Um Sentido Na Vida - Capítulo 7
Parte da série Um Sentido Na Vida
Capítulo 7
Perder alguém que se ama nunca vai ser fácil, e quando uma parte sua se perde junto com ela, é pior ainda. Só nos restam às lembranças, boas ou ruins, elas sempre vão continuar com quem fica. E sempre vão voltar para nos assombrar quando menos se esperar. Naquela noite tinha estado frente a frente com a morte em muitas situações, que me levaram exatamente para aquele hospital, onde a verdadeira morte me esperava.
Acordei com uma dor forte na cabeça e no corpo. Abri meus olhos e estava no meu quarto, na minha cama. Olhava para os lados e não via ninguém, eu estava sozinho. Levantei-me da cama, e fui ao banheiro. Olhei-me no espelho, e vi o grande desastre que era meu rosto. Tinha olheiras grandes e feias, minha pele pálida, eu parecia estar morto. Meus lábios rachados, minha boca seca, meu cabelo assanhado e meus olhos vermelhos. Tudo em mim parecia ter sofrido um colapso. Lavei o rosto, e escovei os dentes. Foi quando enxuguei meu rosto que eu tive um vislumbre do que realmente aconteceu comigo nas últimas horas.
...
Quando apaguei no hospital, fui levado á uma sala, onde tomei soro, e calmante. Eu acordava e chorava o tempo todo. Meu pai foi embora, o Diego ficou comigo até eu finalmente me acalmar e parar de chorar. Eu tinha acabado de perder a minha mãe, e por mais que ela tivesse feito dos meus últimos dias um verdadeiro inferno, eu a amava, e antes de tudo isso acontecer, antes das coisas saírem dos eixos, ela me amava e era uma mãe protetora. Não consegui sentir mais aquela raiva dela, sentia e muito com a notícia da sua morte, foi automático meu desespero.
Ela tinha sofrido um acidente de carro, quando estava a minha procura, e eu nunca ia me perdoar por isso. Quando saí do hospital, vim direto pra casa. O Samuel e sua mãe entenderam tudo e foram embora não sem antes, me pedir o meu endereço. O Diego se encarregou disso, pois eu estava mudo, sem expressão, sem choro e totalmente dopado na saída do hospital. Chegamos à minha casa, e minha avó logo me abraçou e me levou para tomar um banho e comer alguma coisa. No banho eu chorei de novo, o dor da perda me atingiu mais em casa, com uma intensidade que só me fazia lembrar-se dela com mais força. Não conseguir comer nada, só ficar em silêncio na minha, e sentindo as lágrimas chegarem. Fui dormir, e o sono caiu pesado pra cima de mim, pois não sei quantas horas eu dormi. Acabei de acordar e me sinto vazio, oco, sem qualquer estrutura ou até mesmo fora de mim. É um dia estranho, com cores e sensações diferentes, pra ser mais sincero. Não vejo luz no dia, apenas sombras.
...
Ao chegar ao meu quarto, tive um susto quando vi o Diego sentado na minha cama, de cabeça baixa. Ele estava com uma roupa preta, arrumado e completamente triste.
- Você não comeu nada ontem... Vamos comer algo... Eu não quero ter que te levar pra um hospital. – ele sugeriu todo preocupado.
- Eu não quero... Não tenho fome, não consigo comer nada. – eu disse me sentando do seu lado, olhando para o chão.
- Daniel... Olha pra mim... Olha pra mim... – ele disse segurando meu rosto.
- Não consigo... Não consigo mais aguentar essa dor... Foi tudo culpa minha... Eu sou o culpado por tudo. – eu disse me acabando por dentro de novo.
- Você não tem culpa de nada... Para com isso agora! Você não foi e nem nunca vai ser culpado pelo aconteceu com nossa mãe, você entendeu? Você não é culpado de nada. Nunca mais fale uma coisa dessas de novo, á ninguém. – ele disse me segurando forte. Eu o abracei chorando de novo.
- Cadê o pai? Onde ele está? Ainda não o vi... Ele está bem? – eu perguntei.
- Não... Ele está naquele quarto sozinho sem querer falar com ninguém desde ontem... A vovó já falou com ele, ela acha melhor deixa-lo sozinho.
- Será que ele vai me perdoar algum dia? Eu não sei se depois disso ele ainda vai falar comigo Diego... E Você? Me perdoa? – eu perguntei.
- Nada vai me fazer te amar menos, você ser gay, eu não me importo com isso Daniel. Você é meu irmão. E eu vou te amar do mesmo jeito. O pai vai ter que te aceitar, querendo ou não. Ele não vai te colocar pra fora dessa casa. Se você sair, eu também saio! – ele disse decidido.
