Torniquete S01E03
Parte da série Torniquete
CAPÍTULO TRÊS
Abrindo o Coração
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Oliver destravou o carro quando ainda estávamos longe.
- Você comprou esse carro?
Me arrependi da pergunta assim que a fiz em voz alta. Sério? O cara acabou de me dar alguns beijos e tudo o que consigo perguntar é sobre o carro? Logo a porcaria do carro?
- Não. Ganhei de aniversário do meu pai.
- Sério?
- Sim, porque? – perguntou ele abrindo a porta e entrando.
- Nada – Me sentei ao lado dele e coloquei o cinto – digamos que o meu pai não é o candidato perfeito para o premio “pai do ano”.
- Entendo – falou ele ligando o carro e começando a dar ré – o que você precisa saber Brian é que nem todos os pais do mundo são como o seu. Sem querer ofender é claro – em seguida ele saiu do estacionamento.
- Entendo. Por culpa do meu pai eu só dei meu primeiro beijo de verdade aos vinte e um ano de idade.
- Sou o primeiro homem que você beijou?
- Bom, tecnicamente foi você que me beijou, mas sim. Você é o primeiro homem que eu beijo.
- É uma honra – falou ele olhando para mim com um sorriso.
- Deixa de bobeira, nem é grande coisa – falei envergonhado como um adolescente de quatorze anos.
- Brian, algumas coisas na vida são importantes. Os primeiros passos, as primeiras palavras a primeira nota vermelha no boletim. Esses são apenas alguns dos vários momentos que ficam guardados na mente dos nossos pais. Nós só temos dois momentos que vão ficar guardados em nossa mente: o primeiro beijo e a primeira transa – falou ele saindo da universidade e descendo a rua – não deixe que o seu pai preconceituoso tire esses momentos de você porque no futuro quando você olhar para trás esses são os momentos que você vai se lembrar e as lembranças de farão ficar triste ou feliz. Depende das experiências que tiver.
- Tudo bem – falei suspirando – meu pai já me tirou meu primeiro beijo.
- Não interessa se você beijou todas as garotas da cidade o seu primeiro beijo é o que te faz sentir o que eu fiz.
Eu ri quando ele disse isso.
- O que foi?
- Você fica parecendo um convencido quando diz isso.
- Não sou convencido, mas sei que você gostou de me beijar. Sei que quando sentiu meus lábios você quis morrer porque a sensação de me beijar era tão boa que só a morte traria um final para um momento tão perfeito coo o de beijar os meus lábios.
- Como você sabe que senti isso?
- Porque foi exatamente o que senti ao te beijar.
Quando ele disse isso senti vontade de rir. Tinha gostado de ouvir ele dizer aquilo. Não estava acredito que aquele garoto chamado Oliver ao qual tinha me seduzido por alguns instantes na sala de aula tinha me beijado e agora estava me levando para casa. Aquilo tudo era tão surreal para mim. Estar com outro homem fazia me sentir bem, mas ao mesmo tempo me sentia mal. Realmente não sabia o que devia sentir. Meu pai me mataria se descobrisse o tinha feito e logo a sensação de felicidade que senti se transformou em remorso.
Nós seguimos viagem basicamente em silêncio. Não tínhamos muito o que conversar afinal nós tínhamos acabado de nos conhecer. Depois de uma ,longa viagem não demoramos muito para chegarmos na rua da minha casa.
- É logo mais a frente – falei apontando para a casa com a calçada de pedras e portão dourado.
- Está entregue – falou Oliver parando o carro e em seguida desligando.
- Muito obrigado – falei pegando a mochila e abrindo a porta do carro.
- Te vejo amanhã?
- Vê né? Afinal agora estamos na mesma turma.
- Não ganho um beijo de despedida?
- Você… você quer outro beijo?
- Quero. Eu realmente gostei de te beijar.
- Não acho uma boa ideia. O beijo foi bom, mas não posso me enfiar nesse mundo de fantasia porque sei qual vai ser o final.
