Um Sentido Na Vida - Capítulo 2

Conto de Sonhador Viajante como (Seguir)

Parte da série Um Sentido Na Vida

Capítulo 2

Quando se está num pesadelo, o que mais queremos é acordar e voltar pra realidade. Nunca quis tanto que aquela cena fosse um sonho. A realidade nunca foi tão difícil de aturar como naquela noite. Olhando para minha mãe chorando, chocada e horrorizada eu só queria que aquilo fosse um pesadelo, que eu pudesse acordar.

- Me responde Daniel, você não vai falar nada? O que significa isso? – ela disse, segurando meu braço com força. Depois de um tempo mudo, eu não queria falar nada pra ela, só queria abraça-la e consola-la. Ela soltou meu braço.

Eu comecei a chorar e minha mãe me deu uma bofetada forte na cara, eu virei meu rosto para o lado e senti a dor, não da tapa na cara, mas no coração pelo o que ela fez, pela primeira vez. Olhei de volta pra ela, fiquei de joelhos e tentei abraçar suas pernas implorando por sua compreensão.

- Mãe... Eu posso explicar, só fica calma, por favor. – falei aquilo olhando nos olhos delas, minhas lágrimas começaram a aparecer. Ela me empurrou do meu abraço e ficou me olhando, nunca me senti tão rejeitado pela minha própria mãe. Fiquei no chão e comecei o discurso mais difícil da minha vida.

- Eu sei que você tem todo o direito de ficar brava comigo... Mas você precisa me entender... Eu não escolhi isso, ninguém escolhe. Eu sou gay sim, eu nunca contei antes pra não magoar você e nem o papai, eu não queria magoar ninguém mãe, eu convivo com isso todos os dias da minha vida, sem contar a ninguém, totalmente sozinho. Tudo que eu escondi, foi pra não deixar ninguém dessa casa triste comigo. Eu ia te contar sim, um dia, quando eu estivesse pronto. Isso tudo porque eu os amo mais do que tudo nessa vida... – falei aquilo despejando tudo como um tsunami na minha mãe. Chorando muito abaixei a cabeça e não consegui olhar mais nos olhos dela.

- Você acha que eu sou idiota? Acha que nunca percebi algo de diferente em você Daniel? Sempre achei você diferente, nunca arrumou namorada, não te via com muitos amigos homens, você nunca foi como teu pai e teu irmão. Até aí tudo bem, eu pensei que fosse uma fase, que todo adolescente tem. Mas agora lendo essa porcaria que você escreveu e escrevia até hoje. Vejo que você nunca foi normal e nem vai ser. Minha vontade é de te bater. Eu estou com nojo de você, isso não se faz com a gente, tanto carinho e amor que você teve de mim e do teu pai, pra no final receber essa recompensa. – ela disse aquilo com uma repulsa assustadora de mim, parou de chorar e limpou as lágrimas.

- Mãe, me perdoa, por favor. Eu não queria isso. Você precisa entender... Eu não tenho ninguém com quem dividir isso, só você agora. Não conta nada para o papai e nem pro Diego. Eu não quero que a senhora fique com raiva de mim e nem eles dois. – Eu disse ainda no chão chorando litros.

- Se seu pai souber disso, ele te coloca na rua e eu juro pra você que eu não vou fazer nada pra impedir ele de fazer isso. Não me conformo, e nunca vou me conformar com isso. – Ela começou a olhar para cada lugar do meu quarto, a cama de casal, a estante de livros, o guarda-roupa, a mesinha de leitura com meu notebook. O ar-condicionado ligado. Balançando a cabeça negativamente ela continuou a falar. – Você sempre teve tudo que quis roupas boas, sapatos, comida na mesa, mesada todo mês, livros e mais livros, é um garoto com luxos que, agora vejo, nunca deu valor a nada do que a gente fez por você. – ela olhou de volta pra mim. Eu me levantei do chão e a encarei, limpando minhas lágrimas.

- A senhora acha que é fácil pra mim não é? Eu tentei ser o filho perfeito que a senhora e o pai sempre quiseram que eu fosse, eu fui e ainda sou. Nunca dei problema pra ninguém, eu só não pude deixar de sentir isso que eu sinto aqui dentro. – coloquei a mão no coração. – Isso não dá pra enganar, por mais que se tente o coração nunca se engana. Eu só quero ser feliz por inteiro, e deixar os outros felizes. Mãe... Eu posso não ser o filho que a senhora queria que eu fosse mais, eu te amo e sempre vou amar. Eu ainda sou seu filho, sou o mesmo de sempre. A minha opção sexual não é uma escolha, a senhora precisa entender isso. – Falei tudo desabando em lágrimas de novo.

