Um Sentido Na Vida - Capítulo 6
Parte da série Um Sentido Na Vida
Capítulo 6
A crueldade mesmo está no ato de olhar e não fazer nada. Ajudar o próximo não deveria ser uma escolha, e sim um dever que todos deveríamos aderir na nossa vida. É uma grande pena que nem todos tenham uma real consciência disso. Pois uma simples atitude humilde no nosso dia a dia pode salvar e fazer a diferença em muitas vidas, e muitas vezes histórias podem ter finais diferentes por conta dessas atitudes.
A chuva caía e eu me encharcava, já tinha andando á tarde toda pelas ruas vários quilômetros de distância no meio daquela tempestade. Sem rumo ou qualquer destino aonde pudesse ir. Estava Perdido, sozinho e abandonado por todos. Uma forte ventania invadia as ruas, trazendo com ela um frio assustador. Aquela noite era sombria e silenciosa, apenas iluminada pelos fortes relâmpagos pelos céus da cidade, e pelo som dos raios e trovões. Era 19h30min da noite e eu continuava andando sem destino.
Encontrei um ponto de ônibus vazio e me sentei um banco, eu comecei a tremer e a dar vários espirros. Ia pegar um resfriado molhado do jeito que estava. Minha boca estava inchada, meu corpo implorava por descanso, minha cabeça ia explodir de tanta dor. Resolvi me deitar ali mesmo e esperar a chuva passar, se é que ela ia passar mesmo. Fechei meus olhos e pensei nas minhas opções de ajuda. Não podia contar com meus amigos, pois os únicos que eu tinha tinham viajado, o Léo é minha única alternativa, só posso contar com ele. Eu preciso dele agora mais do que nunca. Peguei meu telefone na bolsa e vi 30 ligações, 15 mensagens de texto do Léo durante á tarde, e várias chamadas do meu irmão. Estava num transe tão grande que não ouvi nada, me lembrei de que também tinha deixado meu celular no silencioso. Liguei para o Léo no mesmo instante. Chamava e ninguém atendia. Liguei umas quatro vezes e na quinta atenderam.
- Léo? – eu disse ansiando pela sua voz.
- Aqui é a mãe dele... Quem está falando? – ela disse.
- Ah... O Léo está? Eu poderia falar com ele? É um amigo dele, o Daniel. – eu disse sem entender o porquê da mãe dele está atendendo seu telefone.
- Daniel... Ele não pode falar agora... – ela disse meio estranha.
- Ele saiu pra algum lugar? – eu disse me desesperando. Ouvi alguém puxar o telefone e uma pequena discussão do outro lado.
- Aqui quem fala é a irmã dele... E eu vou te dar um conselho e espero que você ouça com muita atenção... Não liga mais pro Léo! Esquece ele... Saí da vida do meu irmão... Se você chegar perto dele de novo... Eu acabo com a tua raça... Meu irmão está todo machucado por tua causa. O que você quer mais dele Hein? Destruir a vida dele? Ele vai se dedicar a uma boa faculdade esse ano, e não vai perder tempo com você garoto. Se toca! Segue a porcaria da tua vida e deixa ele em paz. – ela disse e desligou na mesma hora.
Eu só sentia minhas lágrimas começarem a cair de novo. Era pior toda vez que eu chorava, cada vez vinha com uma intensidade maior e destruidora. Perdi o Léo também pelo visto, tínhamos tido uma noite tão perfeita e inesquecível, que era de se esperar que algo ruim acontecesse logo depois. Minha vida tem disso, acontecer coisas ruins quando as boas estão ótimas demais pra ser verdade. Ele tinha sido espancado por meu pai e escorraçado pelo meu irmão. Será que ele ainda falaria comigo algum dia? E todas aquelas ligações, recados e mensagens que eu vi só agora? Ele estava procurando por mim, mas algo deu errado, só podia ser isso. Será que ele estava bem? Aí meu deus! Se algo acontecesse a ele, eu juro que morreria. Não consigo viver num mundo sem ele. EU O AMO! Será que a gente ainda teria alguma chance de ser feliz algum dia juntos? Todas as respostas eram um mistério pra mim, que eu não via mais nos meus devaneios, em consequência dos últimos acontecimentos. Eu já não conseguia vê o futuro que tanto planejei, não via mais nada, só uma página em branco.