- Obrigado Diego, você é quem eu mais temia perder... E ouvindo isso de você... Você não tem noção de como eu tô aliviado. – eu disse o abraçando de novo. – Tudo bem... E o funeral? Tá tudo certo?
- Eu já cuidei de tudo... Vai ser agora á tarde. – ele disse.
A vida nos ensina a ser forte diariamente, e numa situação dessas, ela praticamente nos obriga.
...
Era quase o final de uma tarde de terça-feira, quando eu joguei uma flor no caixão e o corpo da minha mãe foi sepultado num cemitério da cidade. O último adeus foi mais rápido do que eu pensava. Estavam todos no funeral, amigos, parentes e minha família. Até o cara que eu tinha salvado, e sua mãe estavam lá. Queria que o Léo estivesse ali também, ele seria minha força, mas ele não estava. E eu tinha que ser forte comigo mesmo. Anoiteceu e quando chegamos em casa, me tranquei no meu quarto e fiquei sozinho por dias e dias, sem me alimentar direito ou até mesmo dormir bem. Eram meus dias de luto, eu precisava deles.
...
Na segunda semana de Janeiro de 2013, minha família e eu fomos à missa de sétimo dia na igreja. Todos os familiares e amigos estavam presentes também, assim que terminou recebi vários conselhos e palavras de conforto de muitas pessoas que eu nem sabia que nos conheciam. Um dia depois fui ao cemitério, precisava ir lá sozinho. Quando cheguei lá, olhei bem pra foto dela na sepultura e desabei a chorar. Por quê? As coisas poderiam ser diferentes se ela não tivesse surtado, se ela tivesse me escutado, eu a amava tanto. Ela poderia ter sido minha única amiga, mas no final resolveu ser uma inimiga. Todas as atitudes dela nos levaram para esse desfecho trágico, e quando ela achou que podia concertar as coisas, foi tarde demais. O destino é traiçoeiro e cruel, pode nos levar para fins sem antes nem avaliar seus meios. Quando eu chegava em casa, tudo voltava e eu não conseguia me sentir inteiro.
...
Os dias foram passando e eu comecei a ficar pior com meu estado depressivo, sempre me isolando de tudo e de todos. Meu pai não falava comigo, meu irmão e minha avó eram os únicos que falavam durante o dia. Sempre vinham pessoas me visitar, e eu sempre mandava minha avó dar mil e uma desculpas para não receber ninguém. Eu passei o começo das férias trancado no quarto, sozinho. Minha cama era meu único refúgio. E Distraía-me lendo, vendo filmes no computador, na internet, escutando musicas mais lentas e depressivas do que jamais ouvi antes. Os meus pensamentos me atormentavam todas as noites, e eu trocava a noite pelo dia. Essa era a minha rotina diária.
Meus amigos estavam em viagem, eu só via as fotos no facebook, deles se divertindo, felizes e curtindo a vida. Namorando, Enfim, vivendo mesmo. Bia e Juliana me perguntaram como eu estava e se eu estava curtido muito as férias, elas estavam radiantes, eu não iria incomodar ninguém com meus problemas. Disse apenas que estava “tudo bem”. Eu estava num fundo do poço, sem luz no final dessa vez. O Léo, não aparecia nem nas redes sociais. Liguei para o seu celular e sempre encaminhava para a caixa postal. Precisava tanto falar com ele, contar tudo a ele, sentir seu abraço, seu toque. Só vê-lo já me faria ficar melhor. Olhei para a aliança no meu dedo, era como uma lembrança de uma vida perfeita, no final foi tudo um sonho mesmo.
O Artur me ligou numa sexta-feira, para me convidar a ir ao cinema, ele sempre ligava. E eu sempre dava a mesma desculpa, de que não estava afim. Ele é meu único amigo que além de saber de mim, também me ajudou bastante logo depois do funeral. Ele vinha aqui em casa com uma frequência absurda, e eu só queria ficar sozinho. Ele finalmente entendeu e parou de vim, eu me fechei mais do que uma lua nova depois disso. Mas naquele dia, resolvi aceitar o seu convite, pois meu irmão estava me enchendo, sempre querendo me levar num psicólogo, e eu precisava o convencer de que não precisaria. Depois de quase todas as minhas roupas terem ficado perdidas, tinha poucas opções pra sair, peguei o primeiro trapo e saí para o shopping, minha avó até ficou feliz com minha saída da toca.
Eram 17:00 horas quando cheguei no shopping que tinha marcado. Logo vi o Artur, ele estava me esperando na frente de uma livraria.
