Torniquete (Capítulo 0)

Conto de Misteryon McCormick como (Seguir)

Parte da série Torniquete

PRÓLOGO

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Eu estava parado em frente a janela do meu quarto que fica no segundo andar da casa. Eu sentia a brisa gelada em mim. Eu tinha dormido muito mal a noite. Pra dizer a verdade eu não tinha conseguido dormir mais do que uma hora seguida. Eu estava muito ansioso para o dia que viria.

Fazia pouco tempo que eu tinha terminado o colegial e estava á algumas horas de ingressar no meu primeiro emprego e na faculdade. Eu tive um pouco mais de sorte do que muitos dos meus colegas de classe. Meu pai tinha poupado algum dinheiro para os meus estudos algo que ele não fez por meus dois primeiros irmãos, acho que depois que minha mãe nos deixou ele se sentiu na obrigação de fazer isso por mim talvez para demonstrar que ele me ama e que eu posso sempre contar com ele.

Eu tenho um irmão mais velho chamado George e ele seguiu carreira na medicina e para conseguir eles tiveram que ganhar bolsa de estudos o que não foi difícil porque ele sempre foi inteligente. Eu pelo contrário nunca fui chegado a sangue ou a adrenalina então decidi seguir carreira executiva. Meu sonho era ter meu próprio negócio e para isso eu tinha me matriculado no curso de Administração. Eu consegui um emprego como assistente pessoal em uma advocacia e dessa forma eu aprimoraria meus conhecimentos para que futuramente eu realize esse sonho.

Eu olhei para o relógio digital na cômoda do meu quarto. As luzes em vermelho marcavam 03:27. Eu tinha que tentar dormir mais um pouco ou então eu me sairia muito mau logo no meu primeiro dia. Eu fechei a janela do quarto e fui para a minha cama. Eu me deitei, puxei o cobertor e fechei meus olhos.

Logo de manhã eu me levantei, me arrumei e em seguida desci as escadas vagarosamente pronto para o meu primeiro dia de trabalho. Estava feliz por finalmente poder andar com minhas próprias pernas, eu tinha ansiado por esse dia Eu não conseguia descrever a felicidade do meu pai ao me ver descer as escadas vestido com o terno.

- está bonitão – falou ele com um sorriso e assim que eu cheguei aos pés da escada ele colocou a mão no meu ombro emocionado.

- o senhor acha que a mamãe ficaria orgulhosa de mim pai? – perguntei respirando fundo para que não chorasse, lembrar dela sempre me provocava calafrios e me trazia lembranças.

- esquece aquela vadia – falou ele olhando para mim de cima em baixo. Ela nos deixou o azar é dela.

- ok, me desculpa – falei passando a mão no meu terno tentando tirar uma pluma.

Meu pai me surpreendeu e me deu um abraço. Isso pra mim foi melhor do que ter conseguido o emprego. Eu não me lembrava a última vez que meu pai tinha me dado um abraço e eu aproveitei aquele momento.

Eu sempre fui o menino dos olhos do meu pai desde que meu irmão se casou e seguiu com sua vida. Mesmo sendo policial e trabalhando quase todos os dias ele sempre foi muito presente na minha vida, eu lembro dele em vários momentos, mas teve dois que ficaram em minha memória: quando meu pai me ensinou a andar de bicicleta e quando ele me colocava para dormir e sempre lia uma história pra mim mesmo estando muito cansado do trabalho. Esse foram os momentos mais felizes de nossa vida e agora parece que um terceiro momento ficaria em minha mente.

- Brian meu filho eu não consigo expressar o quanto estou orgulhoso de você. Que pai não ficaria de ver seu filho de dezoito anos ir para seu primeiro emprego? É como se hoje você estivesse dando seus primeiros passos ou estivesse dizendo suas primeiras palavras – falou ele olhando para mim com um sorriso no rosto.

-obrigado pai – falei respirando fundo. Eu estava ansioso, nervoso e animado para o meu primeiro dia de trabalho.

