Capítulo 11 - Declínio
Parte da série Um Sentido Na Vida
Capítulo 11
“O vazio me engole.” — A Hospedeira.
Todas as fases que eu suportei passar, me transformaram e me direcionaram para direções que nunca pensei chegar. Juntei todas as decepções, brigas, perdas e acontecimentos que ocorreram nos últimos anos e me destruí permanentemente. Uma coisa é certa: Eu morri todos os dias de uma forma diferente.
A minha tentativa frustrada de tentar se matar tinha ido por água abaixo. O corte só me fez ficar com ainda mais dores do que eu já possuía. Quando meu pai quando abriu á porta do banheiro, quase enfartou, ao me vê caído numa poça de sangue. Minhas mãos tremiam de dor, e o sangue não parava de jorrar um só segundo. Ele me levou correndo ao primeiro hospital da cidade, desesperado com todo o sangue que eu tinha derramado. Ardia e sangrava num torpor que eu não desejo á ninguém. No final tinha sido mais artificial, do que meus joelhos ralados quando eu era criança. Que ótimo! Até a morte tinha me ignorado.
Passei horas no hospital, fazendo curativos, levando pontos no corte, tomando medicamentos e sendo examinado. Mandaram-me pra casa no dia seguinte, com meus pulsos ainda doloridos e enfaixados. Que belo presente de aniversário eu recebi de mim mesmo. Sem falar que meus primeiros minutos com dezoito anos, já tinham tudo pra ser um desastre no futuro. O caminho de volta, meu irmão que também tinha ido com a gente, não falou e nem olhou pra mim. Ele devia estar com muito desgosto de mim, isso sim. E meu pai com os olhos ainda roxos do choro, olhava serio dirigindo. Passei a viagem inteira olhando pela janela, o céu escuro e chuvoso daquele dia cinzento. Não pensava em mais nada, só queria chegar em casa e me acabar sozinho no meu quarto. Coisa que fiz nos últimos quatro meses.
O silêncio os deixava pensativos, e eu já sabia que eles deviam estar pensando no que eles fariam comigo. Assim que cheguei minha vó logo me abraçou quando eu entrei, chorando muito. Eu não conseguia sentir nada, nem pena por vê-la naquele estado por minha causa. A frieza já tinha tomado conta não só do meu coração, como do meu corpo inteiro. Não conseguia chorar com vontade, parecia que tudo tinha congelado ou secado de vez.
Ao chegar ao meu quarto, vi que as coisas tinham mudado por ali. Tudo estava mais limpo, sereno e arrumado. Minhas fotos do Léo já eram, pois as paredes estavam limpas. Minha janela aberta e sem cortina. Tudo parecia estar no lugar, esqueceram de fazer isso em mim também. Sentei na cama e senti a dor voltando aos poucos, e junto com ela meu vazio. Aquilo não iria embora nunca mais. Estava pensando no meu próximo passo, quando ouço meu pai entrando e se sentando numa cadeira perto da mesa do computador.
- Você ia se matar? – ele perguntou me encarando serio.
Abaixei a cabeça sem conseguir olhar pra ele. Fiquei mudo e ele deduziu que a resposta era sim.
- Eu não vou deixar você fazer isso com você! Não vou! Nem que eu tenha que te internar. Você precisa de ajuda, Daniel! Você precisa de ajuda psiquiátrica... – ele disse me analisando com um olhar preocupado.
- Eu não quero ajuda! Quero Esperança! Coisa que não existe mais dentro de mim. Pai, você tem noção do que eu tenho passado nos últimos meses? Acidente, a morte do cara que eu amo e a mamãe que se foi procurando por mim... Desculpa, mas eu não consigo mais vê razão pra continuar respirando... Minha vida é uma tragédia. Todas as pessoas que tentam fazer algo por mim, morrem. Onde está o sentido disso tudo? – eu disse totalmente seco.
- Todas as escolhas que fazemos vêm com consequências meu filho. A perda não foi só sua. Não se esqueça disso. Nossa família está seguindo em frente, assim como a do rapaz, você também precisa fazer isso. – ele falou se sentando na cama.
- Eu não consigo... Não consigo seguir em frente... – eu disse vendo minhas lágrimas correrem por meu rosto. – É muita coisa pra uma pessoa só... Eu ignorei tempo demais tudo de ruim que acontecia comigo. Superava rápido e nem entendia o que aquilo queria dizer, agora eu entendo. Não nasci pra ser feliz. Nunca vou ser... – desabei em um choro mais pesado.
