S01E04
Parte da série Torniquete
CAPÍTULO QUATRO
Jogo de Xadrez
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Mas que droga! – pensei comigo mesmo. Logo hoje meu pai resolve vir a escola me buscar. Ele nunca fez isso antes, alguma coisa tem. Respirei fundo e tentei não pensar no que viria a seguir porque talvez estivesse enganado.
- É bom finalmente te conhecer – falou Ariel, pai de Lucy – ontem mesmo estava comentando com Brian que gostaria de conhecer o pai dele, afinal nossas crianças namoram a tanto tempo.
- Sério? – perguntou meu pai olhando para mim – Brian não comentou nada comigo.
- Deve ter esquecido – falou Ariel sorrindo – Fiquei sabendo que ele é um garoto muito ocupado. Trabalha o dia inteiro.
- é verdade – falou meu pai – ele é meu orgulho – Tentei forçar um sorriso quando meu pai disse aquilo. Como odiava toda aquela falsidade.
Gostaria de marcar um almoço para nos conhecermos melhor. Afinal existem grandes chances de que nossos filhos se casem. Lucy olhou para mim quando ele disse isso. Vi em seu olhar o sarcasmo. Não posso confirmar, mas tive a impressão de que ela estava adorando toda aquela situação. Talvez estivesse enganado, talvez ela fosse só mais uma vítima. Talvez ela também se sinta tão pressionada quanto eu.
- vamos marcar sim – falou meu pai – vamos manter contato através de nossos filhos.
- com certeza – falou Ariel apertando a mão dele – foi um prazer te conhecer Murphy.
- igualmente.
- até amanhã Brian – falou Lucy se aproximando.
- até – falei dando um beijo na boca dela. Apenas um selinho.
Eles foram andando e direção ao estacionamento. Dei um passo para fazer o mesmo, mas meu pai me impediu.
- espera – falou olhando para mim.
- o que foi? Algum problema pai?
- sim – falou olhando em volta – me mostra ele.
- quem?
- Oliver, esse cara que te levou pra casa ontem.
Fiquei em choque quando ele disse aquilo. Realmente não esperava. Carter era uma traidor desgraçado. Poxa… também fui muito idiota. Era óbvio que aquele bastardo, vigarista, fofoqueira contaria para meu pai.
- não tente mentir, não tente me enrolar ou vai ser pior para você – falou ele olhando para mim colocando a mão na cintura e levantando um pouco a blusa. Ele estava com uma arma na cintura.
- ok pai – falei respirando fundo e olhando em direção a saída da sala de aula. Havia agora poucas pessoas para atrapalhar a visão.
Não podia mostrar o verdadeiro Oliver. Estava pedindo a deus que ele não saísse da sala. Para minha sorte Keran, um dos meus companheiros de classe desde o primeiro ano, saiu da sala nesse momento.
- é aquele – falei mostrando Keran que vinha em nossa direção – aquele é Oliver.
Meu pai encarou ele de cima em baixo e em seguida olhou pra mim.
- ele é o seu macho?
- o que? Não – falei rapidamente – pai ele apenas me deu carona para casa, nem nos conhecemos ou conversamos.
- tem certeza?
- tenho – falei afobado.
Keran parou no meio do caminho e esperou sua namorada que estudava na classe do lado da nossa. Eles deram um beijo e seguiram para o outro lado. Pensei que ele viria em nossa direção e passaria direto sem nem olhar na minha cara, mas confesso que o que aconteceu foi melhor.
- viu só pai? O que Oliver me fez foi uma boa ação. Não tem nada de mais, nem amigos nós somos.
- ok – falou ele colocando um cigarro na boca – vamos embora – falou ele dando alguns passos pelo corredor.
Senti meu corpo tremer de medo, se ele me pega mentindo ele me mata. Comecei a segui-lo de longe e ouvi Oliver saindo da sala.
- Brian! – falou Oliver atrás de mim.