- E aí? Como você está? – ele disse e me deu um abraço. Que ótimo! Esses abraços estavam ficando um pouco frequentes demais.
- Bem... E você? – eu disse ainda com aquele tom melancólico.
- Estou bem também... Eu fiquei muito feliz por você ter aceitado finalmente meu convite, eu sei muito bem o que você tá sentindo... Esqueceu que eu passei por tudo isso com o Mateus também?... – ele disse tocando meu ombro.
- Claro, eu lembro sim... Eu vou superar isso... Ainda é difícil, mas eu vou levando... – eu disse disposto a ser mais convincente na suposta teoria que ficaria tudo bem algum dia.
- E aí o que você acha de a gente vê um filme de comédia? Tem um que eu tenho certeza que você vai adorar. – ele disse se animando.
- O que você escolher eu vejo... Vamos? – eu disse tentando ser o mais animado possível.
Assistimos a um filme bem engraçado, eu só não imaginava que fosse tão romântico. Aquilo acabou comigo, e me arrependi de ter assistido.
...
Quando saí da sala de cinema, meu estado depressivo mudou no mesmo instante em que vi o cara mais charmoso e mais bonito vindo à minha direção, O Léo. Ele andava de um jeito, com aquela segurança, aquele olhar negro, ameaçador só pra mim. Ok! O mundo poderia acabar, mas quando ele chegava tudo ficava bem de novo. Corri na sua direção, não me importando com pessoas, com o Artur, só via ele na minha frente. Ele também correu até mim. Ficamos frente a frente, nos encarando por uns segundos até que ao mesmo tempo nos abraçamos. Foi como se tudo girasse em torno da gente. Cara! O abraço dele reconstruiu até o que não estava quebrado em mim. Foi mágico, o encaixe perfeito.
- Eu pensei que eu não te veria mais... Você não saia de casa, cara! Eu passei os últimos dias de vigia na tua rua e nada. Se celular não atende mais? – ele perguntou.
- Longa história. – eu disse me lembrando da noite trágica.
- Você não sabe como é bom sentir teu cheiro de novo. Eu juro que não vou te largar nunca mais. Nunca mais! – ele disse sussurrando no meu ouvido. O seu aperto era esmagador, e eu só queria mais e mais daquele esmago.
- Léo! Onde você estava? O que aconteceu? Você está bem? Aquele dia... Eu nem sei o que aconteceu com você... Eu liguei pra você e... – eu disse olhando bem pro seus olhos.
- Eu estou bem, bem melhor agora. Minha irmã... Eu sei... Não se preocupa com isso... Eu já dei um jeito nela. Desculpa ter abandonado você naquele dia... Eu só não sabia o que fazer, sabe eu fiquei sem direção ali, vendo você e sua família discutindo, eu achei melhor ir embora, antes que eu te sequestrasse daquele inferno. Desculpa! – ele disse com aquela carinha triste quase implorando minha compreensão.
- É claro que eu desculpo você... Esqueceu que eu te amo! Nada mudou pra mim... Eu senti tanto sua falta... Foram horríveis meus últimos dias sem uma única palavra tua. – eu disse.
- Você não tem noção de como eu corria pra vê você... Eu vou te contar tudo... Mas vamo sair daqui antes que eu te pegue e te beije na frente de todo mundo... – ele disse puxando minha mão. Seu toque era um tipo de energia elétrica na minha corrente sanguínea.
- Vamos sim! Só que antes eu tenho que liberar o Artur... Ele foi o causador da minha saída hoje. – eu disse o levando em direção ao meu amigo que no final me proporcionou esse encontro maravilhoso.
- Bom, pelo visto você está em boas mãos... Eu já entendi tudo. – ele disse assim que cheguei.
- Tem certeza que não tem problema pra você? Porque se tiver eu e o Léo... – eu disse torcendo para ele dizer que ficaria bem sem mim.
- Pode ficar tranquilo... Eu já liguei pra minha mãe me pegar! O Léo e você devem ter muito que conversar não é? – ele disse meio desapontado.
- Bastante... – disse o Léo, alisando minha mão.
- Então a gente se vê outro dia... E obrigado por ter me feito sair daquele quarto. De verdade Artur, você já é o meu melhor amigo. – eu disse o agradecendo de verdade.
- Relaxa! Você também é o meu... Bom, vou indo! Até mais! Tchau pra vocês! – ele disse saindo.
- Agora você é meu! – falou o Léo me levando para o estacionamento.
