Capítulo 14 - Redenção (Final Parte - 1)

Conto de Sonhador Viajante como (Seguir)

Parte da série Um Sentido Na Vida

“Depois de todas as tempestades e naufrágios o que fica de mim e em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro.” – Caio Fernando Abreu.

[...] Escolhi afundar ao invés de nadar. Era fundo e escuro. Não escutava som algum, apenas um chiado fino e ecoante naquelas profundezas silenciosas. As águas geladas e salgadas daquele mar cobriam todo meu corpo. Eu apenas ia afundando cada vez mais, chegando á atingir o solo. Prendi o fôlego pela última vez, antes de desistir. Eu finalmente tinha conseguido o que queria. O meu fim, estava acontecendo. Meus olhos se feriram e arderam quando olhei pela última vez pra cima, soltando bolhas na boca e pelo nariz. As ondas revoltas agitavam acima de mim, numa explosão de fúria naquele céu que era visto apenas debaixo do mar. Fechei os olhos e deixei todos os meus poros serem invadidos com aquela água. Não pretendia voltar à superfície! [...].

...

Um Dia Antes...

Estava frente á frente com o fantasma da minha paixão, e só conseguia tremer de decepção. O corpo e os traços dele eram os mesmos. Mas não era ele. A frustação veio como uma onda me derrubando. O pequeno corte na minha cabeça, não doía como meu coração naquele momento.

- Meu irmão devia gostar muito de você... Quando encontraram o celular dele nos destroços do acidente, tinha várias fotos suas com ele. Foi uma difícil perda pra todos... Eu sei... Parei de falar com ele, quando soube que ele namorava um homem... E me arrependo muito disso. Ele morreu... Sem falar comigo. – disse o fantasma triste.

As lembranças voltavam e eu me segurava pra não chorar. Ele era apenas uma ilusão. Não dava mais pra ficar olhando pra ele. Chega de escutar á voz parecida, o olhar, o rosto e saber que não é o Léo. Mas sim um fantasma que eu nunca deveria ter encontrado. Descontrolei-me e abri á porta do carro.

- Você não vai falar de você? Como veio parar por aqui? – perguntou. Vindo atrás de mim.

- Não importa... Foi tudo uma ilusão mesmo! Desculpa... – eu disse andando.

- Espera aí... Você está machucado... Eu posso te ajudar? – ele disse segurando meu braço. Soltei-me num rompante.

- Esquece que você me viu... Eu não te conheço. Foi como um sonho! É isso... Foi apenas um sonho. – eu disse ainda em transe e saí correndo.

Preferia acreditar que tinha acordado de um sonho. Uma ilusão era mais aceitável pra mim. Já foi difícil segurar até aqui. Imagine agora! Na mesma manhã entrei no ônibus para o Rio, e fui embora daquele lugar.

...

Tinha uma escolha á fazer: seguia ou voltava... Resolvi voltar! A minha cabeça estava explodindo de pensamentos e lembranças passadas, que me atormentavam a cada segundo que eu piscava meus olhos. Aquele encontro só me fez ficar pior, pois foi como uma bala, perfurando cada vaso sanguíneo do meu coração. Feriu-me mais do que eu queria. O Léo tinha morrido, mas o fantasma dele existia e apareceu justo na minha frente. Resultando nas minhas esperanças recarregadas e no final serviram pra nada. O vazio só se intensificou ainda mais, tornando-o vasto na minha caverna silenciosa. É isso que acontece quando se dá uma chance á ter expectativas demais. Eu podia ter noção mesmo que as coisas não iam mudar nunca pra mim. Sou sempre levado ao caminho das falsas esperanças.

Quando criança tinha mania de persistir nos jogos de vídeo games que eu sempre perdia. Eu sempre tentava de novo, até conseguir. Comparando isso com minha vida real, vejo que o jogo da vida é impossível de se ganhar, até para os mais fortes. No final ninguém ganha de verdade, só acha que ganhou. Nos últimos meses antes da minha ruína, foi exatamente isso que fizeram comigo. Aquele verão onde eu vivia se foi, e no lugar dele, se instalou o mais destruidor inverno. O silêncio era o que mais me matava por dentro, pois nem meu próprio eco escutava mais.