- Qual você acha que será o final?
- Como assim? Não está óbvio? Vou me casar com uma mulher, ter filhos… Vou viver uma vida normal. Acho que isso é o bastante para meu pai.
- E quando seu pai morrer? O que isso vai importar? Você acha mesmo que vale a penas jogar sua vida fora para deixar ele feliz?
- Você não entende.
- Tem razão, eu não entendo – ele disse isso ligando o carro – acho que esse beijo foi um erro.
- Tudo bem – falei saindo do carro – obrigado pela carona e boa noite.
Ele não olhou para mim. Assim que fechei a porta do carro Oliver deu ré no carro e assim que chegou no fim da rua ele virou para a esquerda e foi embora.
Eu não tinha culpa só estava apenas sendo realista. Estava me poupando do sofrimento e ilusão porque quem estava correndo risco era eu e não ele.
Antes que pudesse me virar para abrir o portão uma luz forte me cegou. Coloquei uma mão no rosto e em seguida vi luzes vermelhas e azuis. Era uma viatura.
- Desculpa – falou um policial desligando os faróis já de fora do carro.
- Boa noite Carter – falei olhando para o alto. Agora tinha uma mancha atrapalhando minha visão.
- Está chegado meio tarde não acha? – falou ele vindo em minha direção com a lanterna.
- Você não está meio longe da sua área? As pessoas de lá precisam de proteção.
- Você é prioridade – falou ele parando na minha frente e desligando a lanterna.
- Os contribuintes ficariam felizes em saber que o dinheiro dos impostos está sendo bem investido.
- De qualquer jeito… – falou ele olhando para o longe onde Oliver desapareceu. Em seguida ele olhou para mim – quem era aquele cara?
- É só um amigo da universidade.
- Qual o nome dele?
- Oliver.
- Conhece ele a quanto tempo?
- Não te interessa.
- O que você disse?
- Eu disse que não te interessa. Vai fazer o que? Me prender?
- você sabe que posso, mas sabe que posso fazer coisa pior né? Imagina se digo para seu pai que te vi acariciando aquele cara? A coisa vai ficar feia pro seu lado.
- Mas isso não é verdade.
- A quanto tempo conhece ele?
Eu suspirei antes de responder.
- Hoje. Nós nos conhecemos hoje, tive que esperar minha namorada ir embora e acabei perdendo o ônibus e ele se ofereceu para trazer.
- Você podia ter me ligado, eu teria te trazido.
- Como eu disse, os contribuintes adorariam saber que o dinheiro deles está sendo usado para perseguição.
- Da próxima vez me liga ou vou relatar isso para seu pai.
- Será que posso entrar em casa agora?
- Boa noite – falou ele indo em direção a viatura.
Usei a minha chave para abrir o portão e depois de atravessar a calçada de pedras que cruzava o jardim eu finalmente cheguei a porta da casa que era de madeira com quadrados de vidros embasados. Ao abrir as porta tentei fazer o mínimo de barulho possível. Assim que fechei, tranquei e liguei o alarme. Dei um passo na sala escura e pisei no gato que fez um barulho estridente.
- desculpa Raphael – falei sussurrando. O gato saiu pulando em cima do sofá e depois de alguns pulos ele desapareceu na cozinha.
Subi as escadas e assim que cheguei no corredor fui direto para o meu quarto. Arranquei minha roupa e ao ir para o banheiro lembrei-me dos comprimidos que Finn havia me dado. Peguei um deles e fui até o banheiro, coloquei na boca e engoli com a água da torneira.
Olhei-me no espelho e apalpei minhas protuberâncias no corpo. Estava realmente gordo, seja lá quem era aquele homem no banheiro da panificadora, ele estava certo, se quiser impressionar alguém eu preciso perder algum peso afinal Lucy talvez não seja minha única namorada. Voltei até o quarto peguei outro comprimido e engoli sem água.