Eu sempre fiquei imaginando se todas as pessoas teriam um segredo. As vezes quando eu saia gostava de ficar observando as pessoas e tentando imaginar o tipo de coisas que elas escondiam dos maridos, das esposas, dos pais, dos filhos, enfim… várias coisas passavam por minha mente.

Acho que o meu segredo é o mais comum e entretanto o mais temido de ser revelado: eu sou gay. Essas três palavras mudam sua vida, mas nem sempre da maneira que se espera. As pessoas reagem de maneira diferentes quanto a elas e eu aprendi da maneira mais difícil que alguns segredos deveriam ser enterrados para sempre.

Na verdade eu só fui descobrir o significado real da palavra “gay” quando eu fiz dezesseis anos. Eu nunca estive em contato com esse mundo e não sabia o quão cruel o mundo era até que me descobrir. Certa vez vi a noticia de um rapaz que tinha sido torturado e assassinado por ser gay. Foi a partir daquele momento que fui criando o medo de me revelar. A verdade é que por mais que digamos que gostamos de ser diferentes, ninguém gosta de ser tratado dessa maneira. Não importa sua cor, raça, religião ou a classe social que você está, o ser humano busca sempre o mesmo: aceitação.

Eu nunca tive vontade de contar para meu pai antes sobre mim, como eu disse, eu comecei a temer a reação das pessoas ao meu redor, especialmente meu pai. Eu sempre imaginei que ele me colocaria para fora de casa ou algo assim, mas o que eu senti naquele momento foi segurança e pela primeira vez eu senti um fogo dentro de mim que só se apagaria quando eu dissesse as palavras.

- pai, eu sou gay – falei de uma vez pausadamente. Eu senti um frio na barriga, mas estar sentindo a mão no meu pai no meu ombro me fez ficar calmo

- o que você disse? – perguntou ele com um sorriso no rosto como se não tivesse entendido o que eu tinha dito.

- eu disse que eu sou gay pai – falei tremendo a voz – é tão bom finalmente dizer isso em voz alta – eu me senti aliviado. Meu corpo todo tremia e parecia que eu tinha tirado um peso enorme das costas. Minha família nunca tinha tocado no assunto antes, especialmente o meu pai e por ele ser policial, eu nunca imaginei como seria a reação dele ao finalmente contar. Eu já tinha até um plano: terminaria minha faculdade , arrumaria um emprego, sairia de casa e então eu contaria. Que se dane o mundo ser cruel, eu tinha a certeza de que meu pai estaria ao meu lado sempre.

- e então pai? – falei com um sorriso no rosto – o que o senhor me diz? – eu terminei de dizer aquela palavras esperando uma resposta dele, mas eu não obtive. Sabe aquele momento em que você está olhando nos olhos de uma pessoa e vê o brilho deles desaparecendo como se a alma tivesse simplesmente sido sugada? Foi isso o que aconteceu. Eu vi o sorriso do meu pai desaparecer bem devagar e ele tirou a mão do meu ombro se recompondo.

- pai? – falei sentindo o fogo dentro de mim ser apagado por um balde de água fria. Ele não disse nada e passou por mim nas escadas e subiu sem me dar nenhuma resposta. Ele subiu ela em silêncio - papai? – falei olhando para ele com as lágrimas escorrendo por meu rosto. Ele não respondeu nada e tudo o que ouvi foi a porta do quarto dele fazendo um estrondo.

Pela primeira vez em muito tempo senti falta de minha mãe eu queria que ela estivesse lá comigo e que me abraçasse dizendo: “está tudo bem eu filho ele não entende agora, mas ele é seu pai. Ele vai entender algum dia”. É uma pena que isso nunca fosse acontecer. Eu então apenas me sentei no último degrau e fiquei chorando. Ele com certeza me colocaria para fora de casa. O que seria de mim agora? E minha faculdade? Eu não conseguiria pagar o melhor curso da cidade sozinho.

