queria pedir desculpas, te beijar e te pedir perdão. – ele falou me olhando arrependido.
- Bebeu e ainda dirigiu até a minha casa... Você podia ter sido preso ou pior ter um... Eu não quero nem pensar nisso. – eu disse.
- Comprei uma bebida e fiquei no meu carro aí na frente da sua casa, pensando na burrada que eu tinha feito contigo. Não estava em nenhum bar não tá. – ele se defendeu.
- Por que você não me chamou?... Eu liguei pra você a madrugada inteira... Nossa! Ainda assim foi perigoso, podia ter sido assaltado ou coisa pior. – eu falei preocupado.
- Você ligou a madrugada inteira pra mim? – ele perguntou meio que querendo rir.
- Sim, eu liguei e deixei todas as mensagens que eu pude... – eu afirmei na mesma hora.
- Quer dizer que você não ficou com raiva de mim? – ele perguntou.
- No começo sim... Mas depois eu só queria falar com você. Eu acho que você me interpretou mal ontem, quando falei pra você ir pra são Paulo. O que eu quis dizer é que eu amo tanto você que eu quero te vê feliz no futuro e não frustrado por minha culpa. Léo, você acha que vai ser fácil pra mim ter que ficar longe de você por meses e meses? Não vai ser... E mesmo assim eu ainda quero que você vá. Quando a gente ama, pensa mais na felicidade da pessoa amada do que na nossa própria. E é isso mesmo. – eu disse convicto da minha afirmação realista até demais.
- É por isso que eu te amo cada dia mais sabia? Você me ajusta, me endireita e ainda me aguenta com minhas teimosias. Eu vou sim, mas fique sabendo que é a coisa mais difícil que eu já fiz na vida. Ficar longe de você não vai ser nada fácil pra mim. – ele disse serio.
- A gente vai se encontrar sempre... Não importa... Eu sempre vou te esperar. – eu falei tocando seu cabelo.
- E eu sempre vou te encontrar. – ele disse.
Nos beijamos e eu nem me importei com seu hálito ainda forte pelo álcool. Peguei a mão dele e coloquei a aliança no seu dedo. Beijei-a e ele me abraçou tão forte que eu só queria que o tempo parasse ali.
- Eu tenho que ir... Minha mãe deve tá preocupada. Pra foder com tudo minha irmã veio com a gente, e aquela ali não tem limites. – ele falou já se levantando. Eu puxei seu braço e ele se sentou na cama.
- Vai sim... Amanhã vai começar meu último ano letivo. Eu tenho que me preparar e curtir meus últimos momentos dessas férias conturbadas. Se é que você me entende. – eu disse ainda entristecido pela minha mãe.
- E como sei... Eu te pego á noite... A gente janta fora, não sei faz uma noitada com alguns amigos seus? Que tal? – ele sugeriu.
- Eles ainda não sabem da gente... Mas amanhã eu vou deixar tudo em pratos limpos. Chega de mentiras. Então, que tal só a gente? – eu disse, já sabendo que com os amigos deles também não rolaria, já que a maioria tinha se afastado dele por nosso namoro assumido.
- Melhor ainda... – ele disse sorrindo.
- Afinal, depois que você for embora... Vão ser solitários nossos dias. É melhor aproveitar cada minuto. – eu falei.
- Nem me fala... Mas vamos mudar de assunto e... Ficar mais um pouco abraçadinhos? – ele disse me puxando pra perto dele.
- Ótima ideia! – eu disse colocando os braços no seu pescoço e o beijando profundamente.
Ficamos abraçados por um bom tempo, e já quase anoitecendo ele foi embora. Meu pai estava no quarto dele e o Léo saiu bem de mansinho pra ele não vê-lo.