Eu não sentia ódio do meu pai, mas sim da minha mãe. Não a queria como nada meu, nada. Meu pai deve ter visto tudo que eu escrevi naquele maldito diário, ali não tinha só minhas últimas palavras sobre o Léo, mas também de todas as minhas paixões platônicas que eu tive na vida. Se ele leu tudo, eu não vejo como ele pode me perdoar por todas as mentiras que eu inventei todos esses anos. A única coisa que eu fiz toda a minha vida, foi ser outra pessoa, apenas pra não magoar as pessoas que eu amo, com meu eu verdadeiro. E no final das contas, foi um resultado que deu no mesmo caminho que eu sempre temi chegar. Agora vejo que não dá pra fugir, os caminhos podem pegar atalhos, ou até mesmo um caminho mais longo, e sempre darão no mesmo lugar. Fiquei no banco chorando muito, até que caí no sono. Perdi-me num sono, sem sonhos dessa vez.
...
Acordei umas horas depois com um cheiro insuportável de cigarro. Abri meus olhos e vi um cara com um casaco de capuz fumando num canto, me levantei na mesma hora e fiquei alerta. A chuva já tinha parado, só caia uma pequena neblina. Olhei no relógio do celular e me espantei, pois eram 23h55min da noite. O frio estava me consumindo agora mais do que nunca. Precisava tirar toda aquela roupa antes que eu ficasse doente. O cara que estava perto de mim começou a me olhar estranho. Ele fumava e soprava uma fumaça pro meu lado. Olhei pra ele e virei meu rosto.
- Vai viajar garoto? – ele perguntou chegando mais perto de mim.
- Não! Eu só cheguei de viagem... – eu disse querendo sair dali.
- Quer alguma ajuda com isso? – ele disse pegando minha mala.
- Não precisa... Eu já estava indo embora mesmo. – eu disse arrancando a mala da mão dele.
Num impulso repentino peguei minha mala e saí apressado. Eu tinha que sair dali agora.
Comecei a andar e minhas pernas pareciam que não saiam do lugar, tudo estava dormente. Entrei em ruas ainda mais desertas, e quando olhei de lado, vi alguém me seguindo. Era ele, o cara que estava fumando no ponto de ônibus. Comecei a entrar em pânico, pois se ele queria alguma coisa de mim, eu estava muito perto dele agora. Acelerei o passo, mas não conseguia andar mais rápido. Eu o sentia vindo à minha direção, e foi nessa hora, como que por extinto, eu comecei a correr mesmo. Eu corria rápido e ele já não disfarçava e também corria atrás de mim. Eu não sabia o que fazer, pra onde ir, só corria pelas ruelas daquela cidade perigosa. Entrei numa rua mais deserta, sem carros e me desesperei. Estava sem fôlego, correndo como um louco. Eu me perdia ainda mais e ia a direções mais distantes possíveis dele.
Até que não o vi mais e me escondi num rua estreita, atrás de uma lata de lixo enorme. Fiquei ali, pois não tinha escolha. Eu ouvia os noticiários e sabia, como era perigoso está na rua à uma hora dessas. A cidade é violenta, qualquer passo em falso, é morte na certa. Eu fiquei com um medo que me deixou completamente paralisado. Ouvi uns passos, e era ele correndo, os passos pararam e eu prendi a respiração. Que ótimo! Minha vida só piorava a cada hora, e nesse exato momento um cara resolveu me seguir. Só podia querer me roubar na certa. Peguei meu celular para ligar pra polícia, e fui surpreendido com o cara me apontando uma faca.
- Ei! Ei!... O que você tem aí nessa mala garoto... Passa pra mim agora vai... – ele disse mostrando uma faca pequena na minha direção.
- Cara são apenas roupas só isso, não tem nada de valor aqui dentro... Me deixa ir por favor... – eu disse sem reação.
- Passa essa mala e essa mochila aí cara, vai... Eu não vou falar duas vezes... – ele disse nervoso, ainda de capuz na cabeça. Não conseguia ver seu rosto, só a expressão brava na boca.
- Tudo bem... Eu vou te dar... Só não me machuca... – eu disse cauteloso. A Faca brilhava na minha direção.
