22. No limite

Conto de Luã como (Seguir)

Parte da série Proibido

Oi gente! Adivinhem só, a primeira temporada de proibido já está quase chegando ao fim :/ espero que vocês gostem do modo que a trama vai se encaminhar, o desfecho é bem eletrizante, cheio de reviravoltas, me falem sempre o que estão achando dessa situação em que nossos protagonistas estão! Obrigado pelo carinho de sempre!

- quando foi a última vez que você viu ela? – o delegado pergunta, se remexendo na cadeira giratória. Posso ver algumas gotas de suor brotando em sua testa, mesmo não estando nem um pouco calor. Havia parado de chover há menos de dez minutos.

- eu não sei... Há dois dias, eu acho.

- dois dias? – Gustavo se intromete, surpreso.

- é, eu acho que vi ela no restaurante, quando estávamos com Samuel.

Ele mantém o rosto inexpressivo, mas se eu bem o conheço, terei que explicar minha omissão depois.

- e você só recebeu esses bilhetes?

- não. Na verdade, há uma caixa com fotografias picadas. Minhas e de Gustavo. – eu confesso para o delegado, enquanto vejo Gustavo pasmo novamente; mais uma explicação pra conta.

- e onde esta?

- em casa. As cartas estavam na gaveta, mas a caixa estava guardada em cima do guarda roupa. Acho que ela não achou.

- entendo... Você disse que a porta da frente estava trancada, quando você chegou?

- isso.

- provavelmente ela conseguiu uma cópia da chave. Vocês têm alguém em comum, que poderia ter dado essa chave?

- não. Eu moro apenas com meu amigo.

Enquanto o escrivão anota tudo o que eu digo, ao mesmo tempo que o delegado ouve Gustavo falando sobre como ele achara os bilhetes em seu carro, o pensamento de Diego me vem à cabeça. Será que a relação secreta de Diego e de Eduarda seria algo mais sério do que eu pensava? Será que ele teria pego a chave de Samuel, feito a cópia e dado para Duda? Não, não Arthur, isso seria loucura demais! O Diego pode ser um doente desequilibrado pelo irmão, mas não teria motivo pra fazer algo desse tipo. Mas se não, como ela teria conseguido entrar no apartamento sem ao menos forçar a porta? Pois quando eu entrei, estava tudo normal. É isso que me deixa encafifado e acaba não me deixando ligar os pontos.

O homem baixinho, com a pele rosada e com uma barriga avantajada analisa os bilhetes concentrado, com uma das mãos apoiadas no queixo, o dedo indicador na boca, então eu aprecio o silêncio. Há um telefone tocando na outra sala, que logo para, sendo atendido, além de outros barulhos de conversa mais ao fundo, dos outros policiais. Todos esses sons, incluindo o digitar do escrivão, bem ao lado do delegado, não conseguem ser mais altos do que os das minhas indagações. Será que Eduarda seria tão desequilibrada ao ponto de realmente tentar algo contra mim? Até onde sua obsessão por Gustavo realmente vai?

- bom, então você falou que o carro também foi danificado, certo?

- Uhum.

- bom, então eu sugeriria vocês terem bastante cuidado, enquanto tentamos localizar a suspeita. O pessoal da perícia irá amanhã analisar o carro, então eu peço pra não mexerem em nada. E já que o apartamento já foi invadido, aconselho que troquem as fechaduras o mais rápido possível e que, se necessário, fique fora de lá alguns dias. Se ela estiver realmente com más intenções, ela pode voltar. – ele me olha firme, desempenhando muito bem o papel de delegado durão e casca grossa e me deixando ainda mais desconfortável. Contudo, é inevitável dizer que ele é dos bons. - Eu mantenho vocês informados.

- tudo bem.

- obrigado, Paulossi. – Gustavo diz, estendendo a mão para um aperto.

- sempre que precisar.

Saímos da sala e eu me sinto um pouco estranho. Não acho que eu esteja totalmente aliviado, mas também não me sinto tão preocupado, apenas cansado.

Passando pelo balcão extenso de madeira da recepção, me atrevo a olhar para Gustavo, que parece não estar muito amigável, provavelmente pelas coisas que eu não havia lhe contado. Ao sair pela porta, percebo que a noite que havia chegado não muito tempo atrás era fria, fazendo eu ajeitar meu casaco, enquanto caminhamos lado a lado em direção ao carro.

- o delegado me parece muito bom mesmo. De onde você conhece?

- é um velho amigo do meu pai. Sabia que valeria a pena vir até aqui, mesmo sendo longe. – ele murmura, ainda de cara fechada. Até quando vamos ficar assim?

- olha Gus, eu sei que você tem o direito de estar chateado, mas...