Tudo tinha voltado ao normal e a gente estava junto de novo. Nosso término tinha durado tão pouco tempo, que só mostrava que a chama do nosso amor podia enfrentar qualquer vento e ainda continuar aceso, só que maior e mais quente como nunca. As separações e as brigas só fortalecem ainda mais relações, que como a minha, aceitava tudo demais. As mudanças de humor e clima numa relação podem ser perigosas, mas também bastante reveladoras. Eu confiava no Léo, e sabia que tudo ia se acertar pra ele. Quem sabe até eu fosse morar em São Paulo, e ficar perto dele no ano que vêm. Um ano é muito longo, mas pra quem sabe esperar, sempre consegue as melhores coisas. Eu esperaria mais se tivesse que esperar.
Tomei um banho e fui comer alguma coisa. Depois vi um episodio de uma serie de vampiros na TV, e fiquei lá. Até que o Léo me ligou e disse que já estava á caminho. Aprontei-me em minutos, me perfumando até demais só pra meu namorado. Gostava de sair com ele para todos os restaurantes da noite carioca, e nunca dispensávamos uma boa pizzaria.
...
Assim que chegamos numa pizzaria bem movimentada, nos acomodamos numa mesa e o garçom veio nos mostrar o cardápio com as opções. O lugar estava lotado, com muitas pessoas de todas as idades. Fizemos nosso pedido e enquanto esperávamos, falamos da conversa que ele teve com a mãe e a irmã sobre a ida dele á São Paulo. Ele disse que elas ficaram muito felizes e que até me convidaram pra jantar com elas num feriado distante. Eu só ficava mais feliz por ele, e triste por dentro de ter que ficar sem ele. Nossa Noite foi a mais perfeita possível, rimos muito e ele fez um pedido tão lindo que eu quase chorei.
...
Estávamos saindo da pizzaria, andando abraçados e nos beijando, por uma rua quase deserta onde estava estacionado o carro. Quando ele parou de andar e tocou meu rosto me acariciando.
- Adoro quando você faz isso... O que foi? Você tá me olhando estranho... – eu disse sorrindo e um pouco com vergonha do seu olhar pra mim.
- Eu quero te levar comigo pra São Paulo... Tipo ano que vêm... Você toparia fazer uma faculdade lá? Dividindo um apartamento comigo? Só nós dois? – ele disse com aqueles olhos brilhando n só pra mim.
Eu fiquei tipo sem saber o que falar... Meu deus! Tem como não amar um cara desses?
- É claro que sim... Tudo que eu mais quero é ficar perto de você! Qualquer que seja o preço, já vale á pena só de saber que eu vou ter você do meu lado todos os dias. – eu disse me sentindo um bobo apaixonado.
Ele me beijou fortemente e eu senti que ele já estava animado com nosso possível futuro juntos. Eu ia fazer de tudo pra passar em uma boa universidade em São Paulo, só pra ficar junto dele. Seria uma vida perfeita, a gente ia ser muito feliz. Tá aí um sonho que já está nos meus planos, ter uma vida de casados com meu namorado. Sabe quando você visualiza seu futuro com a pessoa amada, e vê que as mudanças estão apenas começando? Pois é! Poder embarcar numa aventura amorosa arriscada e ao mesmo tempo incerta, é melhor do que só imagina-la. Enfrentaria o que fosse, mas iria atrás da minha felicidade mesmo que eu quebrasse a cara depois. Pelo menos teria vivido algo.
Ao atravessarmos a rua em direção ao carro dele, vimos dois caras meio que nos olhando estranho.
- Olha lá as bichinhas que estavam se beijando? Dois safados... Qual dos dois você acha que é o passivo? – disse o cara mais forte com uma lata de cerveja na mão.
- A Boneca de topete tá mais pra que dar... Desses lixos a gente espera tudo. – falou o mais novo e mais jovem.
Eu e o Léo nos olhamos e eu segurei o braço dele. Ele se controlou e ignorou. No momento em que a gente abriu á porta do carro. Eles começaram a zunir e fazer movimentos obscenos pra gente.