Na hora em que eu tirei a primeira alça da mochila das costas, e ia dar a ele junto com minha mala, tive um surto de adrenalina. Soquei a cara dele com a mochila, e ele cambaleou e caiu no chão, à faca voou da sua mão para o meio da rua. Eu fugi com minha mala nas mãos de novo. Correndo com todas as minhas forças, sem descansar um só minuto. Eu o ouvia dizendo altos palavrões e insultos atrás de mim, mas só queria sumir dali. Corri por uma avenida cheia de carros e atravessei a rua sem nem olhar direito o carro vindo. O carro freou na minha frente. Só fiquei mais aterrorizado, pois seria meu fim se ele não tivesse parado. Que ótimo! Quase fui atropelado.
- QUER MORRER FILHO DA PUTA... – disse um homem velho buzinando e mandando-me sair da frente.
Atravessei a rua e corri novamente ao mesmo ritmo de antes. Não tinha como parar, se eu parasse seria espancado, esfaqueado ou pior morto. Até que o despistei e parei de correr, estava sendo um dia e tanto. Passei por uns lugares onde todo canto que eu olhava via mendigos dormindo e outros fumando. Imaginei se meu destino seria aquele, não queria pensar no futuro desse jeito. Por mais difícil que o momento estivesse ainda tinha uma fé, no fundo do meu coração.
O bairro aonde eu cheguei dessa vez, parecia ser calmo, eu via algumas pessoas sentadas em calçadas de estabelecimentos fechados. Várias garotas de programa nas esquinas. Outros jovens fumando, cheirando drogas, aquele definitivamente era um ponto de drogados e prostituição. Procurei me manter o mais afastado possível deles, me sentando numa calçada mais afastada.
Aquele covarde tinha roubado o meu celular. Que ótimo! Minha vida só ia de mal á pior a cada minuto. Minha sorte já não estava mais comigo. Lembrei-me da minha corrente com a letra L, e coloquei a mão no pescoço, mas ela não estava lá.
- Não! Minha corrente. Droga! – eu disse me desesperando. Comecei a procurar em todos os lugares da mochila pequena e nada. Definitivamente eu á tinha perdido.
Eu perdi o presente do Léo, e junto com ela a presença dele. Senti-me o mais depressivo e triste possível. O pior é que eu estava sentindo dores por todo o corpo, e ainda estava com minhas roupas molhadas quase coladas em mim. Senti uma vertigem, e quase desmaiei ali mesmo. Eu precisava de ajuda, só não sabia com quem eu podia contar.
Lembrei-me de um amigo, que eu acho que poderia me ajudar, O Artur. Ele era minha única opção agora, já que ele é o único amigo que sabe sobre mim. A casa dele ficava á algumas quadras dali, mas eu não podia chegar à casa dos outros à uma hora dessas. Esperaria amanhecer e iria lá, era minha alternativa mais viável no momento. Tirei minha carteira da mochila, e vi que tinha algum dinheiro, que daria pra passagem de ônibus. Coloquei meus documentos e meu único dinheiro no bolso da minha calça, para o caso de uma abordagem surpresa. Sentei-me em cima da mala e fiquei olhando o movimento daquelas ruas, os risos e gritos dos travestis e carros que passavam na maior velocidade. Tudo era tão diferente da realidade em que eu vivia, que eu nem me sentia sendo daquela cidade.
Alguns minutos depois, vi alguns caras correndo do outro lado da rua, e duas motos numa velocidade assustadora atrás deles. Não entendi nada, até que ouvi alguns tiros. Fiquei em choque na hora.
- Eu ia te pagar cara... Me dá mais um dia... Eu juro... – disse um homem todo nervoso do outro lado da rua aos caras das duas motos. Mais três tiros. O cara caiu no chão morto.
Eu na mesma hora me escondi atrás de um carro, se corresse iriam desconfiar que eu fosse um dos drogados, e daí eu morreria na certa. Os caras desceram das motos e começaram a vasculhar todos os outros drogados que estavam ali, do outro lado da rua. Tentei me afastar, mas seu levasse toda a minha bagagem, não teria como ser rápido. Mais tiros. Eu me desesperei e fiquei em choque. Algumas pessoas conseguiam correr, e eu estava petrificado com medo que me vissem, já que eu estava mais perto de onde eles estavam. Só peguei minha mochila de costas, pois não correria de novo com aquela mala pesada nas mãos. Apenas quando pensei que eles ainda continuavam lá no outro lado da rua. Fui saindo bem de mansinho e parei quando senti um objeto na minha cabeça. Olhei para trás e vi o cano do revólver na minha direção. Gelei na hora. A morte mais uma vez estava na minha frente.