Olhando pela janela do ônibus em movimento, vejo as paisagens que me levam de volta ao meu próprio desfecho final. Era lá que ia acontecer e eu não mudaria mais os planos, nem deixaria que coisas interferissem nas minhas ações. Sabe quando você chega ao seu limite dos limites? Não! Você com toda certeza não sabe o que é estar em cacos e não vê como se reconstruir, pois cada pedaço seu foi esfarelado. A dor se torna sua amiga e inimiga ao mesmo tempo, sendo os dois a dupla perfeita para uma incisão programada a se fundir e se tornar um só.

Pego meu caderninho de anotações, que se tornou meu novo diário e escrevo minhas últimas palavras...

“Olá todo mundo! Sei que quando vocês estiverem lendo essa carta já vai ser tarde demais... Então eu queria apenas agradecer á vocês por tudo. Tentei ser forte e seguir em frente... Mas acho que não nasci pra viver nesse mundo, onde se perde mais do que se ganha...”.

Paro de escrever e as lágrimas começam a cair com mais força. Molhando o papel. Deixo diário de lado e fecho os olhos. Eu quero que seja rápido, leve e até menos complicado. Minha mente acha uma solução na mesma hora. Água. É isso! Não vejo caminho mais fácil do que esse. Escrevo o resto da carta e arranco o papel do caderno, guardando no bolso da mochila. Tudo que vai, volta. Lá estava eu de novo, voltando ao meu destino perdido.

...

Num final de tarde de domingo, cheguei ao Rio novamente. Desci do ônibus com minha mochila de costas, ainda com aquela roupa suja e suada dos últimos dias, e resolvi tomar um banho em algum lugar. Voltei para o bairro onde morava o Deco, amigo do Alê que tinha me enganado, mas nem me importava mais com isso. Suas atitudes tiveram consequências arrasadoras, não só pra ele como pra mim. Só queria deixar essa carta na minha casa, antes de fazer o que tinha pra fazer.

...

Ao chegar à casa do Deco, encontro-o com vários amigos seus fazendo uma verdadeira orgia no meio da sala daquele quartinho pequeno.

- Mano entra aí... Você sumiu com o Alê? Cara nem vi vocês mais depois daquele dia... – ele disse fumando e transando com uma garota de programa ao mesmo tempo. Dois caras se pegavam no banheiro, que não tinha porta e dava no mesmo lugar. Sem falar que o Deco estava com duas ao mesmo tempo.

- Cara eu posso tomar um banho na sua casa? Quer dizer, se não for problema? – eu perguntei, me arrependendo de estar ali.

- Fica á vontade irmão... Você tá em casa... – ele disse e gritou nomes bem obscenos para os dois que estavam no banheiro. Eles saíram e eu entrei, colocando uma cortina na frente.

Tudo bem! São apenas mais algumas horas. Tentei me manter seguro, antes que me afogasse ali mesmo no chuveiro. Tirei aquelas roupas e tomei um meio banho rápido, mas a água logo acabou. Que ótimo! Limpei o meu ferimento na cabeça, que tinha sido bem pequeno e até ardeu um pouco. Vesti uma calça velha, com uma camisa de uma banda de rock, e calcei nada mais nada menos do que meu único par de sapatos, um all-star preto sujo até demais. Olhei–me num pequeno espelho e vi o estrago dos meus últimos meses e dias fazerem efeito. Meu cabelo crespo e bagunçado. Minhas olheiras altas dos dias sem dormir e meu rosto cadavérico, efeito da minha falta de fome. Não lembro qual foi á última vez que fiz algo saudável. Peguei um casaco preto com capuz e coloquei-o. Pois não queria ser encontrado por ninguém quando fosse até minha casa.

Deixei minhas coisas num cantinho escondido naquele verdadeiro prostíbulo de casa. E fui até minha antiga casa, deixar minhas últimas explicações e despedidas.

...

