Cap.10: DNA
Parte da série Paixão Secreta [2ª Temporada]
Enquanto Stephen explicava para Ray o que estava acontecendo, dentro de mim acontecia um tremendo conflito. Tudo aquilo parecia tão surreal em minha mente. Eu não sabia como reagir, as “evidências” até agora apontavam para Ray, mas ao mesmo tempo eu não queria dar um passo maior do que a perna. Estava cansado de me decepcionar.
A enfermeira retirou o soro e o remédio e eu finalmente vesti minha roupa. Ray e Stephen conversavam do lado de fora da sala. Eu aguardava eles retornarem. Depois de alguns incontáveis minutos os dois entraram. Senti um frio na minha barriga.
- então… - falei com a mãos suadas – o que você acha? – perguntei para Ray.
- posso te dar um abraço? – perguntou Ray agora emocionado.
- na verdade, não – falei olhando para Stephen e depois para ele.
Ray pareceu surpreso com minha reposta.
- não leve a mal, é que… já tive tantas decepções relacionadas as minhas origens, para o meu bem e para o seu não vamos nos precipitar. Se concordar em fazer um exame de DNA eu gostaria de confirmar a paternidade antes de me envolver emocionalmente.
- ok – falou Ray limpando os olhos – sinto muito é que… esperei tanto por esse momento.
- ok – falei saindo da sala deixando os dois para trás.
- não liga pra ele – falou Stephen – ele passou por muita coisa nesses últimos anos. Ele deve estar com uma overdose de informação.
- ele vai ficar bem? – perguntou Ray – talvez eu devesse conversar com ele.
- Ray… - falou Stephen se aproximando dele – se o exame confirmar o que todos esperamos você pode se considerar um pai orgulhoso. Dê um tempo ao tempo.
- tudo bem – falou Ray – vou fazer o pedido do exame de DNA. Uma velha conhecida pode fazer os exames e guardar segredo, dessa forma sua campanha não será arruinada.
- não se preocupe comigo – falou Stephen.
Lá fora o tempo parecia calmo. Agora eu me lembrei, amanhã é aniversário de Adam. Tem tanta coisa acontecendo que eu acabei me esquecendo de outros lados da minha vida.
- Olhei para trás e Stephen veio até mim. Ray ficou parado ao longe.
- o que aconteceu com você?
- desculpe é que estou nervoso e super agitado. É muita informação para ser processada e Talvez isso tudo seja apenas mais uma decepção.
- Ele também é alérgico sabia? – falou Stephen se aproximando – tem alergia a camarões.
- e dai?
- Alergia é hereditária Mike. Claro que o filho não é alérgico a mesma coisa que o pai ou a mãe, mas as chances de um filho ser alérgico a algum tipo de alimento ou outra coisa é 50%.
- você não está facilitando eu tomar minha decisão Stephen.
- deci… que decisão Mike?
- eu não sei se quero fazer esse exame?
- mas porque?
- eu não sei. Algo me diz para esquecer essa história.
- Mike o homem tem direito de saber. Sua mãe tem o direito de saber.
- minha mãe… me esqueci dela. E se foi ela que me abandonou e disse que desapareci? Talvez ela não estivesse preparada.
- Mike, ele estava mais do que preparada quando te teve. Ray me disse que quando se casou com sua mãe, que a proposito de chama Abigail, ela já tinha um filho.
- eu tenho um irmão mais velho?
- sim. Se chama Seth, é mais velho que você dez anos.
- meu deus – falei nervoso.
- você só está nervoso Mike. É muita informação para sua cabeça.
- eu sabia que queria, mas agora que está tão perto não tenho mais certeza.
- sabe quando você quer muito uma coisa e quando consegue você sente uma sensação de vazio e incerteza? Isso acontece com todo mundo.
- você acha que eu devo fazer?
- você não tem escolha. Vamos ter que esperar por volta de uma hora antes de fazer o exame. Ray fumou um cigarro cerca de vinte minutos atrás.
- precisa ser mesmo hoje?
- precisa. Depois do exame vamos direto para o aeroporto. Já pedi que um dos meus ajudantes comprassem sua passagem.
- tudo bem – falei olhando para Ray.
Depois de mais de uma hora nós andamos pelo corredor até uma pequena sala onde exames eram feitos. Ray nos explicou que Marie é uma velha amiga e ela trabalha no laboratório do hospital e é ela mesma que irá recolher o sangue e fazer a comparação genética.