Assim que a gente entrou no carro dele e fechamos a porta, ele me beijou de um jeito avassalador, que parecia que ia comer meus lábios de tanta fome. Eu só fazia o abraçar, e o sentir mais perto de mim a cada beijo. Ficamos ali naquele amasso por alguns minutos, e depois ele me levou até um lugar na praia, onde sempre namorávamos. A Noite estava linda, com uma lua cheia brilhante. Ao chegar à praia, nos sentamos abraçados na areia e começamos a conversar sobre tudo o que aconteceu nos últimos dias.
Ele começou dizendo que quando foi embora naquele dia, me deixando sozinho naquela cena terrível, foi pra casa com um machucado na boca e no nariz, por conta dos socos do meu pai. Sua mãe ficou uma fera, e a irmã dele que estava de férias lá com eles, quase chamou a polícia, ela foi a grande pedra no sapato dele esses dias. Jogou fora o celular do Léo, com todos os seus contatos, fez ameaça de contar para o pai deles sobre o namoradinho do filho e ainda o levou para São Paulo para comemorar o aniversário dele. O Léo, diferente de mim, não tinha problemas com a família por sua opção sexual, a mãe dele entendia. Já a irmã, nem tanto. Que ótimo! Uma nova vilã entra na história.
- Ela só está fazendo o dever que todo irmão faria, pra proteger o outro de se machucar. Está te protegendo, apenas isso. Ela gosta muito de você Léo. – eu disse querendo que ele não a visse como uma megera, mas uma protetora dele.
- Ah que isso, eu quase partir pra cima dela, quando ela quebrou meu celular. Eu passei dias sem nem entrar na internet por causa dela. Eu queria te encontrar Daniel, queria te vê. Saber se você estava bem, depois de tudo aquilo. Eu só pensava em você... – ele falou me beijando o pescoço.
- Você sempre vai me encontrar... E eu sempre vou te esperar. Léo, essa separação só fez crescer ainda mais nosso amor. – eu falei e o beijei de leve o queixo. Aquele cavanhaque era lindo e sempre me fazia delirar, quando roçava em minha pele.
Foi aí que comecei a contar minha parte. Contei toda a minha noite espetacular, desde o despejo até o funeral. Saiu tudo com pausas, e no final eu chorei ao contar da minha mãe. Ele só me fazia abraçar, me beijar, ele era meu conforto e minha força ao mesmo tempo.
- Que barra hein... Imagino o que você passou. Cara, se eu soubesse que você estava passando por tudo isso, eu teria gritado teu nome naquela rua até você me ouvir, invadia a tua casa, te sequestrava, sei lá. Mas sozinho, eu não te deixaria sozinho nunca nesse momento. Eu teria estado contigo, te dando tudo que eu pudesse dar só pra não te ver chorar. – ele me enxugou minha lagrimas e acariciou meu rosto. - Não fica assim, eu estou aqui, e não vou deixar nada e nem ninguém te machucar, Daniel. Eu te amo! Você sabe disso. – ele falou aquilo olhando bem nos meus olhos. Eu só o amava mais e mais naquele minuto. Nos Beijamos de novo e de novo, curtindo aquele momento mágico e romântico.
Sabe quando você ama tanto uma pessoa á ponto de querer ser um só. Era assim que eu me sentia ali, abraçado com o Léo, sentindo o vento vindo do mar, bater nos nossos rostos. Eu não queria solta-lo nunca mais, pois eu tinha certeza que ser amado é o maior presente que você pode ganhar na vida. Amor é o que dá sentido á todas as histórias.
Algumas horas depois... Nos deitamos na areia, e ficamos olhando para o céu. Eu só fazia abraça-lo, ali com a cabeça no seu peito, sentindo seu cheiro suave, seu calor. Até que ele me faz uma proposta irrecusável.
- Fica comigo hoje à noite? – ele perguntou.
- Hoje á noite? Eu não sei... – eu disse meio indeciso.
- Eu preciso de você... Não vou conseguir dormir hoje sem você... Tipo, se você quiser ficar apenas dormindo de conchinhas, eu já vou me dar por mais que satisfeito. Dorme comigo Daniel... – ele disse me acariciando o cabelo.
- Léo, e onde a gente dormiria? No seu carro? – eu perguntei já aceitando qualquer lugar.
- Na minha casa ué? Minha mãe tá de boa com isso, ela sabe que eu amo você... E seria bom você conhecer a minha mãe, que tá querendo te conhecer á um bom tempo... – ele disse bem tranquilo com isso.
- Não! Eu quero conhece-la de um jeito mais formal, não assim. Eu sou muito tímido... Seria um completo desastre. Outro dia eu durmo na sua casa tá... – eu disse rindo da expressão que ele fez.