Logo após eu tomei meu banho, escovei os dentes e me deitei de cueca jogando um cobertor por cima de mim. Em seguida desliguei a luz do abajur e fiquei em total escuridão. Tinha sido um dia diferente. Nem acreditava no que tinha acontecido. A maior parte parecia um pesadelo, mas por fim tive um sonho do qual não queria ter acordado. Eu tinha realmente gostado daquele beijo, mas eu tinha que viver no mundo real. Fiz minha escolha anos atrás quando resolvi abrir a boca pro meu pai e agora estava preso a um pai que me ameaçava constantemente.
Quem dera a minha vida fosse um pesadelo. As vezes queria entrar em estado de coma e esperar para ser acordado quando tudo isso tivesse acabado. Eu evitaria tantos problemas, mas também perderia muitas vitórias e vendo por esse lado acho que realmente vale a pena estar acordado, mesmo que esteja sofrendo.
No dia seguinte acordei cedo para ir mais uma vez ao trabalho e enquanto tomava café da manhã meu pai desceu as escadas com seu uniforme.
- Bom dia – falou ele chegando na cozinha e apertando o botão da cafeteria que começou a moer o café.
- Bom dia – falei comendo meus cereal sem olhar para ele.
Nós ficamos em silêncio todo o tempo e os únicos sons no ambiente era o barulho dos cereais que mastigava e as páginas do jornal que meu pai lia sendo passadas. Quando terminei de comer me levantei e lavei a louça que tinha sujado.
- Como está Lucy? – perguntou ele me encarando. Sentia um calafrio toda vez que ele me olhava.
- Está bem.
- Que bom.
Eu me virei para sair da cozinha.
- Filho.
- Sim?
- Você não quebrou sua promessa – falou ele tomando um gole do café. Ele continuava conversando comigo, mas sem tirar os olhos do jornal – estou orgulhoso de você.
- Obrigado pai – falei sentindo uma pontada de felicidade. Era bom finalmente ser aceito por meu pai. Ouvir aquelas palavras me deixou muito feliz. Meu pai nunca me elogiava.
O expediente na empresa se iniciou normalmente. Tinha bastante serviço e vários funcionários buscavam seus uniformes e isso atrapalhava o meu serviço interno. Percy estava com um cliente desde cedo e só aguardava uma oportunidade para poder devolver o dinheiro dele.
Não queria ficar ligando e incomodando. Então decidi que depois de trinta minutos iria no andar de cima mais uma vez conferir se ele estava livre. Trinta minutos depois foi isso que fiz. Ssubi as escadas e bati na porta da sala de Percy.
- Pode entrar.
- Com licença Percy – falei entrando com o pacote na mão. Percy viu o pacote e ficou me encarando. Ele me seguiu com os olhos enquanto caminhava em direção a ele.
- O que foi? Algum problema com o dinheiro? – perguntou ele sendo sarcástico.
- Não, só queria devolver – falei colocando o pacote em cima da mesa.
- Não adianta me chantagear, se estiver pensando nisso eu aconselho que pense duas vezes.
- Não senhor.
- Então porque está me devolvendo esse dinheiro? Está pensando em abrir a boca?
- Pensei bem e percebi que não estava agindo certo aceitando esse dinheiro, mas não precisa se preocupar porque não vou contar nada para ninguém.
- Acho bom – falou ele pegando o pacote e jogando dentro da gaveta – mais alguma coisa?
- Não senhor.
- Então pode sair. Tenho mais o que fazer.
- Ok – falei saindo da sala me sentindo humilhado. O cara era amante da esposa do sócio e amigo e se achava no direito de me ameaçar e me tratar mal. Se não tivesse motivação eu já teria saído daquele lugar a muito tempo atrás, mas sei que para vencer na vida precisava sofrer e engolir alguns sapos. Quem sabe um dia não seja eu quem esteja dando as ordens?
Eu voltei para o RH e depois de alguns minutos Cory apareceu no guichê. Cory é o nosso outro entregador, mas ao contrário de Finn ele dirige caminhão e faz viagens constantemente.
