Cap.1: Êxodo

Conto de Misteryon McCormick como (Seguir)

Parte da série Paixão Secreta [3ª Temporada]

CAPÍTULO UM

ÊXODO

O dia lá fora estava nublado. Estava preso naquele lugar a mais de quinze meses. Já não aguentava mais. Estava sentado em minha cadeira esperando pelo Dr. Aaron Guzman. Meu psicólogo.

Estava distraído com minhas mãos. Estava pálido. Não ajudava ficar vestido com as roupas claras. Que meu pai havia me enviado. Levei um susto quando ele abriu a porta.

- te assustei? – perguntou ele fechando a porta.

- um pouco – falei olhando para fora outra vez.

Ele puxou a cadeira e se sentou de frente a mim.

- então – falou ele jogando meus manuscritos em cima da mesa.

- acabou de ler? – perguntei.

- sim – falou ele com cara de deboche – tem certeza que quer publicar isso?

- você não gostou?

- Mike, a dois meses pedi para que escrevesse algo. certo?

- certo.

- eu pedi que escrevesse algo. Você levou dois meses para escrever.

- sim.

- você escreveu sua biografia. Você disse que tinha que escrever de qualquer jeito afinal você tinha um contrato.

- tenho – falei respirando fundo. O único barulho na sala era o de nossas respiração e da bela voz do médico de cabelos castanho-claro e olhos azuis. Os olhos mais lindos que vi na vida – o que você não gostou?

- bom. Digamos que começou bem.; você contou toda sua vida até o momento em que estava em julgamento.

- sim.

- eu só não gostei do que você escreveu depois do julgamento.

- porque?

- bom… é mentira. Pra mim parece ficção.

- melhor do que escrever sobre estar nesse lugar mórbido.

- não acho que você tenha melhorado nem um pouco desde que entrou aqui.

- porque?

- vejamos – falou ele abrindo o manuscrito em uma página – nessa parte, diz que o juiz liberou você para viver em sociedade. Até aqui tudo bem, mas pelo que li mais na frente você tem AIDS, seu irmãos mais velho te deixou em frente a um orfanato e você tem um relacionamento a três com seu ex-marido e um tal de Rupert.

- o que tem?

- mais pra frente você é sequestrado, estuprado, mata um homem, entra em coma por quatro anos e termina com o presidente gay dos Estados Unidos.

- você é preconceituoso é?

- não é isso que me perturba.

- Então o que é?

- é assim que você imagina seu futuro? AIDS, morte? Estupro? coma?

- veja tudo o que aconteceu no meu passado? A tendência é seguir um padrão. Se foi uma bosta no passado ,será uma bosta no futuro.

- olha, achei seu manuscrito interessante para um livro de ficção, mas não para sua biografia.

- que seja – falei pouco ligando – só escrevi porque segundo o juiz só saio dessa joça se me comportar.

- porque você chamou seu manuscrito de “Êxodo” ?

- Se você olhar no dicionário vera que Êxodo remete a tragédia grega. Farsa que no teatro romano se seguia a tragédia. Significa migração ou saída.

- então você escreve um final mentiroso e ainda satiriza no título?

- o que você quer de mim? Você pediu para que escrevesse e eu escrevi.

Ele respirou fundo.

- sabe, acho que de alguma forma você progrediu.

- porque acha isso?

- você teve um final feliz apesar de tudo.

- ainda dá tempo de mudar. Pensei em me matar várias vezes, mas não coloquei isso.

- vou fingir que não ouvi isso – falou ele anotando algo no seu caderno. Ele se perdeu por alguns instantes e eu o encarei.

- doutor, você é gay?

- porque quer saber? Quer me incluir no seu livro?

- como assim?

- você tranza com vários homens em seu livro. Começo a achar que você tem algum tipo de vicio em sexo.

- porque? Tranzar é doença?

- não é a tranza em sí, mas o fato de você não se apegar a ninguém.

- eu me apeguei a Adam. Eu sou apaixonado por ele. O desgraçado me traiu, mas eu o amo.

- não. Você não o ama. Você ama a ideia de amá-lo.

- como assim?