Levei um susto e percebendo que meu pai estava distraído e distante me virei e andei na direção dele. Ao chegar perto segurei em seu braço e o puxei para dentro da sala de aula.
- o que está acontecendo? – perguntou intrigado.
- meu pai veio me buscar.
- e dai?
- e dai que ele perguntou pra mim quem é Oliver.
- como ele sabe meu nome? Como ele sabe da minha existência?
- lembra quando te disse que meu pai coloca os amigos policiais na minha cola? Pois bem, ontem quando você foi embora um dos amigos do meu pai apareceu e ficou me interrogando, devia ter mentido seu nome, mas estava tão nervoso que acabei contando a verdade, mas disse que não éramos próximos e você só me fez um favor. Não achei que ele fosse comentar com o meu pai, mas o desgraçado comentou.
- e dai? Me apresenta e eu confirmo tudo.
- não confio no meu pai Oliver.
- não se preocupe comigo é só me apresentar como um amigo.
- o problema é que ele queria te ver e acabei mostrando outro garoto da nossa turma para ele.
- você fez o que?
- eu sei, eu sei, eu fui burro por ter feito isso, mas estava nervoso.
Não podia dizer que meu pai tinha trazido uma arma ou Oliver poderia surtar. Ele era meu primeiro amigo de verdade e não podia perde-lo.
- parece que não tem jeito. Ele não pode me ver.
- foi por isso que vim correndo te avisar. Quando te vi me seguindo e me chamando me desesperei.
- fica tranquilo – falou tentando me acalmar – fico aqui até vocês irem embora.
- obrigado Oliver.
Nesse instante nós dois ouvimos meu pai chamando meu nome, a voz parecia estar próxima a sala de aula.
- preciso ir – falei cochichando e tirando um dos meus cadernos de dentro da mochila
- até amanhã – falou Oliver junto a parede.
Me virei para sair da sala e esbarrei em meu pai. Ele estava de fora da sala e eu estava de dentro separados apenas a dois palmos de distância.
- o que está fazendo aqui? – perguntou meu pai visivelmente irritado.
- esqueci um dos meus cadernos em cima da mesa – falei ofegante. Oliver estava ao meu lado escondido pela parede. Se meu pai desse um passo em minha direção veria Oliver escondido.
- puta merda, só não esquece a cabeça porque está grudada – falou se virando e seguindo pelo corredor. Respirei aliviado e tossi com a fumaça do cigarro.
- até amanhã – falou Oliver cochichando.
Segui meu pai aliviado. Quase minha mentira se desmorona, quase fui pego na mentira. Perguntas seriam feitas e eu estaria fodido. Literalmente.
Ao chegar no carro entrei o mais rápido o possível, coloquei meu sinto e meu pai não demorou dar partida no carro e sair do estacionamento desviando de alguns alunos que andavam pelo campus ou de indo em direção de seus dormitórios.
A maior parte da viagem até em casa nós ficamos em silêncio. As luzes dos estabelecimentos iluminavam toda a cidade. Tentava não pensar no que tinha acontecido porque me deixava deprimido. Viver daquele jeito, ter que esconder as pessoas que fazem parte da minha vida era humilhante e me deixava destruído por dentro. Se meu pai descobrisse que tinha um amigo gay… nem quero pensar nisso.
No caminho meu pai iniciou uma conversa aparentemente amigável.
- Lucy é uma garota bonita.
- é sim, respondi indiferente.
- só não entendi porque ela é preta.
Olhei para meu pai nesse instante e em seguida olhei para outro lado com nojo.
- não me olha assim – falou rindo – o pai dela é branco e ela é pretinha, por acaso a mãe dela botou uma galhada nele?
- a mãe dela faleceu em decorrência de um câncer de mama.
- menos mal – falou ele rindo - antes uma esposa morta do que um marido corno né?
- Ariel não é corno, Lucy é adotada pai – falei me sentindo mal com todo o desrespeito que ele despejou em cima da família de Lucy.
- está explicado.
Nesse momento não me atrevi dizer mais nada e foi quando ele me pegou de surpresa.