- Não fala isso meu filho... Você tem muito que viver. Olha, você vai conhecer e amar muitas pessoas ainda. Você não pode se martirizar desse jeito. A vida não acontece pra quem desisti, apenas passa. – ele disse me abraçando.
- Só eu conheço minha dor. Ninguém nunca vai entender... – eu disse me levantando da cama.
Fui até a janela e olhei lá pra fora, pra segurar o choro que agora, não queria parar mais.
- Eu não vou deixar você se matar na minha frente e não fazer nada. Eu... Conheço uma clínica muito boa, e tenho certeza que você vai gostar. Vai ser bom pra você, é o único jeito nesse momento. – ele disse.
- Não! Eu não vou! Você não pode me obrigar... Eu sou maior de idade. Você está achando que eu vou deixar você me internar num lugar com outros doentes? Não vou mesmo. – eu falei agressivo.
- O que você quer fazer com nossa família Daniel? Já não basta ter perdido a nossa mãe, você também quer nos destruir ainda mais? – disse meu irmão entrando no quarto furioso.
- Não precisa se importar comigo mais tá legal! Só me deixa sozinho, eu estou ficando pior agora. – eu disse enlouquecendo de vez.
Minha cabeça começava a doer, eu andava de um lado pro outro. A sensação de vazio e de não sentir nada, não adiantou. Eu comecei a chorar, por que eu ainda me importava e isso me destruía. Eu não queria estar fazendo isso com eles, não queria fazê-los chorar por minha causa. Não só estava destruindo á mim, como as pessoas que eu amo. Isso estava errado. Não! Eu quero que eles sigam em frente. Eu só quero viver com minha dor, sem machucar mais ninguém. Chega!
- Você está fora de si... Quem é você? A gente não te reconhece mais, cara! Olha o que você está fazendo consigo. Parece outra pessoa, e não é só por dentro mais fisicamente também. Você está horrível... E precisa se tratar urgente. – disse meu irmão assustado com meu comportamento.
- Para! Saí do meu quarto! Saí agora! – gritei os empurrando porta afora.
- Amanhã você vai direto pra uma boa clínica. E não tente fazer a gente te levar á força! – disse meu pai saindo e fechando á porta.
Apenas caí no chão chorando e sentindo minha cabeça explodir. O que podia ficar pior ficou e acabou com o que ainda me fazia ficar em pé. Depois de horas e horas derramando lágrimas que eu nem sabia que ainda restavam em mim. Resolvi fazer á única coisa sensata e certa no meu ponto de vista. Eu tinha que deixa-los serem felizes, sem mim. Meu caso já estava perdido mesmo, eu mesmo me suportaria de agora em diante. Eu fugiria daquela casa. Já tinha idade suficiente pra me jogar num precipício sem levar ninguém. Eu os deixaria em paz.
Peguei uma mochila velha da escola e coloquei alguns moletons, casacos e calças leves na bolsa. Vesti um casaco com capuz preto e fui pegando tudo de valor que tinha naquele quarto e eu pudesse levar. Enchi uma sacola com acessórios e fui enchendo minha bolsa com outras coisas. Peguei um caderno pequeno, com caneta que nos últimos meses tinha sido meu novo confessionário e coloquei dentro. Minha carteira com meus documentos já estavam no meu bolso, assim como meu relógio e uma quantia que eu juntei nesses últimos meses, sempre que meu pai me dava algo pra sair de casa e eu recusava. Serviria de algo, um dia, talvez. E uma foto da minha mãe, que seria minha lembrança dos dias em que eu era um garoto inteiro.
Quando tudo já estava pronto, me deitei na cama e esperei o sono chegar. O que era muito difícil nos últimos tempos. Nem sonhar eu conseguia mais. Vivia um completo pesadelo todos os dias. Tinha dias que era melhor ficar na cama, e não sair de lá nem pra ir ao banheiro. Eu estava convicto das decisões que eu tinha tomado. Viveria minha vida de desgraças longe de todo mundo. Eu sabia que não conseguiria superar aquilo, e não jogaria as esperanças deles no lixo também. Peguei no sono de repente.
...
Acordei com os chamados da minha vó no quarto. Droga! Já era quase 20:30 da noite. Eu não tinha comido nada e nem bebido. Corri até á porta, pensando que minha vó tinha me trazido algo pra comer e tomei um susto ao vê quem estava do seu lado.