- Você não é tímido... Só quando não conhece as pessoas. E depois que você conhecer a minha mãe, aí vai ver o que é timidez de verdade. Por favor... Vem comigo? Só hoje? – ele disse implorando, e eu quase disse sim. Mas não, eu não queria começar meu relacionamento com minha sogra desse jeito.
- Outro dia... Eu juro que vou... Mas hoje não... E tá na hora de a gente ir... – eu falei olhando para o relógio. – Já são 21:00horas, minha avó e meu irmão devem tá preocupados... É melhor a gente ir. – eu disse puxando ele e me levantando.
- Tá beleza! Mas eu vou cobrar isso hein... E aí de você se não aceitar... Eu te sequestro... – ele disse sorrindo e me pegou no braço.
- Léo, para! O que você tá fazendo... – eu disse rindo e com vergonha. Ainda bem que a praia era bem deserta naquele horário.
- Eu vou te carregar assim... Até o carro... Não adianta pedir pra descer... – ele disse correndo.
Chegando ao carro, abriu a porta e me colocou no assento de trás e fechou a porta entrando também, e ali mesmo ele pulou em cima de mim e me deu o maior amasso. Eu sentia todo seu corpo pressionando contra o meu, me envolvendo numa onda de calor e excitação. Ele me beijava com uma fúria, com uma vontade de arrancar tudo, era surreal. Eu só fazia retribuir com mais intensidade e mais prazer. Até que ele começou a tirar minha blusa e eu a dele.
- Léo, o que você está fazendo? A gente tá indo longe com isso... – eu disse sem ar.
- Eu quero ficar com você aqui, no carro... Só um pouquinho... A gente fica mais a vontade e eu posso fazer isso. – ele disse colocando a mão na minha bunda e me puxando para si num abraço mais apertado. Tirei a calça e ele tirou a dele.
Já nos encontrávamos excitados. Ele pegou uma camisinha num compartimento do carro e a abriu.
- Você quer mesmo fazer isso aqui? – eu disse ainda indeciso.
- Não tenha dúvidas... Vêm... – ele disse me puxando para seu colo. Segurei seu pescoço e deixei ele me invadir.
O mesmo fogo da noite inesquecível tinha voltado novamente, e dessa com força total. Transamos no carro, que era apertado e nos deixou ainda mais quente. Era tanto calor que emanava dos nossos corpos, que o vidro suava. Naquela noite, o Léo estava Insaciável em todos os sentidos. Na nossa primeira vez, ele realmente tinha se controlado, porque agora ele tinha uma pegada, que não tinha limites, era sem controle completamente. Sua boca me invadia por todas as partes do meu corpo, e eu mordia de leve seu pescoço, seus lábios, era como ir á lua. O Inesperado é sempre mais prazeroso. Nunca que eu imaginei que minha noite fosse se tornar tão bela, em poucos minutos. Assim que terminamos, nos deitamos naquele pequeno espaço, bem juntinhos e ainda sem roupa.
- Que tal a gente ficar aqui o resto da noite? – ele propôs.
- Eu nem hesitaria... Mas não posso... Eu tenho mesmo que ir e você não está ajudando me deixando assim... – eu disse ainda sem fôlego pelos seus beijos molhados no pescoço.
- Eu não quero te deixar ir... – ele disse e nos abraçamos.
Perto das 23:00 horas, ele me levou em casa. Na saída do carro, ele me deu seu novo numero de telefone e me despedi dele.
Quando entrei em casa, meu pai estava vendo tv. Não olhou pra mim, eu apenas dei boa noite e só minha avó me respondeu. Ele não tirou os olhos da TV. Não sei quanto tempo ele continuaria com aquilo, mas eu não aguentava mais aquele mesmo clima, o mesmo que acontecia quando minha mãe estava viva. Eu fui pro meu quarto, e liguei para o Léo, como combinamos. Fiquei horas e horas falando com ele, até que resolvemos dormir. Meu irmão veio me vê como sempre fazia antes de dormir. Pra vê se estava tudo bem. Ele era o irmão mais preocupado e protetor, e eu não podia ter mais sorte do que isso.
...
O dia amanheceu rapidamente, eu acordei mais disposto e tentei arrumar meu quarto da bagunça das últimas semanas. Após limpar meu quarto, fui ajudar minha avó com algumas tarefas em casa. Ela sempre atenciosa e bondosa. Repreendia-me apenas pelo meu isolamento, mas fora isso, era uma mãezona. Estava limpando o quarto dos meus pais, quando passei a vassoura embaixo da cama e veio algo que eu nunca pensei encontrar novamente, o meu diário.