- Bom dia Brian.
Bom dia, o que posso fazer por você?
- Preciso da assinatura do Jeffrey para poder abastecer o caminhão.
- Traz aqui pra mim – falou Jeffrey.
Eu peguei o pedido e logo ele deixou sua assinatura.
- Mais alguma coisa? – perguntei entregando o papel.
- Só isso, muito obrigado.
- Por nada .
Eu voltei para minha mesa e conferir os horários de todos os funcionários e verifiquei se estavam de acordo com o ponto. O dia no trabalho foi normal, exaustivo porém normal. Assim que sai do trabalho fui para o ponto de ônibus.
Ao chegar na universidade as primeiras pessoas que vi, infelizmente, foram Ely e Trevor. Eles estavam na porta da universidade abraçados com suas namoradas e ficaram me encarando. Lucy estava com eles então fui obrigado a ir em direção a turma.
- Boa noite – falei indo até Lucy e dando um beijo na boca dela.
- Boa noite amor.
- Já vou entrar, vem comigo? – perguntei segurando a mão dela.
- Claro – falou ela olhando para mim com um sorriso – até mais – falou acenando para os amigos imbecis dela.
Nós então entramos na universidade de mãos dadas e seguimos em direção a nossa sala.
- Como foi seu dia? Conseguiu chegar em casa ontem?
- Sim.
- Ainda bem, fiquei preocupada com você.
- Na verdade aquele cara, o novato da nossa sala sabe? Ele se ofereceu para me levar em casa e eu aceitei.
- Sei… - falou ela seca.
- O que foi?
- Puxa Brian, eu te disse ontem que todos já acham que você é gay…
- E você queria que eu fizesse o que? Ficasse esperando o ônibus? Ele não veio e a única opção era acordar meu pai que trabalhou o dia inteiro para me buscar na universidade.
- Porque você não aceitou a carona que o meu pai ofereceu?
- Eu não queria incomodar seu pai. Além do mais vocês moram do outro lado da cidade é muito longe de onde moro.
- Sério? Você nega a carona do pai da sua namorada para aceitar a carona de um estranho?
- O que te incomoda tanto Lucy? – nesse momento nós paramos de andar e eu fiquei de frente para ela. Sentia que ela estava querendo me dizer algo, mas estava se segurando.
- Me incomoda saber que você aceitou carona desse tal de Oliver… o que aconteceu quando ele te deixou em casa?
- Como assim?
- Me deixa reformular a pergunta, tem certeza que vocês foram mesmo pra sua casa?
- O que você está insinuando?
- Só estou dizendo que Ely e Trevor estavam falando sobre você e Oliver. Em como ele te defendeu no banheiro quando eles fizeram uma brincadeira com você.
- Brincadeira? Ele estavam me intimidando e me assaltando.
- Por favor Brian era só brincadeira, esse Oliver não tinha que se meter.
- Você está me dizendo que está mais incomodada com o fato dele ter me defendido do que seus “amigos” me fazendo de idiota?
- Só estou dizendo que os boatos sobre você estão aumentando e estou começando a acreditar.
- Quer saber? – Foda-se Lucy. Foda-se você e seus amigos riquinhos e mimados. Deixei ela falando sozinha do meio do pátio e fui em direção a sala. Estava me sentindo um babaca, como ela se atrevia a me acusar de tal coisa e ainda defender os amigos idiotas que viviam fazendo piadas e espalhando boatos sobre mim? Ela deveria me defender e ficar ao meu lado e não deixar-me para baixo. Não precisava de mais pessoas assim na minha vida.
Cheguei a sala de aula, fui direto para meu lugar e me sentei. Estava com raiva e quando ficava dessa forma não gostava de bater papo porque sentia que ia explodir.
Lucy chegou a sala de aula e se sentou no seu lugar habitual ao meu lado.
- Brian me desculpa, não devia ter dito aquilo.
- Tarde demais pra isso não acha? – falei olhando para frente. Nem conseguia olhar para a cara dela. Eu estava realmente puto com o que ela tinha me dito.