- Ingrato, desnaturado, você tá se tornando um lixo pra mim. Você não era assim... Eu não te reconheço mais Daniel. Eu nunca vou te perdoar, sabia? Nunca! Eu espero que você sofra muito e pague por toda essa ingratidão que você tá fazendo com a gente. – ela falou aquilo chorando de novo. Olhou para o chão e pegou meu diário. – Isso aqui, eu vou queimar e você nem tente me impedir. Sua vida vai continuar a mesma de antes, não vou contar nada pra ninguém. Mas também de mim você não ganha mais nada, nem um centavo a mais. Nada!! Agora eu te digo uma coisa, quando você completar 18 anos, você vai embora dessa casa, vai embora das nossas vidas pra sempre. Segue tua vida fazendo esse papel que tu faz. Teu pai e teu irmão não precisam saber dessa coisa imunda que tu se tornou. – ela limpou as lágrimas, saindo do meu quarto friamente.

Eu chorei muito depois que ela saiu e me tranquei no meu quarto, pensei em cada palavra que ela disse. Fiquei totalmente acabado com tudo que aconteceu naquela noite. Acabei dormindo chorando. Acordei no outro dia, cansado e morto de exaustão. Parecia que eu tinha apanhado a noite inteira, era tanta dor na cabeça, no corpo, no rosto. Tinha uma marca de unha bem pequena, mas invisível. Fui à farmácia do banheiro e tomei um comprimido pra dor de cabeça. Olhei-me no espelho e me vi como um morto vivo. Olheiras altas, olhos vermelhos, pálido, e acabado.

Ninguém veio me chamar logo cedo, nem minha mãe (Era bem óbvio que não) e nem meu pai. O Diego, meu irmão saí cedo pra faculdade e só o vejo quando ele chega ao começo da tarde. E Ontem a noite na hora da briga ele tinha saído com a namorada Michele. Meu pai só não ouviu tudo porque na hora em que saí da sala estava roncando alto. Então era isso, tudo tinha vindo à tona num torpor infernal. Fiz o processo habitual da manhã pra ir à escola, a casa estava vazia e estranhei não ter ninguém. Imaginei várias coisas, apenas relacionadas sobre mim.

Cheguei à escola totalmente acabado. Meus amigos já estavam na sala. Entrei na sala atrasado, e todo mundo olhou pra mim, com aquela cara de (De onde saiu esse drogado de olho morto?). A aula de física já tinha começado. O professor me olhou com uma cara suspeita do tipo (Quero te ajudar, mas não sei como). Bianca me olhou séria e disse que depois falava comigo a sós. O Tarso também disse que queria falar comigo. Ah que ótimo! Hoje todo mundo resolveu falar comigo, só que hoje eu não queria falar nem com o Léo se ele falasse comigo. A Juliana que senta atrás de mim, me cutucou. Me virei e olhei pra ela.

- O que aconteceu com você Daniel? Parece que passou a noite toda acordado? Olheiras vistas até de longe amigo. – Disse Juliana, passando os dedos pelas minhas olheiras, com aquela curiosidade mórbida. Jonatas olhou pra mim do tipo (O que é isso? Ela tem dono cara!). Deu vontade de dizer pra ele (Esqueci de dizer que sou gay seu babaca).

- Ah não foi nada! Só fiquei até tarde assistindo aquela série de vampiros que a Bia que indicou. – falei mais manso que um pônei. Não queria e nem podia falar nada sobre a noite anterior a ninguém.

- Aff! Detesto aquela serie. Você e a Bianca deviam namorar sabia? Tem todos os gostos em comum. Aliás, a Mari me disse que falou com você e você disse que estava num rolo com alguém? Como assim? Você não me disse nada. Nem a ninguém pelo visto. Quem é a Miss simpatia amigo? – falou Juliana, que sempre quer saber de tudo. Eu mereço mesmo isso viu, e logo hoje.

Juro que deu me deu vontade de sair correndo, me controlei e dei a primeira desculpa que me veio à mente. Saudade do tempo em que só falavam comigo quando eu falava.

- Ah sim, ela queria me conhecer, mas eu estou gostando de outra pessoa. Uma garota que conheci lá no Ceará, quando viajei nas férias de janeiro lembra? Eu venho conversado com ela pelo Skype, por isso não quero que ninguém saiba ok? Será que você podia guardar segredo? – falei sussurrando pra ela, sabendo que ela contaria pro Jonatas, que passaria para o Tarso e finalmente despejaria em todas as garotas da escola. A Bianca eu diria em seguida, antes que ela me matasse por ser a última, á saber.

- Meu deus amigo, que bom que você desencalhou. Fico feliz por ti. Ainda bem né, já estavam achando que você era gay por aí... – ela falou meio que (Sei de tudo, só não contei antes pra vê o que você faria).