O diário estava amassado e com algumas páginas rasgadas, estava na hora de me livrar daquilo de uma vez por todas e seria agora. Rasguei todas as páginas e queimei numa lata de lixo do lado de fora de casa. Era melhor acabar aquilo com fogo, depois de tudo que eu passei por causa daqueles papéis. A fumaça logo se extinguiu, e meu pai tinha acabado de chegar do trabalho e estava olhando diretamente para o fogo se apagando. Só sobraram as cinzas daquele vilão de papel.
- Pai! O senhor chegou cedo... – eu disse querendo puxar papo com ele.
- Não fala comigo... Eu não quero ouvir nada vindo da sua boca suja. Você acha que eu vou te perdoar? Nunca! Você não vai fazer comigo, o que fez com a Elisa. – ele disse frio e bruto.
- O que foi que eu fiz com ela? Eu não fiz nada... Para com isso... Para de colocar a culpa em mim. Eu sou seu filho, caramba! – eu disse em alto e bom som. Estava farto de ser calmo com ele.
- Não é mais... Eu tô te suportando por causa da mamãe, mas se não fosse por isso, nem o Diego me faria te pôr aqui dentro de novo. Você acha que eu me arrependo pelo o que eu fiz? Não! Me arrependo de não ter feito isso antes. Como eu pude ser tão cego com você hein? – ele disse com uma raiva de mim, exalando por todo lugar. Ele tinha ficado calado, todos aqueles dias, mas hoje ele estava disposto a dizer tudo que guardou, pelo visto.
- É assim que você quer? Começar a vê o próprio filho como um inimigo? Eu não vou aturar isso de novo. Eu vou embora dessa casa... É isso que você quer não é? Fala... E quando eu sair por aquela porta, eu nunca mais vou perdoar você pelo que você tá fazendo comigo. Nunca! – eu disse, já com os olhos cheios de lágrimas, olhando bem fundo pra ele.
- É um favor que você me faz... Suma e nunca mais apareça... A vida vai se encarregar de te dá tudo que você merece. – ele disse entrando em casa.
Não! Agora ele vai me escutar, e eu vou tirar tudo que está engasgado aqui na minha garganta todos esses meses. Não sei o que deu em mim, mas quando entrei em casa não me senti eu mesmo, dizendo aquilo que eu disse.
- Você quer saber quem é o culpado aqui? Então vamos lá... A mamãe foi quem se matou... Ela se destruiu... Ela foi à causadora de tudo de ruim que aconteceu nessa casa, foi ela a culpada! E você se acha no direito de colocar a culpa em mim?... Então você também é culpado... Onde você estava quando ela tomava aqueles comprimidos todos hein? Você só se preocupava com seu trabalho. Pra você tudo tem que ser perfeito, mas vida não é perfeita, ninguém é. Tudo isso só por que eu sou gay... SOU GAY SIM! E vou continuar sendo. Aceite isso, pois eu nunca eu vou mudar! E se você não tivesse me expulsado... Ela não teria ido me procurar. Ela estaria viva... Você se acha o dono da verdade, mas você não é o certinho da história. Então não coloca a culpa só em mim! – eu disse e senti a tapa na cara na mesma hora.
- CALA Á BOCA! CALA ESSA BOCA... – ele disse segurando meu pescoço, tentando me sufocar dessa vez.
- Me mata! Pode me matar... Eu sei que você vai se sentir bem melhor fazendo isso... Vai! Acaba logo com isso! – eu disse aos gritos quase sufocados pelas suas mãos. Minha avó veio correndo e gritava o segurando para ele parar, eu só o mandava continuar. Até que ele parou e caiu no chão chorando muito.
Ele chorava no chão e eu em pé olhando pra ele. Minha avó o consolava chorando também. Eu tinha dito tudo, e a verdade pode ser difícil quando se torna tão verdadeira diante dos fatos.
- Você está me perdendo novamente sabia? Não me deixa sozinho no momento em que eu mais preciso de um pai... – eu disse chorando.
Corri pro meu quarto aos prantos, e me tranquei. Eu não tinha mais mãe e também não teria mais pai. Eu estava definitivamente órfã. Aquele ciclo de coisas ruins não acabaria assim tão fácil. Senti tudo voltar de novo, e já estava em depressão novamente. Lembrei-me que ia encontrar com o Léo, em algumas horas e me recompus. Algumas horas depois, saí do quarto e fui à cozinha comer algo.
- Daniel, Eu tenho uma proposta pra te fazer... – disse minha avó, assim que me sentei à mesa.
- Que proposta vó? – eu disse.