As 22: 00 da noite estava bem em frente á minha casa e já fazia mais de duas horas que me encontrava ali, olhando-a do outro lado da rua. Via um grande movimento de pessoas lá dentro e já sabia que eu era o causador daquele alvoroço. Por ser uma rua residencial numa noite de final de domingo, encontrava-se deserta e com poucas pessoas passando. Tomei coragem e cheguei perto da porta, onde tinha a caixa de correios. Foi quando paralisei. Olhei pra carta e não consegui ter coragem de colocar lá dentro. Mais uma vez estava sendo um completo covarde. Minha família não merecia aquilo. Era melhor os deixar sem notícias mesmo. Já basta á minha última vez, com aquele diário que foi o começo de toda minha desgraça. Já machuquei demais as pessoas que eu amo e não os faria sofrer de novo com aquele pedaço de papel. Desisto e vou embora.

...

Andando pelas ruas totalmente apressado e olhando para os lados. Tinha impressão de que estava sendo seguido, ou até mesmo sido reconhecido. Voltei para a casa do Deco, vi que não teria coragem de fazer aquilo naquele dia. Só que ao chegar lá, tenho uma surpresa, pois a casa estava lotada de gente de todo tipo. Uma festa rolando de tudo e até um pouco mais da conta, embalava aqueles pequenos metros quadrados. Peguei algo pra beber e fiquei num cantinho sozinho. Enquanto os garotos se enfartavam em diversões perigosas e obscenas. Era sexo por todo lugar com drogas e bebidas sem fim. Sozinho estava, e sozinho fiquei. Ficar sozinho era a minha sina.

...

A madrugada estava á todo vapor e eu estava caindo no sono sentado no chão, vendo aqueles loucos felizes se drogando e fazendo sexo. Mas nada iria ficar assim por muito tempo. A minha tranquilidade sempre se esvaí quando acomodada por muito tempo. Não foi diferente naquela noite. Dois caras começaram a brigar e se pegar. Levantei-me mais lúcido e quis sair dali. Mas por uma sorte não sei de onde, fui atingido com um soco no rosto por um dos agressores. Caio no chão e sinto que devo ter deslocado o pescoço com o golpe. Pra piorar ouço os tiros e as pessoas correndo. Só podia dar nisso. Uma pessoa caiu em cima de mim, e vi que ela estava sangrando. Afastei-me na mesma hora e corri para pegar minhas coisas que estavam no outro quarto. Arrastando-me pelo chão, peguei minha mochila com minhas coisas e dei o fora.

Ao chegar lá fora, atravesso a rua correndo e vou embora. Decidindo não adiar mais minha terrível solução. Vou em direção á praia mais próxima, com a certeza de que aquela dor psicológica e física vai acabar muito antes do que eu pensei.

...

Foi tudo tão rápido! O impacto foi certeiro em mim. Os meus planos tinham ido por água abaixo de novo. Fui atropelado no momento mais crucial da minha vida. Que ótimo momento para acontecer aquilo. O carro vinha numa velocidade até normal, e mesmo assim me feriu. Caí no chão me sentindo ainda mais em pedaços. E Ao vê aquele anjo, de cabelos cor de mel, olhar verde escuro, tive um vislumbre do céu e das suas vantagens. O anjo veio me buscar. Já podia me sentir melhor. Apaguei.

...

Senti um clarão de luzes brancas nos meus olhos... E apaguei de novo.

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Eu tinha encontrado o céu... O anjo me protegia, segurando minha mão, mesmo sem eu o ver. Era reconfortante aquele toque. A paz me invadiu e foi embora em fração de segundos.

...

Acordei no hospital com uma mão segurando na minha. Não entendia o que podia ser pior, vê que ainda estava vivo ou está perto do cara que deveria estar vivendo sem se preocupar com um desiludido da vida como eu. Uma leve dor na cabeça, que se encontrava com dois curativos me fez acordar na minha realidade de novo. Vendo o Samuel me olhando com os olhos cheios de água, me senti sendo a pior pessoa do mundo por está-lo fazendo passar por aquilo. Então ele tinha me atropelado? Que virada drástica hein!

Aquilo estava destinado á acontecer, e eu tinha que termina-lo. Não dava pra prosseguir nem mais um minuto com essa vida. A morte já me esperou demais. Pedi água á ele e assim que ele saiu tirei todos os soros e aparelhos ligados á mim e fugi ainda meio zonzo. Saí pelos corredores e as pessoas olhavam pra mim, com uma cara do tipo, (Aonde vai esse louco?). Corri desesperado daquele lugar.