Não passou muito tempo e meu pai chegou no alto da escada e começou a descer – homens não choram – falou ele passando por mim e pegando a chave do carro – vamos eu vou te levar para o trabalho, ou você quer chegar atrasado no primeiro dia?

- tudo bem – falei me levantando e limpando o meu rosto e meus olhos.

Nós seguimos a maior parte da viagem em total silêncio. No primeiro sinal de trânsitos que paramos ele acendeu um cigarro e olhou para mim quando fez isso e depois olhou para o lado – antigamente nós também não tínhamos muito o que fazer sabe? Era monótono, mas nós nos virávamos para passar o tempo: íamos para o rio tomar um banho, saiamos a noite para caçar e quando estava chovendo eu e meus amigos ficávamos em casa ouvindo as história do meu pai – falou ele com um sorriso e coçando o nariz com o cigarro nos dedos – meu velho tinha varias histórias de seu tempo na guerra. Ele foi um ótimo soldado.

- eu sei – falei baixo. Eu respeitava muito meu pai e nunca levantaria a voz para ele.

- eu não entendo você jovens de hoje em dia – falou ele partindo quando o sinal ficou verde – vocês tem internet, o mundo está a um clique. Você tem televisão de todos os tamanhos, tem cinema… muita diversão – falou ele dando uma tragada no cigarro e assoprando para fora do carro – porque diabos vocês tem inventar uma coisa dessas? Vocês tem mulheres até o teto, pode ter até mais de uma se quiser, porque escolher ficar uns com os outros? – falou ele bravo olhando para mim.

- não é bem uma escolha – falei olhando para baixo.

- não me venha com essa ok? – falou ele jogando o cigarro para fora do carro – o que eu vou dizer no trabalho? O que os vizinhos vão falar sobre nós? – falou ele batendo a mão no volante e rindo – quer saber? Eu devia te botar para fora de casa. Tirar sua mesada, toda sua mordomia e te jogar na sarjeta para dormir como os animais que vocês são, mas quer saber porque não vou fazer isso? – falou ele pausando – porque é só uma fase. Eu sei que isso vai passar – falou ele virando para a esquerda na rua seguinte.

- sim senhor.

- eu sei que agora você acha que está tudo bem em ser um baitola, mas você vai cair na real, encontrar uma garota e vai se apaixonar. Setembro está chegando e logo você vai começar sua faculdade, a qual estou pagando a propósito, e talvez você conheça uma garota que te agrade. Não me interessa como você vai conseguir, mas eu quero você namorando no primeiro mês ou eu vou botar você para fora de casa.

- sim senhor.

- para de dizer sim senhor – falou ele nervoso e ofegante. Dessa vez eu fiquei em silêncio. Ele seguiu mais um tempo sem dizer nada. Eu tinha medo de dizer alguma coisa – você por acaso já transou…

- não, eu…

- ótimo, que continue desse jeito vai ser melhor e você vai me agradecer quando essa fase passar e você tiver que olhar para trás e imaginar um cara enfiando… eca! eu sinto vontade de vomitar só de pensar nisso – falou ele parando o carro em frente a empresa. Finalmente tínhamos chegado.

- até a noite pai – falei colocando a mão para abrir, mas ele travou as portas do carro. Eu olhei para ele.

- você vai me prometer uma coisa – falou ele olhando sério para mim – você não vai se relacionar com nenhum homem enquanto estiver com esses desejos, você vai aguentar e vai esperar até que volte ao normal. Se eu souber que você pelo menos olhou para outro homem eu te boto pra fora de casa só com a roupa do corpo.