- acho que vou começar a te buscar todos os dias.
- não precisa pai.
- quando não te buscar, Carter vai te pegar e se por acaso nenhum de nós dois puder quero que pegue um taxi para casa. Não quero que você volte de “caroninha” outra vez.
- pelo amor de deus – falei me sentindo puto.
- vou fingir que não ouvi isso – ele deu uma pausa – estamos entendidos?
- sim senhor.
Assim que meu pai apertou o botão do controle remoto o portão se abriu e o carro entrou.
- não precisa se preocupar com os gastos. Sou eu que vou pagar, assim como eu pago tudo em sua vida. Uma divida a mais não vai me fazer diferença, você pegando carona com viados sim. Isso sim vai fazer diferença.
Assim que parou o carro nós dois saímos e o barulho do portão se fechando ecoou.
- ainda bem que Carter é um amigo de longa data. Já pensou se ele comenta algo com o pessoal do departamento? Não mereço tamanha humilhação.
- chega de falar disso – falei batendo a porta do carro e entrando em casa. Estava cansado de ouvir ele falando sobre aquilo. Quando começava não parava mais.
- como é que é?
- o que deu em você para levar uma arma pra minha universidade? Ficou louco?
- seu filho de uma puta – falou ele dando a volta no carro – olha pra mim quando falo com você – Fui empurrado contra a porta de vidro – não se atreva a me desrespeitar seu pivete mimado – Ele apertou meu pescoço.
- pai… – falei engasgando. Suas mãos apertavam forte em meu pescoço.
- nem se atreva a me desafiar. Já te disse e vou repetir: se me desrespeitar te coloco na rua sem um tostão. A vagabunda da sua mãe não te quis e eu cuidei de você sozinho com todo o amor que tinha pra te dar. Você então cospe na minha cara me dizendo que é bicha. Minha obrigação de pai era te surrar até você aprender, mas fui compreensivo com você. Tudo o que peço é que não me envergonhe e não me desrespeite sujando meu sobrenome. Você tem vinte e um anos de idade não tenho mais obrigações com você.
- Não preciso de você, tenho meu irmão.
- você acha que seu irmão pensa diferente de mim? porque você acha que ele não vem nos visitar?
- o senhor disse que não contou para ele.
- mas eu contei e ele disse pra mim que é filho único. Tem tanto nojo de você quando eu. Seu irmão tem tanta vergonha de você que não se atreve a por o pé nessa maldita casa. Sou a única família que você tem então abaixa a bola está ouvindo? você não tem ninguém além de mim. Será que você entendeu agora?
- sim senhor – falei todo suado segurando o braço do meu pai.
Meu pai soltou meu pescoço e automaticamente me afastei da porta tentando estabilizar minha respiração. Meu pai destrancou a porta e entrou me deixando lá sozinho no escuro. Então me encostei na parede e fui me sentando tentando respirar. Minhas mãos tremiam e meu coração batia acelerado. Tossi algumas vezes antes de finalmente me sentar no chão sentia meu pescoço queimando.
Depois que me recuperei, subi as escadas e fui para o quarto. Estava tão cansado e chateado que nem consegui tomar um banho. Desde que meu pai tinha se tornado esse homofóbico meu porto seguro era George. Quando tudo estava ruim imaginava que tinha um irmão que poderia me ajudar, mas vejo que estava enganado. Fui direto para a cama e assim que me deitei adormeci tentando esquecer os acontecimentos fatídicos do dia.
Na manhã seguinte me levantei quase uma hora mais cedo que do que sou acostumado. Tinha dormido mal devido aos acontecimentos da noite anterior. Fui para o trabalho, mas ao invés de passar na panificadora para tomar meu café da manhã apenas tomei um dos comprimidos para emagrecer.
Ao entrar na empresa dei de cara com Finn no meio do saguão.
- bom dia Finn.
- e ai Brian, tudo bem?
- tudo.
- o que é isso no seu pescoço?