...

Tinha acabado de chegar numa praia bem deserta, e devia ser quase 05:00 da manhã. O sol estava quase nascendo e o céu ainda era meio escuro. Que belo dia pra morrer. Tirei os sapatos e entrei na água que se encontrava gelada. As ondas batiam levemente em mim e fui entrando até a água começar a tomar grande parte do meu corpo. Começo á tremer e penso em desistir. Mergulho e começo a nadar em direção a um local mais distante. A adrenalina no meu corpo se anestesia e vou mergulhando ainda mais fundo e distante. Respiro pela última vez e desço de vez agora.

...

O mar no fundo era calmo e azul escuro. Eu já estava submerso há um bom tempo. Abri os braços e relaxei. Sem querer comecei a flutuar bem lentamente, até ficar deitado olhando pra cima. Já não conseguia mais segurar minha respiração. Aguentei mais alguns instantes e meus pulmões começaram a doer com a falta de ar, e meu coração quase que subitamente começou á querer parar de bater. E só aí consegui me tocar de verdade do que estava fazendo. A lucidez nunca foi tão realista como naquele momento.

Num só instante não vi um sentido lógico para aquilo. Não via motivo! Tudo que eu estava fazendo se tornava patético, pois era covarde. Eu não conseguia enfrentar a verdade de que eu precisava de ajuda. Todo mundo precisa! Esse é o grande paradoxo. Ninguém sobrevive sozinho. E só agora eu via minha ficha cair. Eu tinha que estar á beira da morte pra entender isso? Foi esse o meu preço? Agora fazia sentido. Para receber ajuda primeiro eu tinha que me ajudar. No final não existia mistério e segredo para entender aquela fase, pois só dependia de mim. E só de mim. Comecei a ficar mais angustiado com aquele torpor no fundo do mar.

...

Léo... Minha mãe... Tinham ido embora e eu tinha que os deixar seguirem...

O amor nunca seria esquecido... E eles com toda certeza seriam lembranças inesquecíveis.

E então Daniel? Por que se acabar desse jeito? Por causa do medo. Medo do nada. O nada é meu medo. Será que existia algum motivo na minha estadia aqui na terra? Se sim, eu queria descobrir. Ansiei por isso e comecei a querer desistir daquela loucura.

Senti um choque pelo corpo e o filme começou a rodar no meu inconsciente. Minha mente vislumbrou uma lembrança de mim mesmo quando era criança, correndo de bicicleta pela primeira vez sem as rodinhas de segurança. Lembrei-me de quem eu era. A minha inocência, o medo, a descoberta e a coragem de correr e enfrentar o desconhecido. O garoto que acreditava, sonhava, brincava, se machucava, chorava e ainda assim tentava de novo. A vontade de revê-lo novamente me fez sentir arrependimento por tê-lo deixado sozinho.

Ele estava ali dentro de mim o tempo todo, escondido e adormecido, e não tinha morrido como eu pensei. Estava vivo, e eu o deixei hibernando por muito tempo. Naquele momento tive certeza de uma coisa: Eu tinha que acorda-lo e precisava acordar. Não podia acabar assim. Tinha uma vida esperando por mim, cheia de caminhos por onde não tinha percorrido ainda e precisava caminhar. O futuro pode até ser incerto, mas o que vale é a caminhada. De todas as coisas que pude enfrentar, aquela estava sendo á mais difícil de todas, pois não tinha saída. Até agora! Eu finalmente Despertei.

...

Emergi finalmente na água, respirando ofegante e pela primeira vez em muito tempo, senti-me livre. O sol começou a nascer e banhar sua luz por aquele mar sereno. Olhei para o céu e vi que aquela história podia e iria acabar bem. Deixaria as mágoas, tristezas e sentimentos vazios serem levados por aquelas águas. Sentiria a luz penetrar na minha vida de uma vez por todas.