A primeira vez que eu senti desejo por outro homem eu estava com quinze anos, desde esse dia eu venho pensando muito no assunto, lendo artigos em revistas, na internet tentando me conectar com esse mundo. Apesar de nunca ter conhecido um homossexual ou tido contato com esse mundo eu sempre procurei entender o assunto. Desde que minha mãe fugiu com o melhor amigo do meu pai meu pai vem me educando sozinho e eu acabei ficando acorrentado as suas crenças. É difícil ser filho de um policial porque meu pai colocava os colegas para ficarem de olho em mim. Toda vez que saia na rua eu estava sobre os olhares do departamento de policia de Los Angeles.

Acho que os pais tem muito medo que os filhos “se tornem” gay nessa idade e com meu pai não foi diferente especialmente porque nunca tinha levado uma garota para casa na adolescência. Meu pai era um típico machão americano. Foi com ele que dei meu primeiro tiro, bebi minha primeira cerveja, fumei meu primeiro cigarro e foi ele quem me deu a primeira revista pornográfica.

Viver sobre toda essa repressão não em fez bem. Eu decidi reprimir meus desejos para deixar meu pai orgulhoso, mas a verdade que eu não tinha certeza se ele realmente odiaria a ideia de ter um filho gay. Agora que eu contei eu tinha confirmado isso.

- sim senhor – falei ouvindo uma sinfonia triste em minha cabeça. Um coral mórbido cantava em minha mente.

- sim o que?

- eu não vou me relacionar com homens.

- e não adianta tentar me enganar porque vou colocar todos os policiais da cidade de olho em você se for preciso.

- sim senhor.

Ele destravou o carro e mais uma vez levei a mão para abrir a porta, mas ele me parou.

- espera – falou ele – “eu sou uma bicha”.

- o que? – perguntei confuso

- diga: “eu sou uma bicha”

- por favor pai…

- diga!

- eu sou uma bicha.

- “eu sou uma aberração”.

- eu… eu sou uma aberração.

- você é a desgraça dessa família Brian, eu nem sei como posso te dizer ou demonstrar o quanto eu te repudio por causa disso – ele estava agitado e visivelmente alterado – se eu estivesse entre a vida e a morte e precisasse do seu sangue para viver eu escolheria morrer. Pessoas como você deveriam ser proibidas de doar sangue, deviam ser proibidas de andar com as pessoas normais.

Eu não me atrevia dizer nada. Cada uma daquelas palavras era uma facada no meu coração. A ferida estava exposta, mas ele continuava a jogar sal.

- você foi criado em um lar de bem, com pessoas de bem. Você teve dois homens na sua vida pra se espelhar, eu e seu irmão. Você não pode me culpar por ser uma bicha porque seu irmão cresceu direito.

Nós ficamos em silêncio por alguns segundos. Meu pai ficava me encarando como se estivesse se segurando para não me dar uma surra ali mesmo. Minha moral tinha ido no chão e tudo o que consegui fazer foi suspirar.

- muito bem, se escolher viver esse lado da vida é bom ir se acostumando – falou ele olhando para fora do carro – se escolher viver essa vida você tem que aguentar as piadas e as pessoas apontando os dedos para você. As pessoas vão querer te espancar porque a sociedade odeia os gays e você é obrigado a aceitar de boca calada afinal você escolheu sofrer.

- sim senhor.

- cai fora e vai fazer alguma coisa de útil da vida para esquecer essa bobagem. Eu sai do carro e fechei a porta olhando para meu pai que apenas saiu sem ao menos se despedir. Eu olhei para e vi o enorme logo que mostrava o nome da empresa em alaranjado.

Meu pai tinha me destruído e tudo o que sentia era ódio de mim mesmo. Porque eu tinha que abrir a minha boca? Como eu disse, aquelas três palavrinhas mudavam a vida de uma pessoa e para meu azar aquelas palavras amaldiçoaram meu relacionamento com meu pai.

Eu caminhei em direção a escadaria do prédio e respirei fundo tentando esquecer tudo o que tinha acontecido. Eu coloquei um sorriso no rosto porque eu tinha feito dezoito anos a pouco e minha vida estava apenas começando. Se eu não sorrir agora, no futuro pode ser tarde demais.

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