- Eu vou voltar para Fortaleza... Essa cidade aqui e esse caos todo tá me deixando louca... Você sabe como eu gosto da minha casa né... E eu pensei... Você quer vim comigo?... Por um tempo? Até as coisas se acalmarem mais por aqui... – ela falou aquilo do tipo (Estou te tirando desse inferno, e espero que você aceite).
- Foi ele não foi? Pode me dizer vó. Ele não me quer mais aqui nessa casa não é? – eu perguntei.
- Não meu filho, ele nem sabe disso... Daniel, eu queria levar você. Você viu o que aconteceu hoje... Ele está muito ressentido ainda, a perda não é só sua, mas dele também. Você tem que entender que não vai ser tão fácil assim, seu pai falar com você numa boa. Vamos deixar o tempo resolver isso. Eu tenho certeza que logo, ele vai se curar dessa dor e vai te pedir perdão por tudo que ele fez. – ela disse com aquela tranquilidade que só ela podia trazer. Apenas balancei a cabeça concordando.
- Eu ia adorar vó... Ia mesmo. Mas minha vida tá toda aqui sabe? Eu vou terminar o ensino médio, me preparar para o vestibular, tem o meu namorado e a gente se ama muito. Eu não posso abandonar essa vida e começar outra. – eu disse esperando que ela entendesse.
- Claro que sim... Temos tempo... Eu apenas quero que você saiba que pode sempre contar comigo. – ela disse meio animada com minha possiblidade de ir com ela.
- Quando a senhora pretende voltar? E por que tão cedo? O que o papai tem a dizer sobre isso? – eu perguntei.
- Seu pai me conhece e sabe a mãe que tem... Eu volto logo após o Carnaval. – ela disse já animada pela volta.
- E se a senhora ficar doente de novo? Vó a senhora tem que ficar... – eu disse querendo que ela mudasse de ideia.
- Meu lindo... Se acontecer algo comigo, é porque tinha que acontecer mesmo. A gente não foge da morte, só adia, e muitas vezes nem isso se consegue fazer. – ela falou aquilo e viu que eu mudei um pouco de humor.
Não pensaria na minha mãe e nem nos outros problemas. Eu estava me fortalecendo de novo, voltando ao normal e tinha que seguir em frente. Eu nunca iria embora e deixaria a minha vida aqui no rio. Eu tinha o Léo, tinha meus amigos, tinha meus próprios problemas e gostava daqui. Meu pai iria ter que me aturar, se ele pensava que ia se livrar de mim, estava muito enganado.
...
O mês de janeiro passou voando. Bem no começo de fevereiro, eu tinha acabado de acordar, e estava na internet, quando o meu celular toca e vejo que é o Léo. Atendo na mesma hora.
- Oi meu amor... Estava sonhando com você. E aí como foi a viagem? – eu disse. O Léo tinha viajado para São Paulo com mãe dele, por motivos que ele disse que seria de família.
- Oi meu gostosinho! Saudades de você já... Foi ótimo! E você como está sem mim? – ele perguntou com aquele tom que só ele sabia fazer.
- Morrendo de saudade também. Sente só meu abraço. – eu disse tirando uma foto de um abraço meu e mandando pra ele. Ok! Nós éramos muito frescos com nossa relação. Mais quem não é né. Recebi outra foto com um beijo dele.
- Olha... Eu preciso falar com você... E é sério. – ele disse ficando mudando o tom.
- Tá fala... – eu disse. Um pouco com medo.
- Eu acabei de saber que passei numa universidade... – ele disse meio tenso e não entendi por que.
- Meu Deus Léo, isso é ótimo... É maravilho... Você conseguiu meu amor. Eu estou muito feliz por você! Queria estar aí com você agora. Te enchendo de beijo... E qual foi à universidade? – eu perguntei, transbordando de felicidade por ele.
- Obrigado meu amor... Mas tem um problema... – ele disse e eu fiquei calado ouvindo. – Eu passei na USP, aqui em São Paulo. – ele disse e ficou calado.
Fiquei sem reação. Mudo por alguns segundos, pois o Léo iria fazer uma faculdade em outro estado, e a gente se separaria na certa.
- Uol! Nossa! Léo isso é incrível... Caramba é demais... – eu disse ainda sem chão.
- Eu não vou ficar sem você Daniel, Eu vou tentar alguma no Rio nesse meio do ano, não sei... Mas ficar longe de você, não mesmo. – ele disse decidido a jogar tudo para o alto.
- O que? Não! Você não vai fazer isso Léo... Você não vai fazer isso... Você tá me ouvindo... Eu não vou deixar você perder uma oportunidade dessas nunca... – eu disse e ele desligou na minha cara.