- Você? – eu disse assustado ao vê o Samuel.
- Oi! – ele disse me olhando com aquele olhar doce.
- Ele quer muito conversar com você meu filho... – ela disse saindo e nos deixado sozinho.
- Eu sei que você não quer receber ninguém... E não vou tomar muito do seu tempo. Tenho que levar minha namorada em casa ainda. Vai ser rápido! Juro! – ele disse.
Então ele estava namorando? Nossa! Muita coisa aconteceu no meu período de hibernação. Essa foi surpreendente. Todo mundo estava vivendo, e eu aqui querendo morrer. A minha vida pode ter parado, mas não á dos outros.
- O que você quer? – eu disse sabendo que estava sendo rude com ele. Abri á porta ele entrou.
- Nossa! Você está péssimo! Dá pra perceber isso só olhando pro se cabelo. O que houve? Você não recebia minhas visitas, e nem atendia minhas ligações. De julho a agosto eu tive uma viagem e deixei centenas de recados pra você... Resolvi entender e mesmo assim ficar de boa contigo. – ele disse rindo e aquilo mexeu comigo.
- Eu não queria mesmo falar com ninguém... – eu disse de cabeça baixa. Era melhor não dá tanta bandeira no quesito feiura.
- Quando eu cheguei de viagem, foi que eu soube que você tinha recuperado a memória. O Tomás me disse, e, aliás, ele vive sabendo tudo que acontece com você. Preocupa-se contigo e muito, assim como eu... Eu perdi a conta de quantas vezes eu vim aqui e sua vó me dizia que você estava dormindo... Até que eu desisti e resolvi voltar quando me disseram o que você fez. Cara! Eu não acreditei... Eu gostaria de ter te ajudado lá no começo, quem sabe você já estaria melhor até. Eu me sinto em dívida com você. – ele disse chegando perto de mim.
- Eu já disse que não precisa ficar com porcaria nenhuma de dívida comigo. Salvei você e só, faria por qualquer um. Que papo é esse? - eu disse me alterando. – Olha! Será que dá pra você não procura mais saber de mim? Ou se importar com o que eu estou fazendo da minha vida. Ah! E manda seu irmão cuidar da vida dele... Não quero você e nem ninguém com pena de mim ou em dívida comigo. Fodam-se todos vocês! Eu não quero saber de ninguém se importando comigo. Eu não preciso de ajuda se é isso que você veio me dizer. Então por favor, saí do meu quarto. AGORA! – Eu disse totalmente descontrolado. Meus olhos iam desabar de novo, eu tinha certeza disso.
No que eu me tornei hein... Senti nojo de mim mesmo por te feito isso com um cara tão bacana como o Samuel. Ele nunca vai me perdoar. Fiquei triturado novamente por dentro e ele apenas baixou á cabeça constrangido.
- Desculpa! Eu só... Queria ajudar... – ele disse tão triste que eu queria abraça-lo.
O que eu tinha feito? Meu Deus... Eu não aguento mais isso! Eu destruo qualquer coisa sem nem pestanejar. Segurei-me e esperei ele sair do quarto, me destruindo de arrependimento por ter dito aquilo tudo á ele.
- Só te digo uma coisa... Não desisti de você... Eu sei que você passou por muita coisa... Mas você está aqui... Você sobreviveu á todos os outros obstáculos... Isso meu amigo, é a prova de que tem coisas boas reservadas pra você no futuro. É só resistir, persistir e continuar. Eu sei que você consegue... Ainda consigo vê esperança no seu olhar... – ele disse tudo aquilo e comecei a chorar me segurando muito pra não cair nos braços dele.
Ele estendeu á mão pra mim e eu virei de costas, tão acabado que não conseguia nem falar mais.
- Vai embora! Vai cuidar da tua namorada... E me esquece. – eu disse e ele saiu fechando á porta do quarto.
Caí aos prantos de novo e continuei minha destruição por dentro, com ainda mais força do que antes.
...
Ao acordar pela manhã, me levanto e quando chego à cozinha já encontro meu pai, minha vó e meu irmão tomando café. Sento-me á mesa e todos ficam espantados com minha aparição. Não toco em nada e já olho pra meu pai.
- Pai! Você pode me levar num lugar? – eu perguntei.
- Claro meu filho! Aonde você quer ir? – ele perguntou curioso.
- No cemitério... – eu disse e todos silenciaram ainda mais.