- no meu pescoço? – falei passando a mão.
- sim, está com marcas roxas, por acaso teve uma noitada com a namorada?
- é isso mesmo – falei disfarçando – uma noite e tanto.
- quer dizer então que os comprimidos estão funcionando? Ela já não reclama do seu peso?
- mais ou menos.
- o que foi? Não está notando o resultado?
- pra dizer a verdade não.
- cara, você só tomou por dois dias, vai precisar tomar mais alguns dias para ver uma diferença grande.
- sou impaciente, mas vou tentar esperar – agora, mais do que nunca queria impressionar Oliver.
- tem uma outra coisa que te emagrece mais rápido, sabia?
- sério? O que é?
- “meta” – falou ele cochichando.
- meta de vida?
- não seja maricas, estou falando de metanfetamina.
- Não uso drogas Finn.
- Metanfetamina muda seu metabolismo totalmente, se você usar por alguns dias você vai emagrecer rapidamente, vai perder bastante peso. Depois é só parar e aproveitar o novo peso.
- tô fora Finn, prefiro tomar só os comprimidos.
- cara vem comigo – falou ele pegando meu braço, mas eu puxei.
- jás disse que não quero.
A recepcionista olhou para nós dois e logo desviou o olhar.
- calma ai você acha que te daria algo que fosse te fazer mal? Além do mais te dei os comprimidos e você me deve um favor.
- e o favor é usar drogas?
- vem aqui – falou ele saindo da empresa. Ao chegar do lado de fora ficamos do lado esquerdo da entrada.
-Tenho essas pedras – falou ele tirando um saquinho transparente da mochila com pedras brancas.
- Não uso drogas.
- você me deve uma, ou já se esqueceu?
- Te devolvo os comprimidos que você me deu – disse isso tirando a mochila das costas para devolver o frasco. Peguei o frasco e levei na direção dele.
- Não quero a porra dos comprimidos – falou ele batendo a mão e derrubando o frasco no chão – por mim você pode socar eles no rabo. O negócio é o seguinte: todas as semanas vou te dar um saquinho como esse – falou ele balançando – não me interessa se você vai usar, jogar na privada ou socar na buceta da sua namorada a única coisa que quero é o dinheiro.
- Não vou dar dinheiro pra você lucrar. Tenho sofrido a muitos anos para juntar o que tenho.
- você acha que eu estou de brincadeira?
- não posso me envolver com isso, meu pai é policial, se for pego com drogas na mochila ele me mata.
- não me interessa mauricinho, ou você me paga ou vou ter que dar seu nome para o meu fornecedor e é ele quem vai cobrar e pode ter certeza que ele não vai ser tão legal quanto estou sendo.
- você não pode me obrigar. Porque você faria isso comigo? Não posso pegar minhas economias e ficar te dando.
- existem vários meios de se pagar uma divida – falou ele olhando em volta e pegando no pau.
- mas nem sonhando, tá me estranhando? Me respeita.
- foi o que pensei – falou ele rindo e colocando a droga na minha mão. Te dou até o fim do expediente para me pagar. Vou fazer minhas entregas e hoje de tarde antes de ir embora passo no RH pra pegar meu pagamento.
- ok – falei tremendo de ódio. Estava encurralado e tudo o que pensava era em como tinha sido burro o suficiente para me meter com esse tipo de gente. É aquela situação em que você só percebe que se envolveu demais quando já é tarde demais.
Estava distraído e levei um susto quando um homem parou na minha frente e começou a conversar comigo. Ele ficou encarando o pacote transparente na minha mão o qual guardei rapidamente na mochila.
- não é o que está pensando – falei fechando a mochila apressado.
- tudo bem – falou o homem – não sou nenhum puritano.
Nem tinha reparado no rosto do homem até que ele disse isso. Foi nesse momento que realmente levei um susto.
- você – falei surpreso.
- te conheço de algum lugar? – perguntou o homem.
- você é o homem da panificadora.