Que ótimo! Era o futuro dele que estava em jogo. O nosso amor era maior do que tudo. Mas eu não deixaria que isso o cegasse. Tentei ligar de novo e só dava desligado. Alguns minutos depois minha avó chega na porta do meu quarto.
- Tem um rapaz bonitão aí querendo falar com você... Aliás, há dias que ele vem e você sempre dava a desculpa de não querer vê ninguém. Até que ele parou de vim, e hoje apareceu de novo. – ela disse.
- Eu não estou para ninguém hoje vó... Manda ele vim outra hora. – eu disse estressado e tentando a todo custo ligar para o Léo. Tinha que resolver aquilo.
- Eu já o mandei entrar e ele está na sala... E você vai sim falar com ele. Ou eu o mando vim aqui. É pior pra você. – ela disse me ameaçando.
- Aí meu deus... Tudo bem eu vou lá despachar ele... Aliás, quem é hein? – eu disse indo em direção à sala.
Quando vi seu cabelo, já sabia quem era. O anjo voltou, e estava mais encantador e bonito. O Samuel que eu salvei na praia, era muito diferente e só agora eu via de verdade o seu estado normal.
- Samuel... Oi! Tudo bem... Você por aqui... – eu disse sorrindo e tentando ser o mais receptivo.
- Oi! É... Eu queria saber como você está... Depois daquele dia... Eu fiquei bastante preocupado com você. – ele disse com aquele olhar de preocupação muito suspeito.
- Ah! Tem sido dias complicados... Mas eu estou bem sim. – eu disse querendo que ele fosse embora logo.
- Eu não quero te atrapalhar... Mas eu me sinto em dívida com você ainda... – ele disse.
- Não! Cara! Eu fiz aquilo com todo meu coração... Não precisa se sentir em dívida não. Só de você vim aqui e querer saber como eu estou já é um presente. São poucos os que se preocupam sabe. – eu falei aquilo e tive a impressão de que as palavras tomaram outro tom pra ele. Que ótimo! Agora vai ser difícil o despachar. Eu só queria falar com o Léo. Nada contra o Samuel, mas ele não era quem eu queria falar nesse momento.
- Mesmo assim... Minha mãe quer que você jante conosco... Ela quer dar um jantar e solicita sua presença. É muito importante que você aceite... Juro que depois disso não vamos te incomodar mais. – ele disse com aquela carinha de anjo.
- Bom! Eu aceito sim... E não... Você não incomoda. Que é isso! – eu disse meio sem graça.
- Te pego hoje á noite as 20:00 horas que tal? – ele disse ansioso pela minha resposta.
- Pra mim tudo bem... – eu disse e na verdade não estava nada bem, mas eu não queria magoa-los. Eles eram tão legais. Então era melhor acabar logo com aquilo.
- A gente se vê então... – ele disse e apertou minha mão. Se olhar era doce, e aqueles olhos verdes o faziam o ser mais diferente que eu já vi na vida. O Levei até a porta e bem na sua saída ele virou pra mim e tocou meu rosto.
- Tem um cílio bem aqui... – ele disse e o pegou com o dedo, soprou e me olhou. Se olhar era bem típico de uma pessoa que está interessada. Abaixei o olhar e ele foi embora. O que estava acontecendo comigo? Eu senti a mesma energia, quando nos olhamos no hospital. Se ele acha que essa historia terminaria como ele estava pensando. Eu jogaria as cartas na mesa e despacharia esse cara no jantar, deixando claro a minha posição sobre isso.
Quando estava saindo da sala, a porta se abre de novo e meu pai entra com um cara. Eu até iria para o meu quarto se não conhecesse o tal cara que ele trouxe com ele. O Carinha, que tinha me encontrado no calçadão e pensado que eu era um garoto de programa, e tinha me dado o cartão dele. Estava bem na minha frente petrificado me olhando. Eu só podia estar numa cena de pegadinha da TV. O que ele estava fazendo na minha casa? Meu pai entrou e o deixou na sala esperando.
- Você? – eu disse.
- Mundo pequeno esse hein garoto. Mas eu estou começando a acreditar em destino... – ele disse com um sorriso safado no rosto me encarando.
Já até sei qual vai ser meu novo drama. Que ótimo! A sacanagem que a vida faz comigo, não tem fim mesmo.
Nota do Autor: Gente esse cap 7 foi o mais chato que eu já escrevi... rsrs! Reviravoltas no próximo capítulo! Preparem-se! Bjs á todos! COMENTEM! :)