- Por que isso agora Daniel? Você quer ficar pior do que já está? Não! Você não vai! – esbravejou meu pai.
- Eu quero isso... Eu passei os últimos meses sem te pedir nada e quando resolvo pedir você recusa... Que droga de recuperação você quer que eu tenha? – eu disse alterado.
- Tudo bem! Eu te levo! Se for isso que você quer... Mas minha condição é você se tratar. Qual sua opinião sobre isso? – Ele perguntou.
- Você quer mesmo me jogar num lugar desses? Eu posso me recuperar muito bem sozinho. – falei.
- Foi isso que você fez esses últimos quatros meses? Acho que não! Está na hora de você acordar pra vida, irmão! – disse meu irmão saindo da mesa decepcionado. Senti uma pontada de dor e me controlei.
- O Diego tá certo! Quando você vai admitir pra si mesmo que precisa de ajuda? – disse meu pai.
- Nunca! Deixa pra lá! Eu me viro! Podem cuidar das suas vidas e me deixarem em paz? Eu não vou pra porcaria nenhuma de clínica. Aceitem! Eu já morri mesmo... – eu disse saindo da cozinha.
...
Quando ele saiu para o trabalho e meu irmão foi pra faculdade, me preparei para a fuga. Deixei uma carta no sofá da sala e fui vê onde minha vó estava. Olhei pra ela uma última vez no seu quarto sozinha, lendo a bíblia. Por um momento quis desistir, mas a dor que rasgava tudo não me deixou opções. Fugi de casa numa rapidez, que nem bala me pegava. Peguei um ônibus e fui direto para o cemitério onde o Léo tinha sido sepultado.
Em julho, quando fiquei sabendo de tudo, numa visita do Artur a minha casa, meu amigo me disse onde aconteceu o funeral e como tinha sido. Ele falava todo estranho e sem jeito, como se escondesse algo de mim. Eu já estava á ponto de vim antes, só que não tinha forças. Meu pai me disse que falou com a família dele, mas eles não gostaram muito disso e não o receberam muito bem. Meu irmão me mandou esquecê-lo e disse que se eu chegasse perto daquela família, ele nunca mais falaria comigo na vida. Eu nem tentaria, pois sabia que seria mal recebido e não aguentaria as acusações e xingamentos vindos deles. Passei o caminho inteiro pensando em cada momento do Léo comigo e me acabando num choro por dentro.
...
Ao chegar ao túmulo, caí de joelhos e toquei sua foto chorando um verdadeiro mar de lágrimas. As flores junto da sepultura ainda estavam frescas, com uma dedicatória escrita com a letra dele. Com certeza era da irmã dele. Irmãos podem ter letras parecidas, eu acho. Aquilo só me fez ficar ainda pior, parecia que a dor tinha se multiplicado e dobrado numa intensidade que não me deixou alternativa á não ser desabar e desabar até não aguentar mais. Aquela dor psicológica era massacrante. Deitei e fiquei ali mesmo sem vida ou qualquer vontade de se levantar. Comecei a falar sozinho.
- Léo! Por que você foi embora? Você não podia ter feito isso comigo! Eu não vou aguentar isso sem você... Não tenho mais ninguém. Você era minha vida! Como isso pode ter razão... – eu disse e de repente olhei com muita raiva para o céu. – Cadê você no momento em que eu mais preciso? Eu passei por tanta coisa e é isso que você me dá? Você nem deve existir... Está satisfeito agora? Eu estou destruído... Você o tirou de mim e eu nunca vou te perdoar por isso! NUNCA! – falei descontrolado para os céus e para o que existia além dele.
As horas foram passando e já era tarde quando saí finalmente do cemitério. Eu parecia um fantasma andando pelas ruas com aquele casaco preto, totalmente desolado. O vento tinha mais vida do que eu. Sentia-me como uma folha seca, voando sem destino num vendaval de inverno.
As pessoas me olhavam como se eu fosse um alienado de outro mundo com aquela cara. Que devia estar horrível e péssima. Senti tanto ódio que fiquei revoltado e comecei a xingar todo mundo que me olhava estranho. Tipo mandar todos se foderem e se irem para o inferno, foram um deles. Anoiteceu e eu me abriguei num local cheio de mendigos. Agora entendia que a vida não foi feita para ganhar e sim para perder no momento em que você acha que ganhou. O game over da minha vida, só me mostrava que tudo não passava de uma simples ilusão.