- Tá se escondendo da gente bacana? – disse um homem me olhando feio.
- Não... Eu só não quero me meter nas paradas desse pessoal aí cara... Só isso... – eu disse com muito medo da arma apontada pra minha cabeça.
- Sei... E aquela mala ali? O que tem nela? – ele perguntou.
- Só tem roupas... Apenas isso. – eu disse tremendo.
- Abre ela... Abre ela agora vai... Vai... – ele disse me empurrando.
Eu abri a mala e comecei a tirar toda a minha roupa de dentro.
- Tá vendo só... Não tem nada de valor aqui cara. – eu disse.
- O que tu tá fazendo por aqui? Tá atrás de uma viagem? Eu tenho umas paradas se você quiser... É só ter grana. – ele disse abaixando a arma.
- Não! Valeu cara... Não quero mesmo... – eu disse querendo que ele fosse embora.
- Ah vai perder essa chance, bacana? Tu queres sim que eu sei... Tem carinha de playboy. – ele falou e olhou pra minha mochila.
- Não cara... Eu não tenho e nem quero droga nenhuma. Valeu! – eu disse piorando meu estado a cada segundo.
Ele puxou minha mochila do meu braço e na hora em que ia leva-la, um som de carro de polícia assustou-o de imediato. Ele soltou minha mochila e eu corri. Deixei minha mala aberta com todas as roupas no chão, sem nem pestanejar. Ouvi alguns tiros e eu só corria, as motos saíram em disparada pelas ruas fugindo da polícia, que agora os seguia. Atravessei uma avenida movimentada de carros, e só conseguia correr e correr até ficar o mais longe daquele inferno. Todo lugar que eu ia era um inferno completo. Era uma madrugada sem fim, onde eu só fazia correr. Eu estava perdido, minha cabeça girava, meus pulmões estavam saindo pela boca. A adrenalina tinha tomado conta do meu corpo.
...
Quando finalmente cheguei ao calçadão da praia, estava acabado de cansado, sujo, molhado ainda e com meu psicológico completamente destruído. O vento forte do mar, me invadia e se eu deixasse, ele até me levaria de tão forte que estava. Um carro preto começou a me seguir lentamente. Eu apenas achei que era impressão minha, já que tinha algumas garotas de programa sempre parando os carros. Até que o carro parou do meu lado, e eu já ia correr quando ouço uma voz me chamando.
- Ei rapaz... Ei você... – ele disse da janela do carro, buzinando. Virei-me e olhei pra ele.
- O que você quer cara? – eu disse alarmado.
- Você tá sempre por aqui? Eu nunca te vi aqui. – ele perguntou.
- Não. O que você quer hein? – eu disse já me preparando pra correr de novo.
- Quanto você cobra?... Eu tenho um local massa pra gente ir... Só tem que ser agora. – ele disse numa cara de pau absurda. O cara era bonito, devia ter uns 27 a 28 anos.
- O que? Ah não... Eu não sou garoto de programa tá legal... – eu disse e comecei a andar.
- Não tá a fim de experimentar?... Tenho certeza que você não vai se arrepender. Eu vou te tratar como um verdadeiro príncipe. Você é lindo! Entra aí pra gente conversar? – ele disse. Afastei-me dele e dei um fora na hora.
- Não mesmo cara! Procura outro tá legal! E dá pra você parar de me seguir? Beleza! – eu disse e já estava chegando ao meu limite.
- Eu quero você cara! Você se fazendo de difícil me deixa mais excitado ainda. Espera... – ele disse parando o carro e saindo.
- Cara me deixa em paz! Eu vou chamar a polícia hein... Se você chegar perto de mim... Eu grito! – eu disse seriamente pra ele.
- Você é menor de idade? – ele perguntou já assustado.
- Sim! – eu disse ríspido.
- Poxa cara, desculpa mesmo! O que você está fazendo por aqui a essa hora da madrugada? – ele perguntou mudando o tom.