Nadei em direção á areia com uma vontade enorme de encontrar as pessoas que eu amava e que ainda me restavam. Reconquistaria tudo que eu perdi. Faria diferente e seria muito feliz. Tudo voltou numa questão de segundos. Todas as minhas emoções, sentimentos e sanidade retornaram com ainda mais força e vontade. Parecia que minha escuridão nunca tinha existido, pois a luz que me iluminou naquela manhã ensolarada trouxe-me de volta.

Ao chegar à beira da praia saio leve e sem aquele peso. Molhado e me sentindo renovado de todas as formas possíveis. De repente sou empurrado para a areia e preso por alguém.

- Cara! Eu vou te internar... Você tem noção do que você está fazendo consigo mesmo? Eu não vou deixar você se matar... – disse Samuel. Com uma cara de preocupação arrasada. O anjo era real e eu o tinha ali na minha nova realidade. Como pude ser tão cego?

- Eu quero ajuda Samuel... Sei que fiz muita coisa errada. Fiz você e até meu pai passarem por muita coisa. Mas apenas porque eu não queria ajuda e agora quero. Eu preciso... – eu disse e chorei não de tristeza mais de alívio por admitir aquilo pra mesmo.

Ele me abraçou e eu o apertei forte, não querendo soltá-lo nunca mais. Depois de todo aquele desligamento, seu abraço me fez sentir-me protegido como há muito tempo não sentia. Seu cheiro, toque e até seu calor me fizeram sentir as primeiras faíscas. Olhei para ele e ele ficou sem graça.

- Me leva pra casa? – eu disse.

- Promete não fazer mais besteiras? Minha vontade é não te deixar sozinho um só minuto... Sério! Estou até pensando em te algemar á mim... – ele falou pegando na minha mão bem apertado.

Sorri! Era bom sorrir de novo e ele estava fazendo meus sentimentos voltar com uma doçura incrível.

- Eu prometo... Mas acho melhor você não me soltar só por precaução. – falei rindo e ele entendeu que era uma piada e mesmo assim ficou apreensivo. Fomos para minha casa.

...

O tempo cura aos poucos... Mas cura!

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Ia recuperando minha autoestima... Cortei o cabelo.

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Acreditei em mim mesmo e confiei nas minhas esperanças... Voltei a ler e escutar músicas alegres.

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Foi como renascer e se reconstruir... A transformação foi imediata.

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Purificado e renovado... Senti-me inteiro de novo.

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Quatro Semanas Depois...

...

Numa manhã de dezembro de 2013, saí da clínica de reabilitação e vi meu pai e meu irmão esperando ansiosos na entrada. Nunca me senti tão aliviado por vê-los á minha espera. Corri sorrindo e chorando de felicidade ao encontro deles. Que ao me abraçarem, me deixaram ainda mais feliz. No caminho pra casa tudo eram conversas e mais conversas sobre como tinha sido tudo lá, naquelas semanas. Contei apenas o básico e logo perguntei sobre uma pessoa em especial, o Samuel. Tinha que perguntar sobre ele. Eles me disseram que ele ligou pra minha casa todos os dias durante minha ausência.

O Samuel tinha chorado quando resolvi me internar. Eu estranhei aquela reação. Um cara de 26 anos chorando por um garoto de 18, como uma criança? Isso só me fez ficar ainda mais curioso com sua “Reação”. O nosso último abraço foi bem demorado e ele prometeu me levar num show dele, assim que eu estivesse totalmente bem. Eu só confirmei com a cabeça e fui embora me internar. Hoje, depois de todas aquelas semanas longe dele, fiquei ainda mais ansioso para vê-lo. Se eu levasse um fora, pelo menos teria tentado. É isso que vale tentar. Sorri ao me lembrar do seu jeito preocupado comigo. Era tão protetor. Eu queria... Pelo amor de deus, eu acabei de sair da clínica. Meu coração tá muito ansioso pro meu gosto. Que ótimo! Segura essa! Eu sorri o caminho inteiro pensando nele, meu pai e meu irmão não entendiam nada, mas gostavam dos meus sorrisos.

...

Ao chegar em casa sou surpreendido com uma festa surpresa com todos os meus amigos. Sendo abraçado por todos e fico até com vergonha de toda aquela gente.