Ela ficou em silêncio alguns segundos e quando pensei que finalmente teria um pouco de sossego mais uma vez ela abriu a boca.
- Brian escute o que eu digo… - falou Lucy tocando meu braço.
- Será que dá pra me dar um pouco de espaço? – falei puxando meu braço e finalmente olhando para ela com desprezo – não adianta ficar se desculpando pelo que disse. Desculpas não vão apagar o que você disse e não vão me fazer sentir melhor. A única coisa que pode me fazer nesse momento é me dar um tempo, então por favor se afaste e de o espaço que preciso.
Estava ofegante e tinha dito isso um pouco mais alto do que gostaria. As pessoas em volta estavam nos encarando, mas não durou muito porque logo voltaram a nos ignorar.
- Ok – falou ela recolhendo a mão – se é o que precisa.
Essa foi a última coisa que ela disse antes de finalmente me deixar em paz. Já detestava o toque dela depois do que ela disse eu estava enojado. Tentei esquecer o que tinha acontecido. Não queria ficar com fama na universidade, mas os amigos babacas dela estavam me fazendo o favor de espalhar boatos sobre mim. Peguei um livro e decidi ler algumas páginas até as aulas começarem afinal precisava desviar meus pensamentos.
Eu estava lendo a um bom tempo quando vi pelo canto do olho que Oliver chegou a sala de aula. Por causa daquela briga com Lucy esqueci o que tinha acontecido entre mim e Oliver no dia anterior. Ao lembrar me arrumei na cadeira, limpei a garganta e continuei lendo. Fiz tudo isso sem olhar para ele.
Oliver foi para seu lugar e assim que se sentou vi que ele ficou me encarando por um bom tempo como se quisesse me dizer algo, mas ele não disse nada e começou a prestar atenção em outra coisa.
As aulas se iniciaram e meu professor entrou na sala. Ele escreveu algo na lousa e começou a falar sobre as diferentes culturas no mundo. A matéria falava basicamente sobre a história da humanidade, seus acontecimentos e como respeitar o ambiente de trabalho e suas diversidades. Estava envolvido com a matéria e por alguns instantes pensei ter ouvido alguém chamando minha atenção.
- Psiu! – falou alguém próximo a mim.
Eu olhei para Lucy e depois olhei para o outro lado. Oliver olhava para mim. Eu olhei para ele, mas ele não disse nada. Em seguida ele olhou para o professor que continuava falando sem pausa para respirar e depois olhou para mim.
- Preciso conversar com você – falou cochichando – hoje na hora do intervalo vamos comer algo juntos, pode ser?
Eu olhei para Lucy disfarçadamente e em seguida olhei para ele novamente.
- Ok.
Ele apenas deu um sorriso e em seguida ele olhou para o professor e começou a prestar atenção no que ele dizia. Não queria ficar prestando atenção em Oliver, eu já tinha até esquecido os acontecimentos do dia anterior, mas agora que tinha visto-o sorrir, nem que fosse por alguns segundos, tudo o que tinha sentido voltou como um tsunami e assim como um tsunami invade uma cidade esses sentimentos me invadiram e me inundaram.
Quando o sinal do intervalo bateu guardei meus materiais na mochila e depois de tudo organizado me levantei. Enquanto me espreguiçava, Lucy falou comigo.
- Vamos comer algo juntos? – perguntou ela olhando para mim com um olhar humilde e a voz mansa. Antes que pudesse dizer algo, Oliver chegou para interromper nossa “conversa”.
- Vamos indo? – perguntou ela olhando para mim.
Eu olhei para ele e em seguida para Lucy.
- Não posso, já tenho compromisso – falei isso vendo em seu rosto que ela não tinha ficado nada satisfeita com essa resposta.
- Até mais – falou Oliver para Lucy, mas ela não respondeu e saiu na nossa frente e em seguida desapareceu da sala.
- Não liga pra minha namorada, nós brigamos.