- Pelo que li, você se apaixonou pelo seu chefe, certo? Você então realizou o sonho de todos que se apaixonam: tranzou com sua paixão. Essa sensação foi tão boa que você acabou criando um sentimento mutuo ao dele. Note que vocês tranzam em vários momentos, mas em nenhum você realmente quis ficar com ele. Ele foi a última opção.

- mas ficamos juntos. Nos casamos e tudo.

- mas você o traiu.

- não significa que não o ame.

- significa sim.

- não entendo doutor.

- você se apaixonou pelo chefe. Algo que vários gays relatam. A maioria nunca consegue realizar a fantasia. Você conseguiu e acabou se apegando. Você chegou em um momento e seu inconsciente pensou: Até onde3 consigo levar essa realização? Você se casou com o “chefe hétero”. Pronto. A vida de vocês era perfeita até que se casaram, sabe porque? Você conseguiu levar até o momento máximo dessa realização. Você só está com Adam quando sente vontade de tranzar, e quando está distante emocionalmente você procura o sexo com outros.

O que ele dizia fazia sentido.

- note que no seu manuscrito você reencontra Felix e que vocês apenas dão um beijo. No inicio do seu manuscrito você descreve o amor que tem por Felix como o sentimento mais forte do mundo e quando o encontra vocês apenas brigam e dão um beijo? Está claro nessa passagem que mesmo quando tenta se distanciar de Adam, aquela fantasia de “chefe fodendo o empregado” te persegue.

- não é verdade.

- mesmo quando você encontra o Rupert, o homem perfeito, você arranja um jeito de incluir Adam em sua relação. Uma relação a três: o homem perfeito e o homem das suas fantasias.

- o que você quer dizer?

- quero dizer que para se curar, você deve ficar longe de Adam. Você não vai se curar enquanto não se apegar a outra pessoa no mesmo nível em que se conectou com Adam.

- não sei se consigo fazer isso. Já tentei várias vezes.

- quer saber? Esse manuscrito foi a melhor coisa que você fez. Me ajudou a te entender muito mais. Eu te entendo agora. Eu sei como você se vê.

- o que eu devo fazer para melhorar?

- o primeiro passo você fez que foi não aceitar as visitas de Adam. Isso foi espontâneo.

- claro que sim. O desgraçado me traiu.

- vê só? Você descreve Marisol no seu “conto” como uma mulher piranha que te inveja, mas a verdade é que você nunca a conheceu. Você a odeia porque ela acabou com seu mundo de fantasia com Adam.

- OK doutor, eu já entendi. Se disser o nome de Adam mais uma vez eu vou surtar.

- tudo bem – falou ele rindo e fechando o manuscrito – quer ficar com ele?

- acha que eu devo publicar?

- não – falou ele rindo – você vai ser processado por dezenas de pessoas, especialmente por Freddy. Ele é sócio de Rupert e na sua biografia você o descreve como o assassino estuprador maníaco irmão do pedófilo que estuprou o filho do seu antigo psicólogo.

- você está certo. Não vou publicar isso.

- tenho uma pergunta.

- qual?

- você e Rupert estão se vendo desde que passaram aquela noite maravilhosa fazendo amor da luz das estrelas?

- responde a minha pergunta e eu respondo essa.

- sim, eu sou gay.

- não. Nunca mais vi Rupert depois daquilo. Foi bom o que tivemos aquela noite.

- tenho um conselho a você.

- qual?

- você só vai conseguir superar essa “paixonite” por Adam quando se conectar com outra pessoa. Quero que conheça alguém e que caia de cabeça na relação ok?

- a única pessoa que eu posso conhecer aqui dentro e que pode dar em algo é você?

- acho que meu esposo não vai gostar nada disso – falou ele rindo – desculpa ter que te dar esse fora.

- sem problema, não é o primeiro a me dar o fora.

- que bom ouvir isso.

- e não seria o primeiro casado a me dar um fora que dois dias depois me debruça sobre a mesa e mete em mim.

- nossa sessão terminou por hoje – falou ele se levantando.

- não acha chato ter que vir aqui duas vezes por semana só pra ter essas sessões comigo?

- não. Você devia agradecer por estar aqui em vez do hospital psiquiátrico.

- verdade – falei me levantando também.

- cuidado para não se enrolar ou dizer coisas diferentes para as pessoas Mantenha a história que lhe foi passada.