Ali naquele momento, parado, olhando os carros passarem e as pessoas andando. Desliguei meus últimos resquícios de sanidade mental. Se a vida era cruel e injusta, eu foderia com o que me restou completamente. Faria tudo de ruim sem sentir culpa ou remorsos, não melhor, daria um significado á minha bosta de existência. Já que tudo tinha dado errado, eu deixaria tudo ainda pior. Seria um louco. Já estava louco mesmo, não faria diferença alguma. Todos que eu amava tinham partido, assim como eu mesmo. Minha alma e até minha sombra me deixaram sozinho. Quando se perde a vontade viver você caí e encontra o chão.
Minha mente já obscurecida começou a colocar em prática minhas novas escolhas, já no primeiro instante do meu novo eu. Avistei um grupo de caras fumando um cigarro e resolvi ir até lá. Fazer amizade. Quando dei por mim, já estava fumando um cigarro de maconha. E tinha novos amigos, que me receberam sem cerimônia e me aceitavam do jeito que eu estava. Minha cabeça já não lembrava mais o que eu tinha sentido e comecei a ter sensações que não me deixavam em depressão e sim livre, solto e até rindo de mim mesmo. Se você quer se perder fácil, basta nunca querer encontrar a saída.
...
Eu dançava sem nem me importar com os olhares ou com o ritmo da música. Era libertador aquela sensação, sem dor ou qualquer tristeza. Tudo tinha ido embora. Eu me jogava na pista totalmente insano, sentindo todos me agarrando, me pegando e dançando comigo ao som daquela música. Molhado de suor, ensopado de água e bebida pelo corpo, já fluía drogas em minhas veias.
...
Os caras eu conheci naquela rua, moravam num bairro pobre e mal frequentado do rio. Depois de ter conhecido um quartinho sujo e pequeno, me instalei lá por convite de um deles. Um convite com proposta de altas aventuras e noites eletrizantes. Topei na hora, e comecei a curtir a onda que eles levavam. Passamos o dia e o começo da noite fumando e andando por vários bairros barra pesada. Era um mundo novo, para uma pessoa nova como eu. Arriscar já não era mais problema, e sim um mandamento.
No começo da madrugada me levaram á uma festa rave num lugar abandonado, que nunca tinha estado antes. As únicas luzes deixavam o lugar num tom mais escuro e sombrio. Já as pessoas eram diferentes, mais animadas e parecidas com meu estado físico. Não era uma balada qualquer. Era (A Balada), que não tinha limites ou quaisquer escrúpulos, pois todo mundo estava alcoolizado e drogado de um jeito ou de outro.
...
A música eletrônica me invadia e eu só a deixava entrar ainda mais no meu sangue. Nunca tinha dançado daquele jeito, tão libertador e elétrico como estava naquela noite. Eu percebi um cara me olhando e parei mais de me movimentar, ele chegou me agarrando por trás e me mordeu o pescoço de leve. Quando me virei para apreciá-lo, vi o cara mais estranho da minha vida. Ele tinha o cabelo curto no estilo moicano, pintado de loiro bem claro, com vários piercings na orelha e um no nariz. Seu braço direito era tomado por tatuagens coloridas e suas mãos e braços eram cheios de pulseiras pretas e anéis. Recuei um passo e ele me agarrou me olhando com uma cara de safado. Não esperei e me joguei nos braços dele o beijando. Estávamos no meio daquele alvoroço no maior amasso e eu nem me importava. Ele foi me levando dali e de repente já não via mais ninguém por perto.
Fomos á um lugar mais reservado num galpão abandonado e nos deitamos atrás de um carro velho, enferrujado e abandonado. Eu via outras pessoas se pegando por ali, com tudo muito explicito.
- Eu quero te foder! Vêm! – ele disse e nem esperou minha resposta.
Tirei minhas calças e ele fez o resto. Transamos rapidamente e ele me deixou ali e foi embora sem nem dizer tchau. Só fiquei ainda mais transtornado e voltei querendo me acabar nas músicas. Assim que cheguei à concentração de pessoas, avistei meus colegas que me trouxeram.
- Caralho! Meu a gente procurou você e não achamos... Estava se divertindo não foi? – disse um moreninho alto, chamado Deco. Que era agora meu parceiro num quartinho alugado.
- Pode ser... – eu disse rindo maliciosamente pra ele.
- Tá afim? – perguntou um branquinho com cara de dorminhoco, me mostrando uma bala.
- O que é isso? – perguntei confuso.