- Ok – respondeu ele enquanto saímos da sala em direção a cantina.
Na lanchonete compramos apenas algo para beber. Decidi não comer nada, porque poderia atrapalhar no meu regime. Nos sentamos ao ar livre, servi a coca para nós dois e Oliver acendeu seu cigarro. O primeiro copo tomamos rápido, estávamos os dois com muita sede. Em seguida nos servi mais uma vez.
- O que você queria? – perguntei tomando um gole de coca.
- Queria me desculpar pelo que fiz ontem – falou ele assoprando a fumaça para o lado.
- Tudo bem, fica tranquilo.
- Sério? – perguntou ele com um sorriso tomando um gole do refrigerante.
- Claro.
- Obrigado, fiquei tão nervoso por ter feito aquilo com você. Foi uma total falta de respeito da minha parte. Assim que o fiz eu me arrependi – ele colocou o cigarro na boca, deu outra tragada e assoprou a fumaça.
- Sei como você se sente, as vezes também me sinto confuso por esses sentimentos e acabo fazendo besteira, mas tudo bem.
- Espera… sobre o que você está falando?
- Sobre ontem a noite – falei cochichando – o beijo.
- Estou me desculpando pelo fato de ter te deixado em casa sem me despedir e ainda ter brigado com você – falou ele rindo com um tom sarcástico – você é mais babaca do que pensei.
- O que?
- Cara, você age como se não quisesse ter me beijado. Ontem você me disse que é gay e hoje você fica posando de machão e chamando o beijo de besteira?
- Te disse ontem que não posso mergulhar nesse mundo de fantasia. Tenho namorada, meu pai não me aceita e vou me casar com ela. Além do mais não posso me render a esse sentimento.
- E vai fazer o que?
- Controlar. Esses desejos aparecem de vez em quando e tudo o que preciso fazer é manter a cabeça fria e relaxar. Eu posso evitar – tomei um gole antes de acabar com o que estava no copo.
- Não foi isso que você fez ontem quando te beijei – falou ele apagando o cigarro no copo que tinha apenas um restinho.
- Silêncio – falei olhando em volta – olha Oliver, o que disse ontem sobre ser gay… esquece. Eu consigo controlar.
- Quer dizer então que toda vez que um cara te cantar você vai conseguir resistir para não trair sua esposa?
- Mas é claro. Tenho força de vontade.
Oliver bateu com os dedos na mesa e deu um sorriso, mas não era de felicidade, era como se ele estivesse tentando entender e achasse o que tinha dito uma bobagem.
- Vem comigo – falou ele se levantando – quero te mostrar uma coisa.
Me levantei olhando em volta para ter certeza de que ninguém prestava atenção em nós. Aqueles boatos tinham que acabar e andar com Oliver não iria ajudar na minha reputação.
Oliver andou em direção ao corredor do colégio e eu o segui. Ele dava passos largos e assim que passamos de um bloco para outro chegamos em uma parte praticamente deserta. Ele deu a volta por um dos blocos e seguiu para trás de um deles, onde não tinha ninguém.
- O que estamos fazendo aqui? – falei olhando em volta sentindo a brisa gelada.
Oliver parou no meio do caminho, se virou e me deu um beijo na boca. Apenas um selinho e em seguida olhou para mim.
- O que está fazendo?
- Estou te ajudando – falou Oliver me empurrando na parede e me dando outro beijo, mas dessa vez de língua.
Minhas mãos estavam tremendo e o medo de ser pego deixava a situação mais excitante.
- Me ajudando em que?
- A fingir não ser gay – falou ele dando um selinho – vamos, me empurra.
- Pra que? – perguntei levando outro beijo na boca.
- Você disse que não é gay e que consegue controlar. – ele disse isso me dando vários beijos tentando me incitar – vamos! Me empurra – falou ele beijando minha boca – me empurra, você não é gay.
- Para com isso – falei empurrando ele.