- Marie? – falou Ray batendo na porta. Uma mulher de jaleco abriu a porta – podem entrar.
Quando ela me viu ela olhou para mim e por alguns instantes não piscou. Um sorriso surgiu em seu rosto.
- você tem os olhos do seu pai sabia? – falou ela fechando a porta. Ray deu um sorriso.
- eu não… ele pode não ser meu pai – falei respirando fundo.
- sinto muito – falou ela indicando uma cadeira.
- vou precisar apenas de uma pequena amostra de DNA. Como os dois estão aqui e estão dispostos eu prefiro pela amostra sanguínea. Tudo bem?
- tudo – respondeu Ray esticando o braço. Ele parecia mais ansioso do que eu. Por alguns momentos pensei em desistir, mas logo pensei: “Que se foda! Estou prestes a finalizar um velho capítulo e iniciar um novo na minha vida”.
Ray foi o primeiro. Seu sangue foi colocando em um frasco. Em seguida foi minha vez. Em seguida ela pegou dois cotonetes e pegou amostras da saliva.
- tudo pronto – falou ela retirando as luvas. Vou trabalhar a noite toda no material que recolhi de vocês. Não dou certeza, mas daqui a três dias eu já tenho o resultado.
- ok – falei agradecendo e saindo da sala. Ray me seguiu. Stephen esperava por nós do lado de fora.
- e então? O resultado sai em quantos dias?
- três – falou Ray.
- ok – falou Stephen enquanto caminhávamos para fora do hospital – em três dias nós dois voltamos aqui.
- tudo bem – falou Ray – pode ser na minha casa – perguntou ele olhando para mim.
- e se der negativo?
- não vai – falou Ray.
- ok – falei triste e feliz ao mesmo tempo. Puta merda eu não queria ter falsas esperanças, mas era meio difícil não ter com todo mundo jogando na minha cara daquele jeito.
Pegamos uma carona com Ray de volta ao açougue. Stephen sentou-se na frente. Ray pediu que eu ficasse ao seu lado, mas eu preferi ir atrás. Ao chegarmos nós nos despedimos. Ray foi até lá dentro e pegou um papel e uma caneta.
- esse é meu endereço – falou ele entregando o papel para mim – vou ficar ansioso esperando por vocês.
- igualmente – falou Stephen apertando a mão dele.
- até mais – falei estendendo a mão. Ray apertou contra sua vontade. Eu sabia muito bem o que ele queria fazer, mas não dei a chance. Sem fortes emoções ou contatos desnecessários.
- até – falou Ray apertando minha mão bem forte.
Ele fez questão de ficar na porta do açougue nos acompanhando com seu olhar enquanto Stephen e eu desaparecíamos no fim da rua.
Antes de me levar ao aeroporto Stephen me levou de volta ao hotel e eu peguei minhas coisas. A viagem seria longa até em casa.
Cheguei em San Diego por volta dás onze e meia da noite, ao sair do avião e pegar minha mala sai em direção aos taxis. Entrei na fila que estava enorme. Não muito tempo depois um mão repousou em meu ombro.
- pai?
- vamos – falou ele pegando minha mala e levando.
- o Stephen ligou para o senhor?
- infelizmente sim.
- obrigado por ter vindo me buscar.
- ele me contou uma outra coisa – falou ele abrindo o porta malas e jogando a mala lá dentro.
- ele não devia ter falado nada, eu ainda nem tenho certeza – falei dando a volta e entrando no carro.
A viagem até em casa foi silenciosa. Na metade do caminho tentei puxar assunto, mas parece que ele não estava muito a fim. Apesar dele claramente não querer conversa, a poucos quilômetros de casa, decidi insistir.
- o senhor não vai dizer nada?
- dizer o que Mike? O que eu posso dizer para você nesse momento?
- não sei. Qualquer coisa.
- eu te avisei – falou ele virando na nossa rua.
- como assim eu te avisei.
- tantos caras bons para se casar, tantos caras… gays e você resolve converter um hétero?
- como assim “converter”? ele casou comigo porque quis.
- depois não acha ruim quando dizerem que vocês ficam tentando converter todo hétero em gay…
- como o senhor tem coragem de dizer isso? Justo pra mim?