- ok. Eu estou aqui porque sou viciado em Oxicodona.

- exato – falou ele abrindo a porta e nós dois saímos.

Meu psicólogo novo se foi e eu rumei até o jardim. Depois de minha audiência a quinze meses atrás Stephen usou toda sua influência e pediu um favor ao juiz Mitchell Morrison. Ao invés de me enviar para o “hospício”, ele aceitou me colocar em uma Clinica de Reabilitação para Viciados. É claro que eu tive que mentir a todos e dizer que era viciado em algo. Então desde então o psicólogo indicado pelo tribunal vem todas as semanas para as sessões.

Estou mais tranquilo do que estaria em um hospital prisão. É assim que gosto de chamar aqueles lugares. Aqui eu tenho todas as refeições, ando livre, temos esportes, atividades e todas as semanas assistimos a um filme.

Toda sexta-feira o enfermeiro aluga um filme para que nós assistamos juntos como em um cinema. Éramos meio que obrigados a assistir. Isso contava como participação nas atividades. Já que os filmes não passavam de porcaria. Eles não podiam conter violência, sexo ou consumo de qualquer tipo de droga licita ou ilícita. A não ser o cigarro é claro.

A verdade para mim era bem pior que para todos. O diretor do centro de reabilitação era o único que sabia minha verdadeira condição. Ele aceitou que ficasse em sua instituição desde que seguisse as regras direitinho.

Já era muito intimo de todos os empregados. A maioria dos internados não gostava de conversar a não ser quando nos reuníamos nas reuniões diárias para falar de nossos problemas.

- oi Mike – falou Selena uma das enfermeiras de pele morena, fofinha e animada.

- oi Sel – falei parando para conversar com ela – como você está?

- estou ótimo e você já teve sua sessão com o médico bonitão?

- tive sim, mas infelizmente ele é casado.

- ele é gay?

- sim – respondi com raiva.

Ela deu risada

- você me deve vinte paus garoto.

- acho que meu “gaydar” está estragado.

- vou gastar muito bem o seu dinheiro.

- te pago assim que meu pai vier.

- ele já está ai.

- sério?

- sim. Está lá no pátio.

- valeu Sel – falei correndo.

Meu pai me visitava todas as semanas desde que havia me internado naquele lugar. Só sai de lá para o natal e o aniversário do meu pai, mas o restante dos dias fui obrigado a ficar lá. Meu pai havia pedido perdão por tudo o que tinha me dito e é claro que eu o perdoei. Não consegui manter o ódio pro ele. O amo demais para tirá-lo de minha vida.

Para chegar ao pátio você passava por uma passagem coberta cheia de videiras. Lá era realmente bonito e um lugar muito tranquilo. Meu pai estava sentado em um dos bancos em meio tantas pessoas que recebiam suas visitas.

- oi pai – falei me aproximando dele e o abraçando.

- oi meu filho, como você está?

- estou bem obrigado. E o senhor? Está bem? Vanessa? Rachel?

- estão ótimas graças a deus.

- que bom.

- e então? Como está sendo aqui? Sendo um bom menino e fazendo tudo direitinho? Indo as sessões? Sem confusão?

- sim senhor. Me esforçando o máximo para sair logo daqui.

- sei que não quer ouvir isso, mas Jay pediu perdão mais uma…

- está certo. Não quero ouvir isso.

- ok. Não pode me culpar por tentar. – falou ele me entregando uma mochila – notei que as roupas que você tem atualmente são uma droga, então fui ao shopping e fiz as compras por você.

- obrigado pai. O senhor adivinhou.

Meu pai e eu conversamos por quase uma hora. Sobre o trabalho dele, eu contei como estavam sendo as sessões. Tudo estava bem, mas ele tocava em assuntos ao qual não queria saber, como Jay ou Adam.

- preciso ir filho – falou ele se levantando.

- te acompanho até a saída.

Nós andamos até a sida.

- eu já ia me esquecendo. Adam pediu pra mim perguntar se…

- não pai. Ele não pode vir me visitar e dessa vez é uma recomendação médica.

- o médico pediu que não recebesse visitas do Adam?

- sim. Pelo que parece ele é a fonte de todo o meu problema.

- ok – falou ele parando quando chegamos no limite até onde eu ia – não vou mais falar sobre ele.