- Vai ter que fazer melhor do que isso – ele veio até mim outra vez e me deu outro beijo – Me empurra, me chama de bicha e sai andando como se nós dois fôssemos diferentes – falou ele segurando meu rosto com sua mão direita. Eu conseguia ver uma veia na testa dele, ele estava alterado – Me empurra – falou ele me dando um selinho – está esperando o que?
- Talvez eu não queira te empurrar – falei colocando minha mão esquerda em cima da dele de leve e em seguida eu voltei a mão para baixo.
- Porque? – perguntou ele ofegante.
Não respondi de imediato e apenas continuei olhando para ele.
- Estou tão confuso com esses sentimentos – falei olhando para baixo. Me sentia envergonhado – eu não sei como lidar com esses sentimentos que estão em mim.
- Me desculpa – falou ele se afastando um passo de mim. Agora ele parecia preocupado e arrependido – eu não devia ter feito isso, não devia ter te forçado. Eu… eu sinto muito.
- Não sinta – falei dando um passo em direção a ele e colocando minha mão esquerda no rosto dele – eu estava precisando disso.
- Como assim?
Eu coloquei minha mão no pau dele e apertei sentindo ele duro em minha mão. Minhas pernas tremendo ao saber que ele estava excitado e pela primeira vez na vida estava encostando no pau de outro homem e tudo o que queria fazer era sentir ele sem as roupas.
- Ei, ei, ei o que você está fazendo, tira a mão dai – ele pegou minha mão e tirou de lá.
- Me desculpa é que eu sinto como se não pudesse mais esperar.
- Eu sei, mas não quero fazer isso. Não com você.
- Porque? Você não me deseja? – falei lembrando do meu corpo.
- Claro que sim, mas você é uma pessoa especial Brian e mesmo que você não note ou se recuse a acreditar eu te respeito o suficiente para saber que se fizermos isso aqui e agora você vai se arrepender.
- Como sou idiota – falei colocando a mão no rosto pensando no que tinha feito, me desculpa é que estou precisando de alguém que abra meus olhos. Vivo dentro do armário e fico pagando de machão quando sei o que realmente sinto e o que realmente sou. Apenas fico tentando me convencer do contrário.
Oliver colocou a mão dele em cima da minha e a acariciou. Em seguida me deu um abraço e nós nos beijamos outra vez, mas dessa vez o beijo era mais parecido com o da noite anterior: cheio de desejo.
Como era bom beijar Oliver. Me sentia bem beijando outro homem e meu corpo parecia estar usando a droga mais forte do mundo. Os beijos e os carinhos que ele me fazia naquele momento eram capazes de fazer me esquecer dos problemas.
- Me desculpa por ontem – falou ele ofegante.
Eu fechei os olhos e senti a respiração dele no meu rosto.
- Só se você me perdoar por ter sido tão babaca.
- Estamos perdoados – falou ele dando um selinho na minha boca.
Nos próximos minutos tudo o que fizemos foi olhar um para o outro enquanto estávamos abraçados na escuridão da noite.
- Eu não sei… - falei parando.
- O que?
- Não quero mais fingir ser o que não sou.
- Tem certeza? E seu pai?
- Ele não precisa ficar sabendo, eu posso continuar fingindo, pelo menos para ele. Só não quero mais namorar com Lucy ou fingir que sou hétero para o mundo.
- Tudo bem então – ele disse isso alisando meus cabelos – fique sabendo que estou orgulhoso por tomar essa decisão. Sei que é difícil tomar essa decisão, já passei por isso e só quero dizer que pode contar comigo nessa sua fase da vida. Se precisa de alguém para conversar, contar seus medos ou tirar suas dúvidas, eu estou aqui.
- Combinado – falei rindo. Gostaria de perguntar uma coisa, mas estava com vergonha.
- O que foi? Você quer me perguntar algo?
- Só estava pensando… sei lá… será que podíamos…
- Você quer saber se poderíamos ter um relacionamento, certo?
- Exato.
- Olha Brian, estaria mentindo se dissesse que não quero.