- eu não te reconheço mais Mike. Já não me visita, não me liga não dá noticias. Preciso ficar sabendo disso tudo por Adam? – falou meu pai entrando com o carro na garagem.
- o senhor está defendendo ele?
- você sabia que isso podia acontecer a qualquer momento. Você não se casa com um homem e espera que ele não dê suas escapadas de vez em quando.
- Uau! Eu entendi – falei siando do carro – até porque os gays não são “homens” também. O senhor só o defende porque está com o orgulho ferido.
- Não estou do lado de ninguém, mas acho que não devia ter reagido da forma que você reagiu. Devia ter conversado com ele – falou ele batendo a porta do carro. Ele veio de encontro a mim – como acha que me sinto? Você tem mais fitas de sexo do que uma garota de programa barata.
- olá garotos – falou Vanessa chegando na porta da frente com Rachel nos braços.
- você está defendendo Adam? sério? Foi ele que pulou fora e comeu a primeira que se ofereceu. O senhor age como se a culpa fosse minha. O casamento não deu certo e pronto.
- você acha que desisti assim tão fácil? Eu fiquei com sua mãe até o dia da morte dela.
- Você fala como se tivesse sido um sacrifício. Do jeito que o senhor está defendendo o Adam não me admiro se em um futuro próximo descobrir que o senhor também comeu alguma vagabunda enquanto estava com a mamãe.
Meu pai deu um tapa na minha cara. Meu rosto ardeu.
- Larry! – gritou Vanessa.
- nossa… – falei alisando meu rosto dolorido – quer que eu tire minha roupa agora? A última vez que me bateu você me estuprou em seguida – falei passando por ele e entrando em casa. Fui em direção as escadas e ao chegar no andar de cima fui até meu antigo quarto. Eu abri a porta e me lembrei que agora era o quarto de Rachel. Fechei a porta e fui até o quarto de hospedes e quando abri a porta dei de cara com o irmão da Vanessa enrolado em sua toalha. Levei um grande susto.
- meu deus, me desculpa – falei levando um puta susto.
- não tem problema… o que aconteceu com seu rosto? –perguntou Vincent surpreso. Eu não respondi e fechei a porta saindo.
Eu voltei no corredor e parei no meio do caminho. Já não tinha mais lugar naquela casa para mim.
Escutei passos na escada. Era Vanessa.
- Mike você está bem? – perguntou ela preocupada. Rachel ainda em seus braços.
- estou – falei colocando a mão no meu rosto – vou para um hotel.
- fique aqui. Você pode dormir no sofá.
- não precisa ir embora – falou Vincent saindo do quarto já de roupa – pode ficar no quarto, eu durmo no sofá.
- obrigado, mas não precisa. Prefiro ir para um hotel, não vou ficar na mesma casa que ele.
- deixa pra lá Mike. Fica aqui.
- porque ele está assim Vanessa? Eu fiz algo a ele? Porque ele está descontando em mim?
- Ele é seu pai. É isso que os pais fazem.
- não o meu. Ele nunca disse aquilo pra mim. Ele está me tratando diferente. Ele devia ficar do meu lado e não contra mim. Parece que desde que Rachel nasceu ele tem vergonha de mim – falei isso sem perceber que podia estar atingindo Vanessa – sinto muito eu não quis dizer isso…
- não tem problema, você está nervoso, seu pai também – falou Vanessa tentando me acalmar – fica aqui mesmo, você está em segurança. Amanhã vocês resolvem isso. Está tarde para você ir para um hotel.
- sinto muito Vanessa, mas preciso ir.
- eu te levo – falou Vincent – eu posso leva-lo Vanessa.
- ótima ideia.
- não se preocupe Vincent, eu chamo um taxi – falei indo em direção as escadas.
- eu te levo.
- vão no meu carro, as chaves estão lá em baixo.
- ok – falou Vincent me seguindo.
Meu pai estava parando em frente a porta da sala.
- você não vai a lugar nenhum.
- deixa ele ir – falou Vanessa descendo as escadas. Rachel agra chorava em seus braços – sai da frente Larry, meu irmão vai leva-lo até um hotel.
Meu pai saiu da frente e eu passei por ele, mas ele segurou no meu braço.
- me perdoa – falou ele olhando para mim.
Por alguns segundos o silêncio predominou. Não olhei para ele. Não conseguia. Quando ele soltou meu braço eu fui em direção ao carro de Vanessa estacionado ao lado do carro do meu pai.