- Eu... Eu estava... Droga que horas são? – eu perguntei. Ele olhou para o relógio.
- 03h10min da madrugada... E então? Veio de alguma balada? – ele perguntou curioso.
- Eu não te devo satisfações... Me deixa! – eu disse saindo apressado pra longe dele.
- A gente pode conversar... Eu posso te levar em casa se você quiser... Juro, sem segundas intenções. As ruas são perigosas pra um garoto como você. – ele disse se mostrando preocupado.
- Casa? Eu nem tenho mais casa... – eu falei explodindo dessa vez. – De onde você saiu em cara? Tu achas mesmo que eu vou entrar num carro... Com um estranho, que pode ser um estuprador, psicopata, assassino? Eu não nasci ontem tá legal... Não chega perto de mim. – eu disse explodindo de tanta raiva. Que ótimo! Sou muito mais dramático nesses aspectos. Comecei a andar de novo o deixando pra trás. Tinha sido uma noite bem difícil pra mim em todos os sentidos e não aturaria aquilo também.
- Caramba cara! Nossa! Não sou isso que você tá falando não tá legal? Você viajou legal aí... Você tá precisando de ajuda? Eu posso te ajudar. Não sou psicopata não... Posso provar isso pra você... – ele disse me pegando pelo braço.
- Ok! Isso já está indo longe demais... Eu não quero ajuda de ninguém... Eu quero minha vida de volta. Só isso! Eu tô sozinho agora cara! Não tenho ninguém... Nunca me senti tão só no mundo. Acabou pra mim, acabou... – eu desabei na frente dele, minhas lágrimas desceram pelo meu rosto como uma torneira.
- Não fica assim não! Eu não vou deixar você sozinho... Só me diz o que aconteceu... – ele disse e me abraçou forte.
- Não! Não! Eu quero que você me deixe em paz... – eu disse querendo sair daquele abraço e ele me soltou.
- Tudo bem... Eu vou te soltar... Mas liga pra mim se você precisar de ajuda com alguma coisa... Toma. – ele disse me entregando seu cartão. Ele era advogado. Que ótimo! Tinha jogado meu julgamento sobre ele sem nem o conhecer direito. Mesmo assim, ainda fiquei com um pé atrás.
- Eu nem sei o que dizer... Desculpa ter pensado mal de você... – eu disse constrangido.
- Não! Você tá certo... Nos dias de hoje sua atitude só me fez admirar mais você... – ele disse me olhando com aquela cara de novo.
- Valeu! Eu vou ligar se precisar... Tchau! – eu disse colocando o cartão dele no bolso.
- Qual o seu nome? – ele perguntou.
- Daniel. – eu disse.
- Eu sou Tomás. – ele disse.
Ele pegou minha mão e ficou me olhando com um sorriso no rosto. Soltei-me e fui embora. Eu não ia me enganar com um cara que acabei de conhecer, de novo. Apenas segui pela orla da praia e não olhei pra trás.
Passei por algumas travestis que olharam para o carro que estava me seguindo e foram quase que em grupo falar com o cara insistente. Chego à praia e já me deito na areia, totalmente exausto. Olho para o céu, que está um pouco aberto e com algumas nuvens cobrindo algumas estrelas. Penso eu que aquela tenha sido a pior noite de toda minha vida. Minha falta de sorte tinha se superado naquele dia, Começando pela expulsão de casa pelos meus próprios pais, humilhado, espancado até, afastado do meu namorado, roubado e quase esfaqueado, quase atropelado, e ainda fiquei na mira de um traficante, com uma arma apontada pra mim. Correndo feito um louco pelas ruas, e agora sem nada a não ser uma mochila nas costas com roupas sujas.
Fechei meus olhos, tentando absorver tudo na cabeça. As lágrimas apareceram de novo, e eu fiquei tentando não desabar de vez de novo. Ficar sozinho naquele momento não ajudou a parar aquela dor no meu coração, e não ia parar pelo visto nunca. Saí dos meus pensamentos perdidos, quando ouvi um barulho na areia de alguém caindo, alguns metros á minha frente. Sentei-me e vi bem na minha frente um cara caído na areia, á alguns metros de mim.