- estou me lembrando de você – falou ele
- sério? Fazem só dois dias que você me parou no banheiro com…
- olha… sinto muito pelo o que falei aquele dia. Fiquei com pena de você depois daquilo tudo, realmente não devia ter dito aquilo.
- não sinta pena de mim eu é que sinto pena de você e sua superioridade.
- seja bonzinho e aceite minhas desculpas.
- é fácil para você falar depois de tentar enfiar seu “amiguinho” na minha boca.
- Muito prazer – falou ele estendendo a mão – meu nome é Bartolomeu Lawrence e serei seu novo chefe.
- meu novo chefe?
- você não sabia? Jeffrey está deixando a empresa e vou ser seu substituto. Nós vamos trabalhar juntinhos, mas não se acanhe desde já te dou liberdade de me chamar de Bart.
- você sabia? Aquele dia na panificadora que seria meu chefe?
- não.
- como sabe que você é meu novo chefe? Como sabe onde trabalho?
- está aqui no seu crachá – falou ele apontando para o crachá pendurado no meu pescoço onde se podia ler: Brian Duffield Knox (Recursos Humanos).
- tudo bem – falei nervoso – devo presumir que vou ser demitido, certo?
- porque? – perguntou ele enquanto entrávamos na empresa.
- você acabou de me pegar com drogas.
- realmente não gosto da ideia de saber que você trás drogas para a empresa, mas para demonstrar que estou realmente arrependido por aquele dia não vou dizer ou fazer nada a menos que me prometa não trazer mais.
- combinado – falei me sentindo aliviado.
Nós passamos pela recepção e eu o levei até a sala do RH. Levei a chave para destrancar a porta, mas ela já estava aberta. Em seguida nós dois entramos.
- o senhor vai conversar com o Jeffrey?
- por favor, não me chame de senhor. Não precisa ser assim tão formal.
- ok.
- sim, quero conversar com Jeffrey.
- pode pegar uma cadeira e se sentar.
Bart pegou uma das cadeiras, puxou e se sentou. Fui até a máquina de ponto e assim que ouvi os dois bipes fui em direção a minha mesa. Foi em direção a minha mesa que vi uma embalagem fechada em cima da mesa de Jeffrey. Como não tinha nome decidi abrir. Tinha bolinhos dentro. Peguei um e dei uma mordida.
- eca… detesto chocolate – falei jogando na lixeira – aceita um?
- não, obrigado – respondeu Bart negando gentilmente
Sentei-me e liguei meu computador.
- o trabalho por aqui é tranquilo?
- sim. No começo tive dificuldade, mas depois que peguei o jeito se tornou fácil.
- é sempre assim – falou Bart.
- Onde você trabalhava?
- Trabalhava na administração do White Memory Medical Center.
- meu irmão fez residência lá.
- Por quantos anos?
- durante seis anos.
- como é o nome dele?
- Dr. Knox.
- acho que me lembro dele sim. Olhos azuis, cabelo e barba loiros, certo?
- isso mesmo – respondi triste. Pensar no meu irmão machucava meu coração. Ultimamente não tinha muito contato com ele e sentia sua falta constantemente. Sempre pensei que ele havia se afastado de mim por culpa da vadia que ele tinha se casado, mas a verdade é que assim como meu pai, meu irmão estava se fodendo pra mim. Estava preocupado só com seu sobrenome manchado.
Antes que pudesse dizer outra coisa Jeffrey entrou na sala.
- bom dia.
- bom dia – respondi.
Bart se levantou e apertou a mão dele.
- tudo bem com você? – perguntou Jeffrey.
- tudo ótimo – falou Bart.
- então você já está sabendo? – perguntou Jeffrey para mim.
- sobre o que?
- não se faça de idiota, Bart com certeza comentou com você sobre minha saída da empresa.
- comentou sim senhor.
- Bart está aqui hoje para ser treinado e dentro de duas semanas vou sair e ele será seu novo chefe. Espero que possa respeitá-lo da mesma forma que você respeita.
- sim senhor.