- Como assim? Tão me chamando de gay? Quem disse isso? – falei sendo interrompido pelo professor.

- Pelo visto além de chegar atrasado você também chegou achando que já tocou para o intervalo não é Daniel? – Falou meu professor de física, me olhando serio.

- Desculpa professor, eu não vou atrapalhar mais sua aula. – Falei num tom baixo.

- Na próxima vez, você saí da sala ok? E você também Juliana. Voltando ao que eu estava falando... – disse ele.

Ele voltou a dar aula e eu fiquei em transe com aquilo que a Juliana tinha deixado no ar. Ela estava escondendo alguma coisa de mim. O Intervalo tocou. Ela saiu com o Jonatas e me disse que depois conversava comigo. Que ótimo, era só o que me faltava, mas essa agora. Pelo visto nem minha atuação de hétero estava convencendo mais. Ser gay discreto não é fácil, e não ser assumido implica em consequências ainda mais duvidosas a respeito. Na hora em que saía da sala a Bianca me pegou pelo braço, me levando pra cantina, nos sentamos numa mesa e ela começou a falação.

- Você tá bem amigo? Sei lá, tá meio pálido, parece que passou a noite toda chorando? Ontem você estava bem até demais... – Ela disse me analisando e eu a interrompi.

- Sim estou bem, fiquei vendo a nossa serie de vampiros até tarde, foi isso. Nada fora do normal. Pode ficar tranquila. – eu disse aquilo como um ator falando seu texto de sempre.

- Ah foi por uma boa causa. – ela disse sorrindo. – Mas o que eu queria mesmo falar com você era outra coisa, vamo comer alguma coisa antes, eu estou morta de fome. – Ela disse me levando a lanchonete da escola.

Compramos salgados e refrigerantes e fomos ao mesmo lugar que eu vou quando estou lanchando sozinho. Ela e eu comemos e ela disse tudo sem nem antes.

- eu acho que estou gostando do Tarso. Tipo eu estou apaixonada pra ser mais sincera. Ele pediu pra ficar comigo, logo depois do meu término com o cauã. Eu disse a ele que ia pensar no assunto, mas eu quero isso amigo. – ela disse aquilo e eu tive certeza absoluta que ela estava apaixonada pelo Tarso só pelo olhar dela ao falar dele. Tenho uma experiência em me apaixonar e conheço os sinais reais.

A Bianca e o Tarso são apaixonados desde o primeiro ano, sei disso porque eles já se declararam um pro outro, só que pra mim como confessionário. Só que os dois acabaram querendo apenas ficar e terminaram antes que virasse algo serio demais. O Tarso queria algo serio. A Bia não estava tão certa disso. Acabaram terminando e me pedindo pra esquecer tudo que tinham me dito. Sabia que aquilo era amor. Eles fazem aquele típico casal que os dois se amam, mas nenhum se declara. Tá na hora disso mudar. Eu posso não ter sorte no amor, mas quero que meus amigos tenham.

-Bia, você precisa falar com ele, diz o que sente pra ele. Para de perder tempo com esses caras que você saí e só querem ficar. Você tem sorte de ter um amor correspondido. Ele também te ama. – Eu falo quase que empurrando ela pra correr agora atrás do Tarso.

- Nossa amigo... Você falando assim, até me impressiona. Como você sabe que ele me ama? Ele te falou alguma coisa de mim? Você não é de dar palpite nos meus lances e hoje simplesmente você explodiu. – ela falou e me olhando serio. Me tirei do foco da conversa e continuei a apelação pela felicidade da Bia.

- Não espera mais não Bianca, se você quer algo serio e tem essa sorte de ele te querer, vai ser feliz. E dessa vez, queria algo serio. Um namoro de verdade. Queria eu ter essa sorte de um amor correspondido. – falei a última frase tristemente, olhando pro nada.

- Dani, não fica assim não... Olha eu tenho certeza que alguém ainda vai te fazer muito feliz. Você é perfeito pra quem quer que seja. – ela disse aquilo pegando na minha mão. O Tarso me chamou nesse momento. A Bianca começou a tremer e pegou o telefone pra fingir mexer em algo. Eu fui até o Tarso e o vi desapontado. Ele estava lá no fundo da cantina, sozinho numa mesa. Sentei-me e já sabia o que ele ia querer.

- Oi Tarso, você queria falar comigo, sobre? – eu falei tentando amenizar o constrangimento.

- Lembra que eu te falei que estava gostando da Bia, ano passado? É isso Daniel, eu estou mesmo afim dela pra valer. Você podia me ajudar a conquistar ela? Sei que vocês são amigos e só posso confiar em você pra isso. Vocês não estão tendo nada né?