Ele se levantou e saiu cambaleando pela areia, resmungando algo para o mar. Tirou a camisa e a bermuda. Não via seu rosto, só suas costas, que eram largas e musculosas, com belas pernas grandes, um físico muito promissor para um bêbado na praia. Ele sentou-se na areia perto da água e se deitou. Ele falava coisas e eu não o entendia. Que ótimo! Um bêbado brigando com o mar, era só o que me faltava. Nem liguei. Fechei os olhos por um momento e caí nos meus pensamentos dos últimos acontecimentos. Pedir ajuda aos céus nesse momento, era minha alternativa mais sábia. Eu só queria que as coisas ficassem bem de novo, queria uma vida tranquila de novo, se é que eu estive tranquilo nos últimos meses. Só um sinal já era suficiente pra me dar forças pra continuar, era o que eu precisava naquele momento. Passei alguns instantes ali deitado até que...
Ouvi de repente um barulho de alguém caindo na água. Pensei que fossem as ondas na areia. Alguns minutos depois, ouvi uma voz pedindo ajuda, e depois um silêncio repentino. Levantei-me e vi o cara totalmente caído no mar, boiando no raso. Corri na sua direção na mesma hora, pois pelo visto ele estava sozinho. Um impulso me fez entrar na água quase que imediatamente, e tudo que importava agora era ajudar aquele homem, eu precisava salva-lo.
Puxei seu corpo pra fora da água e ele estava totalmente desacordado. Era pesado, ele parecia ter uns 24 a 25 anos de idade, e seu corpo era uma verdadeira fortaleza. O coloquei na areia sem fôlego ainda pelo esforço. Fiz respiração boca á boca nele e partir pra massagem cardíaca, só que ele não respondia, eu continuava com o procedimento, numa luta pela vida dele. Ele tinha que acordar, eu não podia deixa-lo morrer. Num súbito rompante ele acordou, tossindo água e abrindo os olhos. Fiquei num tipo de transe, não sei por quê. Mas era um alívio, misturado com felicidade, pois ele estava bem. Coloquei a mão na minha cabeça e quase chorei por ele.
- Você está bem? Tá sentindo alguma coisa? Você quase se afogou cara. – eu disse ainda sem ele me olhar direito.
Ele se virou pro meu lado e olhou pra mim. Por um segundo tive uma síncope, pois o cara era muito mais diferente do que eu tinha percebido. Seus olhos agora vermelhos possuíam as pupilas mais verdes que eu já tinha visto na vida. Seu cabelo era castanho claro, cacheados e molhados. Ok! Aquilo foi muito estranho. Seu olhar me desestruturou de um jeito, que eu pensei ter encontrado um verdadeiro anjo. Ele pegou minha mão e simplesmente vomitou no meu lado. Eu quase morri.
- Me ajuda? Eu tô me sentindo muito mal... Me ajuda... Eu... Estou sentindo uma dor... Aqui oh... – ele disse apontando para o peito, ainda com aquele tom de alcoolizado e me abraçou. Deitou-se de novo e começou a chorar. Desesperei-me e corri pra tentar achar nas roupas dele um celular, com sorte achei e comecei a digitar o numero da emergência.
- Calma eu vou ligar pra emergência... Não chora cara... Vai dar tudo certo beleza? – eu disse e na mesma hora ele segurou minha mão forte e seus olhos eram tristes e apreensivos.
- Não aguento mais... Me ajuda! Tá doendo muito... – ele disse aumentando o tom de voz. Eu peguei na sua mão.
- Você vai ficar bem. Eu prometo tá legal! Você vai ficar bem... – eu disse olhando pra ele e alguém falou no celular.
Dei o endereço e alguns minutos depois eles chegaram e o levaram numa ambulância. Eu expliquei tudo e fui para o hospital com ele. No caminho até o hospital, ele ficou sem ar e colocaram uma mascara de oxigênio no seu rosto. Ele pegou minha mão o caminho inteiro, eu só fazia acariciar e olhar pra ele, dando uma força. Não entendia como tudo aquilo tinha acontecido, quando o que eu mais queria era ajuda, acabei ajudando alguém. Foi uma madrugada louca e ao mesmo tempo satisfatória, porque eu tinha salvado uma vida no final das contas.
Chegamos ao hospital e ele foi levado para uma sala. O seu celular começou a tocar e eu atendi. Era uma mulher, a mãe dele. Contei toda a situação e alguns minutos depois ela chegou junto com uma garota apreensiva no hospital.