Nós demos um abraço e nos despedimos. Voltei para o pátio pois o sol havia saído um pouco e eu gostaria de aproveitá-lo antes que chovesse outra vez. Me sentei outra vez no banco e fechei os olhos levantando o rosto. Fiquei assim por alguns segundos.

Em seguida olhei para as pessoas. Algumas estavam com suas visitas e outros apenas tomando sol. Foi quando reparei que no banco ao lado do meu a três metros havia um homem de óculos escuros sentado. Ele parecia pensativo. Seu cabelo penteado para frente e sua barba bem feita, apesar de trazer a marca cinza no rosto.

Primeiro eu não pensei em atrapalhar sua meditação. Estava evitando fazer amizades desde o dia que cheguei porque tinha medo de me envolver em alguma coisa ou contar algo sobre mim. Enfim… tinha medo de ser reconhecido, mas dessa vez decidi não ficar calado. Ele estava com um jeans azul e uma camiseta branca o que deixava a mostra seu corpo bem definido. Por alguns instantes me peguei olhando demais para ele.

- algum problema? – perguntou ele me tirando de meu transe.

- não… o que? – perguntei envergonhado.

- você está me encarando – falou ele sem olhar para mim – sua mãe não te ensinou que é feio encarar as pessoas?

- me desculpa. Não estou te encarando.

- está me julgando?

- claro que não. A verdade é que eu só… eu só queria puxar assunto, mas estava sem jeito.

- desculpa minha arrogância – falou ele guardando algo rapidamente no bolso. Eu vi que era uma carteira de cigarros.

- tudo bem – falei fingindo que não vi. Olhei para o outro lado e tentei não me envolver, afinal esse era meu plano inicial.

Por alguns segundos isso funcionou, até que o homem se levanto eu sentou-se ao meu lado é estendeu a mão.

- meu nome é Richard, mas pode me chamar de Rick.

- ok – falei apertando sua mão – meu nome é Mickey, mas pode me chamar de Mike.

- desculpa pela arrogância Mickey – falou ele finalmente tirando os óculos escuros revelando um belo par de olhos azuis. Só agora que via todo seu rosto é que reparei em sua boca. Era perfeita. Senti um arrepio quando seu braço tocou no meu sem querer.

- tudo bem Rick. Todos temos nossos dias ruins – falei rindo.

- você não vai contar ninguém sobre a minha carteira de cigarros certo? Afinal ele só liberam dois cigarros por dia.

- claro que não. Fica tranquilo

- eu sei que você é bem amigo dos funcionários daqui.

- como você sabe? Acho que nunca te vi por aqui.

- eu estava aqui o dia que você chegou.

- sinto muito. Tem tanta gente. Eu procuro não reparar nas pessoas sabe, mas na questão dos cigarros, seu segredo está seguro comigo.

- que bom – falou ele com um sorriso.

- bom… acho que vou lá pra dentro.

- nos vemos hoje a noite.

- hoje?

- sim. Hoje é o dia do filme.

- é mesmo. Sexta-feira. Havia me esquecido – falei me levantando.

- até mais – falou ele colocando os óculos nacara de novo e levantando o rosto.

- até – falei me afastando e entrando na clinica de novo. Aquilo havia sido estranho. Não sei bem se foi um flerte ou uma ameaça, mas o certo é que ficaria bem longe dele.

Comentários

Há 4 comentários.

Por dfc em 2014-10-07 22:22:26
Nosssaaaa megaaaaa bommmmmmmmmmmm
Por BitchBarbZ em 2014-10-06 00:59:52
Vc se contradisse, Rupert não tinha morrido?
Por ell em 2014-10-05 15:44:26
Fiquei muuuuito feliz e mais uma vez extremamente impressionado.. continua.. perfeito.. Espero que o mike seja realmente feliz pelo menos em um verao.. beijos..
Por B Vic Victorini em 2014-10-05 11:24:36
PORRA! CARALHO! QUE FODA! Mano vc é incrivel, que foi isso? Fiquei tonto, bem que eu achei muito fantasiosa a historia dele. Stefan ñ é gay? Ele ñ é soro positivo? Manda mais man... E faz um favor, de verdade, #DeixaOMikeSerFeliz