-Claro que não, eu só estou meio pra baixo. Ela estava me animando. E sim eu vou te ajudar, começando por agora. Bianca, você pode vim aqui, por favor? – falei animado olhando pra ela. Eu tinha uma carta na manga, que me foi dada ontem como um chato trabalho de biologia. Foi Automático meu plano.

- O que você tá fazendo Daniel? Eu pensei que você fosse me ajudar... – Falou o Tarso tímido pela primeira vez.

- E vou cara! Fica sentado aí e não fala nada ok! – Falei determinado, e a Bianca chegou à mesa.

- Oi Dani, o que você precisa? – Falou Bianca olhando pro Tarso e depois pra mim.

- Eu estava pensando, será que você podia fazer o trabalho de Biologia com o Tarso e eu com a Karen? O Tarso não quer mais cooperar na pesquisa, e pensando melhor, achei que devia procurar alguém mais competente pra me ajudar. E eu tenho certeza que você adoraria mandar no Tarso e não deixa-lo ser tão indisciplinado. – falei aquilo com um tom bem serio, atuação nesses momentos é fundamental. Ele me olhou com um ar mais calmo e sorriu de cabeça baixa.

- Claro, vai ser um prazer fazer o Tarso ter alguma disciplina, nesse final de ano. – Ela disse e eu sabia que ela estava explodindo de alegria por dentro.

- Bom! Vocês podem começar a planejar agora, Tenho uma atividade pra fazer na sala. E vou falar com a Karen, avisa-la! – eu disse saindo de fininho, os dois se olhavam com um brilho nos olhos evidente.

Na escola hoje todo mundo parecia estar namorando, cada corredor era um casal se beijando, outros de mãos dadas, outros se olhando. Já eu estava andando de volta pra sala numa tristeza evidente. Mesmo tendo revelado tudo pra minha mãe, não me sentia livre daquele peso nas costas, muito pelo contrário, eu estava com um peso ainda maior. É nessas horas que a gente precisa de alguém que nos console e diga que vai ficar tudo bem e a única coisa que a gente recebe é mais rejeição. Solidão para ser mesmo meu carma.

Subindo as escadas que estavam vazias, pois todo mundo estava na quadra e no refeitório, de cabeça baixa, tenho um verdadeiro encontrão, só que por pouco não saí rolando escada abaixo, ele me segurou. Comecei a levantar a cabeça e o vi, olhando bem pra mim. Eu não conseguia me desviar dos olhos dele, ele estava a poucos centímetros de mim. Só que dessa vez o Léo não estava com aquele olhar indiferente, tinha algo no olhar dele que me via diferente. Não acreditei e me desvinculei da mão dele me pegando no pulso. Aí meu deus! Só faltei morrer naquele minuto, estava caindo de tanto frio na barriga. Não queria nem me ver no espelho, sabia que estava vermelho como um tomate.

- Oi... Ah desculpa de novo. Valeu por não te me deixado cair. – eu disse sorrindo sem graça, não consegui jogar uma indiferença pra ele naquele momento.

- Caramba, e de novo a gente se esbarra. Você está bem? – ele disse me olhando bem fundo nos olhos.

- Sim, novinho em folha. – eu disse, ainda mais sem graça possível. Que ótimo! Por que eu disse isso? Aff! Mais alguns minutos encarado por ele e falo alguma outra besteira pior. Bem provável que minhas olheiras estejam assustando o Léo, ou ele tá me olhando nos olhos?

- Bom, eu acho que esse esbarro me serviu pra te dá isso... – Ele pegou uns panfletos do bolso e me entregou. – Esse final de semana vai acontecer um luau nessa praia aí do panfleto, você podia chamar a galera da tua sala, vai ser muito bacana se for muitas pessoas. Meu irmão vai cantar lá e ele me deu isso pra espalhar para o pessoal. Você pode convidar a galera do segundo ano? – ele falou quase que implorando, eu nem pestanejei.

- Claro cara! Vou convidar todo mundo sim, tenho certeza que a maioria vai sim. – Olhei para os panfletos sem graça ainda. Ele não tirava os olhos de mim nem por um segundo. Ok! Será que alguém, por favor, pode me abduzir desse olhar negro e ameaçador na minha frente?

- E você vai não vai? – ele disse, esperando que sim, eu acho.

- Sim, eu vou sim... Luau são bastante bons e tem muita musica maneira. E você vai? Para prestigiar seu irmão? – Perguntei esperando que sim, por favor, diga que sim.

- Meu irmão me mata se não me vê lá... Afinal de contas, eu sou o Léo. – Ele falou estendendo a mão.