- Mas…
- Levo o namoro muito a sério e apesar de obviamente termos uma química muito forte, nós acabamos de nos conhecer.
- Entendo.
- Não me leve a mal – falou se afastando parecendo pensativo – Você é uma pessoa ótima, mas precisamos nos conhecer melhor antes de dar esse passo.
- Tudo bem, eu entendo – falei me sentindo um tolo por pensar que essa possibilidade poderia ser verdadeira.
- Não significa que não possamos nos beijar – falou ele rindo pra mim.
- Sério?
- Muito – falou ele se aproximando e me dando um beijo.
- Que bom – falei entre um beijo e outro.
Depois de alguns beijos eu decidi pedir a opinião dele.
- Então Oliver, qual o primeiro passo que devo dar para minha aceitação.
- Você já deu o primeiro passo que é se assumir, na minha opinião você deve terminar com sua namorada.
- Quer que eu termine com a Lucy? – falei um pouco preocupado.
- Sei que é um grande passo, mas o namoro com mulher é uma traição. Mesmo que seja só de fachada. Eu por exemplo, gosto de pensar que esse namoro possa se transformar em algo maior. Seu parceiro só posso ter certeza que você vai cair de cabeça no relacionamento se estiver disposto a terminar esse relacionamento de fachada. Não gostaria de ser seu amante ao qual você corre só quando sente uma coceira dentro das calças.
Eu não disse nada e apenas engoli seco.
- Desculpa – falou ele rindo – desculpa a sinceridade, as vezes não consigo evitar.
- Ok – falei de uma vez – eu termino com Lucy.
- Tem certeza? Não quero que faça algo que não tenha certeza. Você disse que seu pai não te aceita e eu não quero te causar problemas.
- Ele não precisa ficar sabendo sobre minha vida pessoal. Além do mais namorados terminam todo o tempo.
- Ok.
Nesse momento o sinal para a volta as aulas tocou. Nós então tentamos desamassar nossas roupas passando a mão e tentamos nos recompor. Depois de nossa conversa Oliver e eu fomos para a sala de aula. A aula que se seguiu foi a do professor Logan.
Durante o restante da aula eu balançava minhas pernas de ansiedade. Não sabia se estava nervoso para terminar ou por terminar. Meu pai com certeza precisaria de uma explicação e eu tinha que inventar algo o mais rápido possível.
O professor tinha passado vários cálculos e assim que que o sinal tocou a maioria começou a se levantar e ir embora e Lucy foi uma das primeiras a sair.
Terminei de copiar rapidamente e em seguida joguei tudo dentro da mochila e me levantei.
- Até amanhã – falou Oliver ainda sentado.
- Até amanhã – falei acenando com a mão.
- Ok – falou ele acenando de volta com um meio sorriso.
Precisava ir atrás de Lucy antes que ela fosse embora, eu não conseguiria esperar até o dia seguinte. Estava tão perto de conseguir o que queria, mas no entanto estava tão longe.
Em meio a multidão vi Lucy parada conversando com alguém. Continuei passando pelas pessoas, atropelando algumas delas inclusive. Em seguida vi o pai de Lucy. Andei mais um pouco e vi ele esticando a mão e apertando a mão de um homem e foi preciso mais dois passos para ver que era meu pai. Toda a minha animação desapareceu. Senti a escuridão me preencher.
- Pai? – falei chegando mais perto e os três olharam para mim.
- Oi filho – falou ele com um sorriso.
- O que o senhor está fazendo aqui?
- Eu vim te buscar, você trabalhou o dia todo e não merece voltar para a casa de ônibus e metrô.
Eu cheguei ao lado dele e olhei para Lucy. Meu pai colocou a mão direita no meu ombro.
- Acabei de conhecer o pai da sua namorada – falou ele.
Me forcei a dar um sorriso, mas não durou por muito tempo. Mais uma vez desejei estar em coma. Se tivesse sorte eu só iria acordar quando todos os meus problemas tivessem desaparecido.