- Gente! Vocês são incríveis... – eu disse olhando tudo que fizeram.

- Você merece isso e muito mais meu lindo... – disse minha vó me abraçando. Sentia tanta falta dos seus conselhos. Minha vó era minha amiga conselheira. Serio!

Olhei em volta e não o Samuel. Queria que ele estivesse ali. Não me entristeci e comecei a conversar e comer tudo nessa festinha improvisada feita pra mim.

Juliana me contou com detalhes seu término com o Jonatas, e de como ela tinha dado o troco. Tarso e Bianca estavam até de alianças e fazendo planos para o ano da faculdade. Era aquele casal apaixonado que vivia grudado junto. O Artur estava namorando e muito feliz na sua faculdade. Só conseguia rir deles e me sentir mais em casa com eles. Contei que era gay e por um momento eles ficaram estranhos, mas começaram a rir e disseram que já sabiam desde o segundo ano. Fiquei aliviado ao vê que eles não viam problema nisso. Meu pai falava ao telefone com alguns parentes distantes, enquanto o Diego namorava no sofá. Algumas horas depois todos foram embora e resolvi que já era hora de descansar um pouco. Ia entrar no meu quarto pela primeira vez desde... Minha ida á recuperação.

- Vó alguém ligou pra cá? – perguntei esperando que ela dissesse que sim.

- Sim! Aqueles tios seus de minas gerais, eles ficaram muito felizes ao saber que você voltou... Por quê? – ela perguntou.

- Nada! Só queria saber... O Samuel ligou? – eu perguntei ansioso.

- Não! – ela disse e sentiu que eu fiquei meio inconformado. – Tem um presente pra você no seu quarto... – ela disse bem alto e comecei a escutar um som diferente.

Fui bem devagarzinho até meu quarto. Escutando um som de saxofone, lindo e perfeito. Eu já tinha ouvido aquelas notas antes. Era a mesma música que ele tinha tocado na noite em que fui jantar na sua casa. Abri á porta e o vi. O Samuel era um perfeito anjo. Ele tocava olhando pra mim. Senti meu coração dá um pulo e começar a bater acelerado. Sentei-me na cama e ele foi chegando perto de mim com aquele som maravilhoso só pra mim. Ele parou e se sentou na cama.

- Bem vindo de volta! – ele falou e eu o abracei. Seu cheiro era delirante.

- Você veio... – eu disse. Olhei pra ele e ele estava meio que emocionado.

- Como você se sente? – ele perguntou.

- Bem... Na verdade ótimo! Eu sei que pode parecer meio idiota o que vou dizer. Mas foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Aquela depressão me abriu os olhos pra tanta coisa que eu não enxergava sabe... Eu sinto como se algo renascesse aqui dentro. E posso te dizer que hoje eu sou uma nova pessoa. Com uma vontade viver desesperadamente feliz... – eu disse seguro de cada palavra.

- Cara! Só de você falando isso... Eu já vejo em você algo diferente. Você é aquele garoto novamente... Eu conheço isso só pelo seu olhar. – ele disse admirado.

- Resultados e mudanças são o que movem a esperança. Sabia? – eu disse.

Nós sorrimos e ele pegou uma caixa num canto e me deu.

- Não precisava... Só de você tá aqui já é um presente. – eu disse abrindo e me surpreendendo com o que tinha ali.

- Chocolates... Nossa! Eu amo! – eu disse sorrindo.

- Pra adoçar sua vida ainda mais... – ele disse. Só aquele olhar dele já adoçava e muito minha vida.

- Você é um cara muito, muito legal e bacana... Obrigado mesmo por tudo isso! – eu falei sem graça. Meu coração já estava á mil.

- Eu quero que você saiba que agora que você está aqui... Eu vou te ligar vinte e quatro horas por dia... E vou te levar pra sair sempre que eu puder... Você não vai estar sozinho. Eu vou estar com você de agora em diante. – ele disse me intimando com aquele sorriso lindo e encantador.

- Seu sorriso é lindo... – eu disse e fiquei com receio dele me dá um chega pra lá. Eu não podia estar mais errado.