- Daniel, prazer. – Eu disse pegando a mão dele e me arrependi, pois sabia que minha mão estava mais gelada do se estivesse no polo norte. Ele me olhou ainda mais estranho.

O Sinal toca. Maldito sinal! Ele ia dizer mais alguma coisa, mas o pessoal começou a subir. – Bom, a gente se vê lá. Beleza? – ele falou me soltando e saindo, olhando bem pra mim.

- Claro a gente se vê lá. Até mais. – eu falei ainda hipnotizado e totalmente fora de mim.

Ele foi para o outro lado do prédio e eu para a sala. Espalhei os panfletos pelas salas dos segundos anos, inclusive a minha. Sentia-me nas nuvens, era como pisar na lua em câmera lenta. Como é bom amar, esqueci-me de todos os problemas e assisti às últimas aulas, completamente drogado de amor.

...

A semana estava lenta, apenas porque eu tinha um compromisso no sábado. A Juliana me explicou aquele lance dos comentários sobre minha sexualidade na escola. Estávamos saindo da sala do laboratório de Química e ela veio se explicando.

- Amigo, não se preocupa com o que esse povo fala tá? O Importante é que você não é e pronto, tá bem? – ela disse, e nesse momento tive certeza que ela própria jogou essa história pra me testar. Que ótimo! Funcionou, só se ela for cega pra não ter percebido minha reação, não pior, fiquei totalmente com uma incógnita na minha testa.

- Não relaxa, eu não ligo pra opinião de ninguém. – eu disse, me entregando de vez. E saí deixando-a com o Jonatas, que me olhava estranho só porque eu tinha papos com a namorada dele. Só era “amigo” dele por conta da Juliana.

...

Passei o resto da semana pensando no luau, e nem se chovesse canivete eu deixaria de ir. Ok! Eu não seria louco a esse ponto. Mas no amor vale tudo, eu acho. Em casa o clima era pesado, minha mãe não falava comigo e era fria até demais, eu respeitava seu espaço e me fazia de desentendido pro meu pai. Meu irmão estava pensando na faculdade de Engenharia mecânica que estava quase no fim e na namorada apaixonada. Eu ficava triste quando chegava em casa, e feliz quando via o Léo na escola.

Nossos olhares começaram a fica mais frequentes na hora do intervalo, eu estava a ponto de ter um ataque epilético a cada olhada básica que ele passava pra mim. Na sexta à tarde, resolvi sair pra sair daquele clima depressivo de ficar em casa me lamentando por ser um filho interrompido pra minha mãe. Fui à praia, olhar para o mar e pensar na vida. Chamei o meu pessoal, mas a novidade foi que o Tarso e a Bianca estavam numa coisa séria já, desde aquele dia na cantina. Fiquei muito feliz por eles. Decidir ir sozinho, já que todo mundo parecia estar comprometido.

Ao chegar à praia, que não tinha muitas pessoas, sentei-me na areia e olhei para o mar revolto do rio de janeiro. Alguns minutos depois, vi uma pessoa que há muito tempo queria perguntar algo. O Artur, ex-aluno da minha escola, que beijou o Mateus. Ele Estava há alguns metros de distância sozinho. Olhando para o mar também perdido em pensamentos. Tomei coragem e fui me sentar perto dele. Precisava saber de algo e tinha que ser agora.

- Oi? Eu posso me sentar aqui perto de você? – eu disse me sentido um intruso.

- O que é? Você estuda naquele manicômio de sem-coração não é? Veio-me zuar também? Saí fora tá legal, eu não vou mais escutar piadinhas sem fazer nada. – ele disse se levantando agressivo.

- Ei calma aí, eu não estou aqui pra te julgar cara, e não vou zuar e nem fazer piadinhas tá legal. Artur eu queria te perguntar uma coisa... Sobre o Mateus. – eu disse e senti que ele mudou um pouco o estado de raiva.

- Eu não te conheço tá legal. Me deixa na minha, eu não quero falar sobre isso. – ele disse se levantando e saindo. Eu corri atrás dele.

- Artur, espera eu conhecia o Mateus também, só não sabia dele ainda. Eu era amigo dele. Por favor, só me responde uma coisa... – eu disse o seguindo pela areia. Ele parou um segundo, me olhou e abaixou a cabeça e falou.

- Você é o cara que ele disse que também era gay não é? Ele disse que só podia contar pra você, mas não contou porque tinha medo e depois que você se afastou dele, ele deduziu que você não era gay. Eu agora lembro... Você era aquele garoto que ficava colado nele não é? Agora eu me lembro de você. No primeiro ano, quando eu me apaixonei por ele, eu tinha ciúmes de vocês. Mas depois que a gente se conheceu só aí eu pude ver que ele gostava de mim, de verdade. – ele falou tudo àquilo com lágrima nos olhos.