- Experimenta e depois você me fala... Te faz esquecer qualquer coisa... Aí depois você só vai delirar.
Peguei da sua mão na mesma hora e coloquei na boca. Eles começaram a rir e eu não entendi nada. Só depois entendi o por quê.
...
Acordei no dia seguinte no meio de umas garotas e de um cara que estava sem calça do meu lado, junto com o Deco. Caraca! Eu não fazia ideia de como tinha vindo parar ali. Estávamos na casa do deco, que era onde eu morava agora. Levantei-me exausto e cansado, que parecia que tinham me batido á noite inteira. Fui ao banheiro e me olhei no espelho. Só digo uma coisa: Não era eu mesmo! Meus olhos estavam mais pretos que o normal, o castanho tinha sumido. Meu cabelo de aparição passou para rockeiro punk! Meus lábios secos. Minha pele pálida, como se eu não tivesse mais sangue no corpo. A destruição interior já se mostrava bem ativa na minha parte exterior. Molhei o rosto e saí pra respirar um ar mais puro, lá dentro só fedia á coisas nada muito agradáveis.
Resolvi comprar algo pra comer numa padaria perto dali. Todo lugar que eu passava encontrava desconhecidos usando coisas e várias prostitutas chegando das noitadas. Um carro na frente de um motel mixuruca acelerava o motor e o motorista gritava acusações para uma travesti que só fazia pular em cima do para-brisa de fúria com o homem. No geral era um tipo de bairro bem barulhento.
Depois de comer, fui pra casa do Deco onde se encontravam minhas coisas e tive um susto quando vi o meu colega branquinho chamado Alê, mexendo nas minhas coisas apressado.
- Cara! O que você está fazendo? – perguntei incrédulo.
Ele veio até mim e ajoelhou-se desesperado me agarrando as pernas.
- Você é meu novo irmão! Não posso fazer isso com você... Eu ia te roubar mano! – ele disse bem alterado e nervoso.
- Por quê? – perguntei sem entender.
- Tu me emprestas uma grana? Serio! Eu juro que te pago assim que der. Juro! Só me empresta dessa vez? – disse Alê implorando.
- Tá legal! Fica tranquilo! Eu vou te dá! Mas pra quê você precisa? – eu perguntei tirando da minha carteira R$ 50,00 reais.
- Poxa cara! Você é dez malandrão! Te pago beleza! – ele disse tomando da minha mão e saindo ás pressas.
Fiquei sem entender nada e me sentei num sofá velho com uma dor pesada na cabeça. Pela primeira vez em muito tempo, não quis me matar mais. Só queria vê o tempo passar e não sentir mais nada, e se pra isso eu tivesse que esquecer meu passado, eu faria isso. Muitos minutos depois, a porta do quartinho se abre e o Alê entra com uma sacola preta na mão.
- Tá a fim de embarcar numa viagem irada? – ele me perguntou ansioso.
- Como assim? Pra onde? – perguntei animado.
- São Paulo! Tenho um irmão que tá precisando de ajuda e ele tem umas paradas pra mim... Aí eu pensei, que tal levar um amigo meu pra me ajudar lá! Você topa? Vai rolar uma graninha da hora. – ele disse.
- Poxa! Não sei... Eu acho melhor ficar aqui mesmo sabe? – eu falei meio indeciso.
- Não cara! Vamo comigo! Vai ser dá hora! Prometo te trazer em segurança de volta! E aí? – ele indagou.
- Tá vai! Eu aceito! Quando a gente vai? – eu perguntei seguro da minha escolha.
- Agora! Pega tuas coisas e a gente some daqui sem nem deixar pistas... – ele disse colocando a sacola preta na bolsa dele.
- Ei o que é isso? – eu perguntei.
- Só umas coisas do meu irmão! – ele respondeu meio nervoso.
Se isso era uma aventura perigosa, eu me arriscaria, pois não tinha nada á perder mesmo. Tudo que me fizesse esquecer aquele mundo que eu vivia antes seria aceitável. Só não esperava que essa viagem fosse ser tão explosiva e surpreendente. Em todos os sentidos possíveis.
Nota do autor: Enfim mais um capítulo! Espero que curtam! Um coisa é certa: As coisas vão tomar proporções complicadas na reta final! Personagens vão se revelar! Aguardem! Até á próxima! Não demorarei muito dessa vez! dois cap para o final! Um grande abraço á galera que comenta sempre e á todos que acompanham! Bjs!