- Seus olhos castanhos... Conquistam qualquer um... Serio mesmo! Na verdade somente seu olhar já é encantador. – ele disse segurando o olhar pra mim e eu também segurei.

Era um tipo de olhar em que nós dois não conseguíamos parar de nos flertar nem um segundo sequer.

Meu Deus! Eu estava gostando dele. Disso eu já sabia! Só que agora era tão intenso que eu comecei a suar frio. Minhas pernas ficaram bambas e eu senti uma vontade enorme de beija-lo. Ele desviou o olhar e começou a mexer no meu celular que estava na cama.

- Você gosta de ouvir músicas internacionais? – ele perguntou saindo do clima.

- Sim! Por quê? – eu perguntei querendo que ele voltasse á olhar pra mim.

- Eu tenho uma música que você devia escutar, é muito boa e tem uma mensagem bacana pra você. Tenho certeza que você vai amar. Eu adoro escutar ela. Quando escutar, vê a tradução e me diz o que achou. É linda... – ele disse entregando o meu celular e se levantando.

- Claro! Mas você já vai? Fica mais um pouco... – eu disse e percebi que ele voltou ao clima de antes.

- Eu venho amanhã... Eu deixei meu número no seu celular. É só me ligar, qualquer hora. – ele disse chegando bem perto do meu rosto. Inspirei fundo e me controlei.

- Eu vou ligar sim... – eu disse e achei melhor não atrapalha-lo, ele devia ter algum compromisso.

Ele ia saindo e ao me vê meio que esperando um tchau. Fez melhor e me abraçou forte. Era nas nuvens que eu ficava com aquele aperto. Ele me soltou e foi embora. Será que ele sentia algo por mim? Ou eu estava enganado. Não importava, eu o amaria como amigo se ele quisesse. Só de saber que eu posso ligar pra ele á qualquer hora, já era um grande presente. Peguei o celular e comecei a escutar a música que ele deixou no play.

(The Script - The End Where I Begin)

Liguei o notebook e procurei a tradução e só a canção em si que já era linda e combinou comigo em diversos sentidos que me fizeram dessa vez ama-lo. O cara era mesmo perfeito. Anotei uma frase da sua tradução e postei no meu facebook, marcando ele na postagem.

“O que não mata um coração, só o deixa mais forte.” – The Script.

Escutei a música mais de mil vezes e todos os meus pensamentos se voltavam pra ele, claro. O Samuel já tinha me conquistado e não sabia. Procurei mais músicas da banda e fui me apaixonando ainda mais pelas músicas. Liguei pra ele e mandei um muito obrigado, por ter me apresentado essa banda maravilhosa. Ele sorria e eu percebi que ele estava animado com minha ligação num horário nada conveniente. Do tipo 23:30 da noite.

- Eu tenho outra pra você! – ele disse animado.

- Sério! Manda então agora... – eu disse empolgado.

- Olha no seu facebook... Está lá! E já com tradução... – ele disse e desligou.

Não entendi porque ele desligou assim do nada e recebi uma mensagem com a música. Ao escutar e vê a sua tradução. Meu coração reviveu uma sensação que me deixou anestesiado. Se aquilo era um sinal? Era muito mais do que isso. Só tive conclusão de uma coisa: Eu o amava e ele era meu.

(I'm Yours - The Script)

Nota do autor: Só digo uma coisa: Damuel! ;)

Comentários

Há 3 comentários.

Por GatoPEBR em 2014-10-06 23:18:11
Lindo! Perfeito! Já quero a noite de amor do nosso casal e também já quero o casamento de ambos. Não acredito que só falta um capítulo para o FIM, já estou chorando horrores, já quero para esse mês ainda um novo conto, tão bom quanto esse. Beijão meu querido!
Por hugo em 2014-10-05 12:24:50
Samuca vc é o único anjo da minha vida..... que lindo amei vc está de parabéns amei e amando pena que o próximo capítulo seja o último *-*
Por Anderson P em 2014-10-05 07:02:48
Seu conto é ótimo, pena que esta no final, queria que tivesse muitos capítulos ainda, e que bom que o Daniel deu um jeito na vida dele, mas me pergunto se o Tomas não vai incomodar o Daniel.