Eu gelei naquele momento. Senti-me o pior amigo do mundo, por ter deixado ele no momento mais crucial da vida dele. No primeiro ano, eu não falava com ninguém. Era um túmulo, me sentia totalmente tímido só que ao extremo. Ele foi o primeiro que falou comigo, foi ele que me apresentou para o pessoal que hoje são meus amigos. Eu sabia que ele era gay, desde o momento em que o vi olhando para o Artur, quando ainda éramos unha e carne, ano passado. E agora saber que ele só queria um amigo, que também fosse gay e o pudesse entender. Senti a tristeza me invadir de vez.

- Ele te amava sabia? Eu via isso quando ele te olhava... Parecia que só tinha você e ele no mundo. Era um olhar calmo e admirador. – eu falei, despejando umas lágrimas que eu lutava pra segurar nesse exato momento.

- Eu o amava com todas as minhas forças, ele era tudo pra mim. Ele foi o meu primeiro. Não só por isso, ele fazia qualquer lugar se tornar colorido, sem ele o mundo perdia as cores. – Ele disse, emocionado.

- Você já respondeu minha pergunta, nem precisa dizer mais nada cara. Eu ainda não me conformo com o ele fez. É inacreditável. – eu disse me sentido vazio e culpado.

- Eu sou culpado por isso sabia? Fui beijar ele na escola várias vezes, pensando que nunca iam descobrir, que tolo que eu sou, um verdadeiro babaca. Eu o deixei morrer em minhas mãos e não fiz nada. – ele disse transtornado.

- Como assim? Você não podia fazer nada. Ele te avisou de alguma coisa, deu algum sinal que ia fazer isso? – perguntei e me surpreendi com a resposta.

- Ele ligou pra mim pela manhã, na última aula antes do intervalo, naquele dia. Ele disse que iam descobrir tudo e que seus pais iam o colocar pra fora de casa e ele não ia aguentar perde-los, ele estava desesperado, a última coisa que ele falou pra mim foi que me amava. Eu queria sair da escola, mas não me liberaram, disseram que só com ordem dos meus pais. Eu pensei que fosse ser só um desespero rápido dele, eu ia dizer pra ele que ia ficar do lado dele. Eu... – ele desabou de chorar e eu o abracei. Era o mínimo que eu podia fazer. Lembrei-me de ter visto o Artur naquele dia da morte, quando estava lanchando, saindo correndo da sala para o banheiro e liguei os fatos. Naquela hora o Mateus tinha acabado de ligado pra ele. Ele não pôde ajuda-lo, ninguém o ajudou. E teve aquele fim.

Daquele dia em diante, eu tinha ganhado um amigo. Eu ia fazer pra ele, o que eu não pude fazer pelo meu amigo Mateus. Disso eu tinha certeza absoluta.

O final de semana finalmente chegou, e eu estava um pouco desanimado em ir naquele luau. Um grande, porém esteve nos meus planos. Primeiro minha mãe disse que eu não podia ir, meu pai resolveu que era hora de eu sair um pouco com amigos, para quem sabe conhecer uma garota. Ele realmente não sabia de nada, já minha mãe. Meu irmão resolveu o problema pra mim, convencendo-a. O segundo e último, porém era que nenhum dos meus amigos ia, pois os casais estavam formados. Bia e Tarso, Juliana e Jonatas iam fazer um programa de casal no cinema e eu não ia pra não segurar vela de vez. Minha única opção era chamar alguém que fosse pelo menos, eu não ia ficar sozinho. Chamei a Tatiana e o Pedro, só eles iam da minha sala, eu os conhecia muito pouco, mas eles falavam de vez em comigo quando tinha trabalhos em grupo, apenas colegas e só. Os dois são legais.

O sábado passou voando, já era noite quando meu pai me levou com meus colegas para a praia marcada. Tudo estava iluminado, o som já estava sendo testado. Não seria um luau pequeno e sim grande e espaçoso até demais, tipo um show acústico. Muitas barracas estavam armadas na areia da praia. Meu pai ficou sorrindo e quando meus amigos saíram do carro, ele perguntou algo muito constrangedor (Pelo menos pra mim, que nunca tinha falado sobre isso com ele).

- Você trouxe camisinha filho? É bom se prevenir, não quero netos assim tão cedo hein... – ele falou aquilo com um olhar de quem diz (Quero netos do meu caçula, ainda essa noite). Que ótimo! Eu realmente consegui fazer um bom papel e meu pai acreditava mesmo que eu era hétero, já minha mãe.