Jeffrey colocou o dedão na máquina de ponto e em seguida olhou para sua mesa
- quem deixou esses bolinhos?
- estavam em cima da mesa do senhor. Não tem destinatário e não tem remetente, foi o senhor que trouxe?
- não – falou ele pegando um e comendo.
- espero que não se importe, porque peguei um.
- você está de brincadeira né? – falou ele dando uma mordida – pegando coisas em cima da minha mesa? Isso é roubo.
- desculpa.
- ok, dessa vez passa – falou Jeffrey colocando a mochila em cima da mesa.
- você vai me apresentar a empresa? – perguntou Bart.
- se puder me acompanhar – falou Jeffrey abrindo a porta. Os dois saíram da sala e eu voltei ao trabalho. Alguns minutos depois Cory apareceu no guichê.
- bom dia Brian.
- tudo bem Cory?
- estou sim.
- no que posso te ajudar?
- um dos meus uniformes rasgou, gostaria de saber se tem como trocar?
- olha, infelizmente não – falei me levantando e olhando o uniforme dobrado na mão de Cory.
- tem certeza?
- tenho.
- poxa cara, vou ter que pagar por outro? Não usei nem duas vezes.
- quer saber? – falei indo até uma das caixas e pegando um uniforme do tamanho grande – te dou outro, mas tem que me prometer não comentar com ninguém, especialmente com meu chefe.
- fique tranquilo, não vou comentar com ninguém.
- tá na mão – falei entregando.
- muito obrigado.
- você pode me responder uma pergunta?
- posso
- você é amigo do Finn?
- Sim. Nós fizemos a seleção juntos.
- você o conhece bem?
- em que sentido? Pode perguntar o que você quer saber?
- Só queria saber se ele é uma pessoa boa ou sei lá…
- vou te falar isso porque você foi legal comigo – falou ele mais baixo – Ele sei que ele tem ficha na policia, se é isso que você quer saber. No passado ele estava envolvido com drogas, mas te garanto que hoje em dia ele não é mais assim.
- ok – falei forçando um sorriso – obrigado mesmo e desculpa se fui intrometido.
- fica tranquilo – falou ele se afastando – valeu pelo uniforme Brian.
Eu apenas acenei com a mão e voltei a me sentar.
Cory se foi e fiquei sozinho dentro da sala perturbado pelo o que tinha acabado de ouvir. Estava me metendo com um traficante. Geralmente sou um cara sortudo, me considero uma pessoa normal sem muitas aventuras na vida, mas dessa vez tinha extrapolado. Tinha que sair dessa e não sabia o que fazer.
Na parte da tarde, pouco depois de comer o lanche da tarde, Jeffrey chamou minha atenção.
- Brian, pode me fazer um favor?
- sim senhor.
- vai até meu carro e pega uma pasta preta que está no banco de trás por gentileza? – falou ele jogando a chave e peguei no ar.
- estou indo.
- não demora.
- não vou – falei me levantando e saindo da sala.
Ao chegar no estacionamento, desativei o alarme do carro e abri a porta de trás. Entrei no carro para pegar a pasta que estava em cima do banco e a próxima coisa que me lembro é de sentir algo subindo na minha garganta e assim que coloquei a mão na boca o vômito saiu por ela e por meu nariz sujando minha roupa e o carro.
- meu deus – falei me sentindo tonto. Engoli parte do vômito e logo senti outro jato saindo da minha boca e indo direto para o banco e para o chão. Consegui sair cambaleando e vomitei um pouco no chão.
Fiquei por alguns minutos parado sentindo meu estômago enjoado. Respirava fundo tentando recuperar minhas forças. Não adiantou muita coisa. Em seguida mais um jato de vômito sujou todo o chão.
- Brian? – falou Jeffrey chegando no estacionamento.
- Me desculpa – falei vomitando outra vez no chão.
- você está bem? – perguntou ele vindo até mim.
- estou – falei fechando os olhos me sentindo tonto.