- Cadê ele? Cadê meu filho? O que aconteceu com o Samuel?- ela disse desesperada.
- Calma senhora, ele está bem sim... Já está numa sala. O médico falou que só a família poderá vê-lo. – eu disse tentando acalma-la.
- O que aconteceu? Quem é você garoto? – ela perguntou.
- Eu sou o Daniel, eu estava na praia e seu filho de repente estava no mar, se afogando, alcoolizado e eu simplesmente o tirei de lá. Foi isso. – eu disse ainda sem jeito. Ela me abraçou no mesmo instante.
- Obrigada meu filho, muito obrigada! Já imaginou o que aconteceria com meu filho se você não estivesse lá. Meu deus eu não quero nem pensar. Muito obrigada mesmo. – ela disse chorando um pouco.
- Valeu mesmo! Meu irmão é uma cabeça de vento, que só faz merda. Mas nós nos preocupamos muito com ele. A gente fica te devendo essa. – disse uma garota parecida com ele. Era a irmã dele e ela parecia ter a minha idade.
- Espero que fique tudo bem com ele. Ah sim, as chaves do carro, estavam no bolso da calça dele. – eu disse entregando para a mãe, junto com o celular.
- Você foi um anjo que apareceu pra salvar meu filho garoto. Eu nem sei como eu posso te pagar por isso... – ela disse me olhando com olhos cheios de lágrimas.
- Não precisa senhora! Só de saber que ele vai ficar bem, já é um grande presente pra mim. – eu disse. E era mesmo, a noite não foi só de choro, tristeza, correria e medo, mas também de salvação.
O doutor veio nos dizer que tudo não passou de um susto, ele ficou um pouco sem ar, mas estava tudo bem e ele estava dormindo. Ele autorizou a mãe e a filha de ir vê-lo e ela se despediu de mim indo apressada a sala onde ele estava. As horas passaram, e o dia amanheceu. Fiquei no corredor sentado numa cadeira de espera, esperando notícias dele. Eu só queria olhar pra ele de novo e me sentir satisfeito em vê-lo bem. Um dos meus sonhos um dia era ser médico, e trabalhar num hospital. Nunca senti um sonho ser tão impossível, como agora.
Mais horas foram passando. Resolvi ir à busca deles pelos corredores do hospital, perguntando aonde eles se encontravam á todos os enfermeiros que eu via. A irmã dele me achou e me levou até a sala onde ele se encontrava. Quando cheguei lá ele estava conversando com a mãe dele.
- Olha só quem veio te vê? – disse a garota.
Ele olhou pra mim e no mesmo instante fiquei meio nervoso. Ele estava mais acordado, mais sóbrio, era mais ele mesmo e não um bêbado chorão. Olhei bem fundo naqueles olhos verdes claros e me encantei na mesma hora com a doçura que emanava naquele olhar triste. Ele parecia um anjo, seus cabelos castanhos claros e cacheados estavam mais secos e arrumados. Tudo nele era convidativo. Controlei-me e desviei o olhar para a mãe dele.
- Bom Dia Daniel! Esse é o rapaz que te salvou Samuel, você devia agradecê-lo filho. – ela disse.
- Oi... Obrigado pelo o que você fez por mim... Eu podia ter morrido afogado e bêbado. – ele disse olhando meio triste pra mim.
- Oi! Bom Dia! Espero que você fique bem cara. Você está melhor? – eu perguntei preocupado.
- Sim... Agora estou bem melhor... – ele disse meio sem jeito.
- O médico já deu alta pra ele. – disse a garota.
- Ainda bem. Odeio hospital! – ele disse sorrindo. Era um sorriso bonito e encantador pra qualquer pessoa que não estivesse apaixonada. Ainda assim era encantador.
- Bom! Já que você está bem, eu vou indo... Tenho mesmo que ir... – eu disse.
- Não! Toma café com a gente. Por favor... É o mínimo que eu posso te dá em gratidão por tudo que você fez por mim. E aí? Você vem com a gente? – ele disse quase implorando. Seu pedido era difícil de recusar. Eu fiquei mudo e ao mesmo tempo com muita fome. Não tinha comido nada desde ontem.
- Por favor? Eu agora estou pedindo por todos nós! – disse a mãe dele.