- Vão se foder. Babacas! – esbravejou Léo.
- O que você falou sua putinha? – Disse o grandão.
- Léo, entra no carro! Ignora esses idiotas. – eu disse apreensivo.
- É isso mesmo que você ouviu seu babaca. Vão se foder. – disse Léo, ainda querendo chegar perto deles.
Puxei o Léo com todas as minhas forças pra dentro do carro e ele entrou de boa. Só que não esperávamos que os canalhas fossem jogar tão baixo. Num súbito estrondo, o vidro da frente se rachou inteiro. Um dos caras deu três golpes com uma barra de ferro no vidro.
- Liga pra polícia Daniel, agora! Eu vou acabar com a raça desses caras. – disse ele quase abrindo a porta do carro.
- Não! Você não vai ficar aqui. Eles estão armados. Eu não vou deixar você sair... – eu disse o segurando com força. – é isso que eles querem... Brigar pra se sentirem melhores. A gente é melhor do que isso.
- Filhos da puta! Olha só o que eles estão fazendo... EU VOU CHAMAR A POLÍCIA! – ele gritou pra eles.
- SAÍ DO CARRO FRUTINHAS. TÁ COM MEDINHO É? - disse um dos caras.
Segurei-o na mesma hora pra ele não sair do carro. Eles continuaram a bater com a barra de ferro no carro amassando e quebrando o para-choque e os espelhos. Léo pisou no acelerador e saiu na maior velocidade. Coloquei logo os cintos antes que eu fosse empurrado pra frente. O Léo pisou fundo no acelerador numa rapidez tão forte que parecia que estávamos correndo na fórmula um.
- Meu Deus! Você quase os atropelou. - eu disse desesperado.
- Devia ter acabado com a raça deles isso sim, meu carro tá todo amassado. Quase não enxergo com isso no vidro. – ele disse decepcionado.
- Calma vamos à polícia! Deve ter alguma delegacia aqui por perto. Eles vão ser punidos, não vão se safar de uma dessas. – eu disse e peguei na sua mão e ele olhou pra mim.
Foi nessa hora que sentimos o carro ser empurrado com força pra frente. Eles estavam nos seguindo também. Era pior do que imaginávamos. O Léo corria por umas avenidas muito movimentadas e eu estava com um medo arrasador.
- São eles... Tem alguém seguindo a gente. – disse ele.
- Não acelera! É isso que eles querem... Não entra no jogo deles... – eu disse e já estava á ponto de chorar como uma criancinha de três anos.
Ele acelerava mais e o carro atrás de nós corria numa velocidade assustadora. O carro bateu de novo atrás do nosso e foi aí que as coisas se complicaram.
- Eu vou despistar eles... Ninguém vai nos machucar. Eu prometo... – ele disse com os nervos á flor da pele. Ele sorriu pra mim e essa foi à última imagem que eu tive do Léo. O aperto que eu senti no coração foi como uma agulha perfurando-me. Se olhar era desesperado e ao mesmo tempo (Eu vou te proteger).
Em questão de segundos, o carro capotou e começou á dar vários giros no ar, cada giro eu era impulsionado pra frente e sentia meu corpo meio que flutuar, minha cabeça girava. Os giros me apagaram completamente. A última coisa que eu senti foi uma mão pegar na minha e apertar, depois um grande estouro e não senti mais seu toque.
Nota do Autor: Os capítulos que eu tinha escrito foram resumidos e algumas coisas foram cortadas, mas a história segue firme e no mesmo ritmo. Faltam apenas 4 capítulos para o Final e espero que vocês gostem. 10 e 11 as coisas vão ficar meio pesadas, mas é uma fase que leva á outra, não se assustem. Quero agradecer á todos que comentaram e que acompanham a serie: Anderson P, simon, Kadu Nascimento,Meninomau entre tantos outros que sempre comentaram. Um forte abraço pra vocês e vamos rumo ao final dessa história! bj! :)