- Pai! É só uma festa de música, nada de sexo grupal tá? – eu disse saindo do carro. Ele ficou dizendo algo que eu não escutei e eu virei pra trás e ele gritou dizendo para eu ligar pra ele, pois viria me buscar mesmo tarde. Eu confirmei e fui em direção á galera. Andei pela praia conversando com a Tati e o Pedro, e o som começou. Muita gente bonita, nunca tinha visto tantas, quer dizer tantos.

Já eram 09h00min horas e o som já estava tocando a todo vapor. A lua estava perfeita para aquela noite e o céu limpo e sereno. Muita gente ia chegando e nada da pessoa que eu mais esperava encontrar, naquele mar de pessoas dançando e curtindo todas ia ser difícil. A Tati saiu pra pegar uma bebida, vodca. O Pedro estava conversando com duas garotas. Eu temi ficar sozinho, e no final das contas fiquei sempre. Ia olhando por todo o lado e nada do Léo. Tati não voltou e eu a vi conversando com um cara bem novinho, tipo dela. Não ia ter jeito mesmo, eu sempre fico sozinho. Saí pra ficar um pouco longe daquele pessoal se pegando e dançando. Fui andando bem de mansinho pelas pessoas e quando chego a poucos metros da água do mar, sinto um empurrão e sou jogado na areia. Detalhe: Um cara caiu de frente pra mim e eu esperava que fosse ele, só que o destino não foi bom comigo. Nós dois ficamos cara a cara olhando um pro outro a poucos centímetros.

- Puts cara eu te atropelei. Poxa foi mal de verdade. – ele disse sorrindo, e não parava de olhar pra minha boca.

- Você devia prestar mais atenção cara, dá pra sair de cima de mim? – Fiquei logo frustrado e ele saiu de cima de mim, acho que desapontado.

Levantei-me e limpei a areia do corpo, só aí olhei de verdade pra ele. Era um cara bonitão, daqueles que fazem academia, magro, corpo definido, pele bronzeada pelo sol, e um cabelo meio bagunçado, bom por sinal. Ele me encarou e eu fiquei sem graça. Na hora em que ia saindo, ele me puxou pelo braço.

- O que é isso? O que você quer comigo? – eu disse aquilo, e no mesmo instante senti que foi rude o jeito que falei, e tentei não ser um carrasco. – Quer dizer, o que você quer falar comigo? – falei, mas manso e compreensivo. Ele teve várias caras nesse momento e eu não o entendi bem.

- Você tá sozinho? Quer dizer não vi sua namorada... Você estava indo pra água? – ele disse, parecendo querer saber mais sobre mim. Para um estranho, ele parecia tentar arriscar demais. Queria eu ter essa coragem na minha vida amorosa.

- Não, eu não vim sozinho. E sim estava indo pra água. – e falei me sentido um pouco ríspido. Ele pareceu envergonhado e soltou meu braço. Droga! Será que eu não posso ser mais receptivo? Eu sempre afasto as pessoas de mim, bem típico mesmo. Não! Eu não vou deixar essa passar, o medo de quebrar á cara é mais forte que eu. Mas alguma coisa me diz que ele parece tá interessado. Ou será coisa da minha cabeça? Que ótimo! Agora estou confuso. Vou arriscar e me ferrar. – Eu vim com uns amigos, só que eles simplesmente me deixaram sozinho. E você? – Eu disse. E vi os olhos castanhos claros dele se iluminarem.

- Eu também! Vim com alguns amigos e eles me deixaram aqui sozinho. Estamos na mesma situação. Você vai entrar? – ele disse, tirando a camisa e no momento em que ele sorriu senti um calafrio que não esperava sentir.

- Entrar onde? – eu falei meio bobo, olhando para o corpo escultural daquele gato mais que lindo, que esbarrou em mim. Como sempre fico quando estou gostando de alguém... Esperai, gostando? Como assim? De novo? E o Léo?

Tá! Vamos ser realistas, o Léo é hétero e tem namorada. Falando em namorada, faz tempo que não os vejo juntos na escola. Voltando a realidade, não o Léo não vai se interessar por mim nunca. Então, por que não dá uma chance pra minha vida amorosa nesse exato momento. Eu não posso ficar no muno dos sonhos pra sempre né. Chega de amores platônicos de uma vez por todas! Preciso viver algo, algo de verdade. E vai ser agora.

- Na praia ué? Você não ia entrar na água? – ele falou meio confuso.

- Ah não, eu ia ficar só na beira mesmo. Por quê? Você também ia entrar? – eu disse curioso pra saber mesmo se ele ia entrar se eu fosse.

- Com toda certeza, isso aqui tá muito barulhento e gosto do mar. – ele falou olhando para o mar. – Você não quer sair daqui um pouco? Tipo dá um tempo desse monte de gente se esbarrando um no outro? – ele falou aquilo me analisando.