Jeffrey passou direto por mim e foi até o carro.
- meu carro! – falou se aproximando com as mãos na cabeça – o que você fez com meu carro? – falou Jeffrey colocando a mão na boca e vomitando no chão.
- fica calmo – falei colocando a mão no meu coração. Senti meus batimentos acelerados.
- ficar calmo? Você acabou com meu carro – ele disse dando a volta no carro e abrindo a porta do carona, em seguida ele se sentou e tentou pegar alguma coisa.
Eu peguei meu celular no bolso e liguei para a emergência.
- 911, qual sua emergência?
- preciso de uma ambulância.
- qual o seu nome?
- Brian.
- onde você está Brian? Se não souber rastrearemos sua ligação.
- estou no estacionamento da McFarlan Delivery Fast… Wilshire Bulevar com a 4ª Avenida.
- já está a caminho.
Eu não respondi a apenas vomitei outra vez. Em seguida olhei para trás e vi que Jeffrey estava caído de fora do carro. Jeffrey estava tão inchado que quase não o reconheci.
- Jeffrey – falei indo rapidamente na direção dele.
Ao me aproximar dele vi que estava sem se mover. Seu rosto estava roxo. Me ajoelhei ao lado dele e coloquei minha mão na frente de sua boca e nariz e não senti ele respirando. Me abaixei e coloquei minha boca na dele fazendo respiração boca a boca. Senti um gosto ruim na minha boca.
- um, dois, três – contei enquanto massageava o peito dele.
Mais uma vez coloquei minha boca na dele e antes que pudesse tirar ele vomitou no meu rosto. Ele tossiu e eu virei a cabeça dele de lado para que não se engasgasse outra vez. Segurei o máximo que pude e em seguida foi minha vez de virar o rosto para não vomitar na cara dele.
- que droga – falei caindo deitado ao lado dele. Continuava me sentindo mal.
Ouvi o barulho da ambulância se aproximando gradativamente e logo ela entrou rápida pelo estacionamento. Olhei para o lado e vi ela parando e a porta se abrindo.
Estava assustado, mas em nenhum momento perdi a consciência do que estava acontecendo. Jeffrey estava consciente e parecia mais assustado do que eu. Vi que Leonard, Percy e Rex vieram ao estacionamento para saber o que estava acontecendo. Em seguida alguns funcionários curiosos apareceram e Rex botou todos para correr.
Logo um dos socorristas veio até mim e se ajoelhou ao meu lado. Como já estava consciente me sentei com sua ajuda.
- ele ficou inconsciente, socorre ele primeiro – falei olhando para Jeff.
- não se preocupe com ele – falou o socorrista tentando me acalmar. Jeffrey já estava sendo socorrido.
Um dos socorristas de óculos escuros saiu de dentro da ambulância com uma prancheta na mão e se aproximou de mim e começou a fazer perguntas.
- Você toma algum remédio controlado?
- Não.
- Como é seu nome completo? Você consegue me dizer?
- Sim. É Brian Godfrey Knox.
- Brian Knox?
- Sim.
Ele não fez mais perguntas e se afastou pegando o celular e ligando para alguém.
- Essa não – falei para mim mesmo.
O socorrista desligou o celular e se aproximou de mim.
- Brian, meu nome é Sidney Ramsay, sou amigo do seu pai, você se lembra de mim?
- Sidney? – falei tentando lembrar. Pra dizer a verdade não ligava para os amigos do meu pai. Apesar disso tentei me lembrar e minha cabeça doeu ao tentar forçar a memória – não me lembro.
- Tudo bem, não se preocupe com isso. Quero que fique tranquilo porque já liguei para seu pai e ele já está a caminho.
- Obrigado – falei agradecendo ironicamente. Será que não estaria livre do meu pai em lugar nenhum? Em todos os lugares seus peões estavam me vigiando. Estava preso em um jogo de xadrez e não conseguia encontrar uma maneira de vencer. Acho que nunca poderei vencer esse jogo. Não enquanto ele viver.