- Tá eu aceito! – eu disse sorrindo pela cara que todos fizeram quando disse sim.
Nós saímos da sala e fomos andando pelos corredores. O Samuel era alto, grande, e não tinha um perfil de alcoólatra que eu pensava. Enquanto íamos em direção à saída, ele olhou pra mim e eu olhei pra ele. Foi uma conexão de olhares bem estranha. Não podia ser possível. Aquilo só podia ser pegadinha do destino pro meu lado. O meu coração estava na dele, mas algo se acendia no seu interior e me arrependi de ter concordado com aquele café com ele.
Assim que chegamos ao último corredor da saída, tive um susto quando vi meu pai e meu irmão abraçados no final do corredor. Os médicos diziam algo, que eu não entendia de longe. Não entendia o que estava acontecendo, só fiquei em choque e lembrando-se da última vez que os vi. Por que eles estavam abraçados, num hospital, e chorando? Cadê a minha mãe, não estava vendo ela. Ela com toda certeza devia estar em casa satisfeita pelo meu fim trágico. Será que eles estavam a minha procura? Pois se estivessem, que se danem todos, eu estou com raiva de todos nesse momento. Espero que eles pensem que eu morri, e por isso estejam chorando. Droga! Eu não conseguia não me importar com nada, sempre me importava. Essa era minha fraqueza. Eu tinha que saber o que eles estavam fazendo ali. Parei e fiquei olhando pra eles.
- Você os conhece? – disse a garota.
- Sim! São meu pai e meu irmão. – eu disse. E fui à sua direção, Samuel e sua mãe também me acompanhou. – eu volto logo... Vocês podem me dá um minuto. – eu falei esperando que eles não vissem meu pai me xingar.
- Claro. A gente te espera aqui. – disse Samuel.
Fui chegando perto deles, até que o Diego me viu. Parei no meio do corredor. Eu sentia uma coisa estranha no meu peito. Tipo um vazio, uma angustia, uma tormenta que chegava só por vê-los.
- Daniel... Daniel! – ele disse, correndo na minha direção. Eu só esperava que ele me batesse. Preparei-me para o impacto.
Só que diferente do que eu imaginei, ele me abraçou forte e começou a chorar muito no meu ombro. Fiquei sem reação, paralisado.
- Foi tudo sua culpa... VOCÊ A MATOU... VOCÊ!! – disse meu pai chorando com uma fúria assustadora, sendo segurado pelos médicos e enfermeiros.
Olhei para o Diego sem saber do que ele estava falando. Será que minha avó tinha... Não! Nem quero pensar numa coisa dessas.
- Diego... O que tá acontecendo? Por que vocês estão aqui? O que ele tá dizendo Diego? Me responde.– eu perguntei nervoso sentindo as lágrimas nos olhos. O Diego não conseguia falar, só chorava.
- Depois que você saiu... Depois de tudo aquilo que aconteceu... Eles brigaram... Discutiram feio... – ele disse tudo chorando muito. – A mamãe se desesperou e tomou vários comprimidos de uma só vez. Ela só queria achar você e pedir perdão, trazer você de volta pra casa... Ela repetia isso desde hora que você saiu... Então ela resolveu procurar por você... Ela... Pegou o carro naquela chuva e foi buscar você Daniel. E não voltou mais. – ele disse e não aguentou mais, caiu no chão chorando.
- Diego! Não! O que aconteceu depois? Você não... Não! Isso não... – eu disse me enlouquecendo e andando de um lado pro outro do hospital. Isso não era real, era tudo um sonho. Eu só precisava acordar. – ela está bem não tá? Está em casa não é? Me fala! Vocês estão aqui me procurando é isso? – eu disse totalmente fora de mim.
- Ela se foi Daniel! Ela morreu... – ele disse aos prantos.
Explodi. Aquilo foi à gota d’água pra mim. Gritei bem alto, tentando acordar daquele pesadelo. Até que senti tudo girar á minha volta. Apaguei totalmente.
Nota do autor: Voltei!!! Em Breve mais capítulos, não vou demorar tanto dessa vez. Espero que gostem e deixem suas impressões! Valeu! Até a próxima! COMENTEM! Podem criticar pra valer... rsrs quero opiniões! Um Beijo pra todos!