- É pode ser. Não vai ter problema pra você? – falei querendo muito ficar mais perto dele.

- Não, meus amigos sabem se cuidar. E pra você? – ele disse, esperando que eu dissesse não também.

- Meus amigos estão bem, a gente vai junto pra casa, mas até lá ligo pra eles. – eu falei seguro disso.

- Heitor. – ele disse se apresentando.

- Daniel. – eu falei e peguei na mão dele. E soltei rápido, não estava mais pensando no Léo, ele provavelmente nem veio. O Heitor não parava de olhar pra minha boca, limpei minha boca com as costas da mão, tinha algo na minha boca que estava fazendo ele me olhar diretamente ali. Que ótimo! Só falta ele me achar porco agora.

Nós dois saímos pela beira da praia, não ficando muito longe do luau. Ele começou a puxar assuntos como estudo, minha idade, o que eu pretendo fazer quando for à faculdade, entre outras coisas. Eu disse exatamente tudo, falei que ia completar 17 daqui a mais ou menos um mês. Minha altura me fazia parecer um pouco velho e novo demais. Perguntei dele, ele disse tinha acabado de fazer 19 anos, fazia faculdade de odontologia e estava bem no curso. Morava com seus pais e não namorava há um ano. Conversa vai e conversa vem. Eu disse que nunca tinha namorado ninguém, por um impulso não sei de onde, e me ferrei por isso, pois ele ficou meio surpreso. Conversamos tanto que chegou uma hora em que eu e ele ficamos sem saber o que dizer. Pela primeira vez na vida estava conversando com um cara, só que dessa vez de verdade, ele queria me conhecer e eu ainda não estava acreditando.

- Você é diferente sabia? Gostei de você. – ele disse, me olhando bem estranho.

- Como assim diferente? É bom ou ruim? – eu perguntei esperando uma resposta negativa, depois de tudo que eu falei para ele. Acho que passei uma má impressão. Será?

- Não é ruim, é bom! Muito bom... – ele disse chegando perto de mim.

Ele colocou a mão na minha nuca, e me puxou pra junto dele. Fiquei sem reação, sentido o calor do seu corpo colado no meu. Seu cheiro e sua respiração tão perto de mim. Não sabia o que fazer ou como correr dali, ele tinha total controle sobre mim. Nunca senti tanto desejo como naquele momento. Heitor me olhava nos olhos e depois olhava pra minha boca, vi que ele a desejava. Naquele momento não importava mais as pessoas nos olhando ou não, nada importava.

Ele foi chegando perto e eu já sabia o que vinha á seguir, fechei os olhos e deixei ele me invadir. Era meu primeiro beijo na vida com alguém, e eu estava totalmente em transe. Ele foi o mais carinhoso possível, começou a me beijar num selinho, tentando abrir minha boca, cedi ao movimento da boca dele e fui á busca de sua língua, ele invadiu minha boca. Era suave no começo e acabou se tornando avassalador e destruidor. Uma descarga elétrica estava por todo meu corpo e ia tomando conta de cada parte do meu corpo. A brisa do mar, seu toque suave me segurando na cintura, fazia daquele instante um momento único. Era como uma droga, eu queria mais e ele não me deixava parar.

Nosso beijo terminou, e quando abri os olhos sentia um êxtase fora do normal. Tudo era paz nesse beijo. Amar é isso... Viajar e delirar num mundo apenas dos amantes. Naquele momento o amor nunca fez tanto sentido na minha vida.

Bom demais pra ser verdade... Aterrissei na realidade quando a poucos metros do meu sonho perfeito, o avistei. O Léo que eu estava gostando nos últimos meses, lindo, perfeito e o cara dos meus sonhos. Olhando-me com uma cara seria e desafiadora, naquele minuto eu recebi aquele olhar que tanto temia, o olhar que eu sempre via nele nos meus sonhos se revelar, o olhar ameaçador e arrepiante que só ele tem. Tremi Meu deus! O que eu fiz? Eu estava perdido, de novo.

Nota do autor: "COMENTEM SOBRE O CAPÍTULO 2. O QUE ACHARAM? Abraços a todos dos leitores.

Comentários

Há 4 comentários.

Por Sonhador Viajante em 2014-09-16 02:15:52
Obrigado Criz Maverick!! Espero que continue gostando sempre! Um abração pra vc!
Por Criz Maverick em 2014-09-16 01:22:08
Quero te parabenizar! muito bom msm!!
Por Sonhador Viajante em 2014-08-31 15:25:40
valeu Anderson P, espero que continue acompanhando e gostando! Um abraço!
Por Anderson P em 2014-08-30 01:33:03
Muito bom, continua.