- chateado? Eu estou com raiva, Arthur. Por que você não me contou? Sobre as cartas, sobre as ameaças, sobre ter visto ela no restaurante? – ele para ao lado do Maverick, ainda na calçada, me encarando e finalmente pondo pra fora seu aborrecimento.

- eu não sei. Eu só não queria fazer alarde por algo que eu achava não ser importante.

- algo não importante? Arthur, olha o que ela fez! Entrou na sua casa, mexeu nas suas coisas, quebrou seu carro... Isso não é importante?

- é, claro que é, mas eu... Sei lá, Gustavo, não me parecia ser tudo isso no começo. Achei que era só bobeira dela, algo sem fundamento.

Ele me fita, o cenho franzido, então eu não consigo pensar em mais nada a dizer. Gustavo solta o ar pesadamente e então diz:

- agora não adianta brigar. Vamos embora, eu te levo pra minha casa.

- não, pra sua casa não.

- por que não? – ele me olha por cima do teto baixo do carro, já de pé na porta do motorista.

- eu quero ir pra minha casa, Gus. Tenho que avisar o Samuel também, ele vai surtar quando ver o carro daquele jeito e perceber que eu não estou em casa.

- então a gente vai, espera ele chegar e depois você vai passar a noite lá em casa. Pode ser?

Eu hesito, achando que, apesar de toda essa situação estar um pouco conturbada, eu só queria minha cama e uma boa noite de sono sozinho. Mas no fim eu decido não contraria-lo e acabo cedendo:

- pode ser. Amanhã de manhã cedo eu também vou até algum chaveiro pra trocar trocar todas as fechaduras. – eu digo, transparecendo um pouco mais de calma do que eu realmente estou tendo, enquanto ele sorri de canto e entra no carro, um pouco antes de mim.

Ao colocar a chave na ignição, porém, ele olha para o painel, antes mesmo de tentar ligar o motor, então faz uma cara de quem viu algo e não gostou.

- ah droga.

- o que foi?

- o tanque tá vazio.

- você não abasteceu?

- eu esqueci. Peguei hoje de manhã pra ir nos meus pais e nem notei que precisava por gasolina.

- que maravilha. – eu resmungo, achando que essa noite está ficando um pouco mais longa do que eu gostaria. – e agora?

- será que tem algum posto de gasolina aqui perto?

- pra ir a pé e ser assaltado? De jeito nenhum.

Gustavo volta a olhar para o painel, a mandíbula pressionada.

- eu vou ligar pra Leona, pedir pra me trazer um galão de combustível.

- isso vai demorar muito...

- eu sei, mas não tem o que fazer, ué. – ele dá de ombros, então eu sinto vontade de esgana-lo. Como alguém pode esquecer de abastecer a droga do carro?

- Gus, vamos fazer assim. Você espera aqui e eu pego o metrô.

- você tá louco?

- não, eu só to cansado, quero muito ir embora. A Leona tá longe, até ela chegar aqui vai demorar. Eu vou pra casa, converso com o Samuel, passo a noite lá e de manhã cedo eu vou trocar as fechaduras. Se você quiser, eu durmo lá na sua casa de noite.

- ah Arthur, não sei se é uma boa ideia você ir embora sozinho.

- Gustavo, eu já sou adulto, não vou ficar sentindo medo de andar por aí. A estação de trem é duas quadras pra baixo, se você quiser me levar lá...

Ele me analisa, de lado, a expressão desconfiada.

- tudo bem. Não posso te prender aqui mesmo.

Dito isso, vejo-o abrir a porta do carro e saltar pra fora, com a cara azeda. Eu também saio para a calçada, aliviado por estar indo embora e já imaginando eu deitar na minha cama e dormir até que esse dia acabe, deixando toda essa confusão pra trás.

- você poderia pelo menos pegar um táxi. Não gosto da ideia de você pegando metrô.

- por que? O que tem errado com o metrô?

- é perigoso, Arthur. – ele sibila, já irritado.

- minha casa é duas estações daqui. Vou parar praticamente na porta.

- você já avisou o Samuel, pelo menos?

- puta merda, o Samuel!

Pesco o celular do bolso e só então percebo que estava no modo silencioso. As treze chamadas não atendidas e as quatro mensagens me fazem pensar que ele deve estar com vontade de me matar nesse exato momento, ainda mais pela última mensagem, que havia pelo menos uns trinta palavrões diferentes. Disco seu número rapidamente e não é nem preciso esperar muito tempo pra ele atender.

- Samuca, me desculpa...

- desculpa? Desculpa é o caralho, Arthur! Onde você tá, porra?

- eu to saindo da delegacia, com o Gustavo.

- que merda é aquela com o seu carro?

- foi a Duda.

- a Duda?

- é, uma longa história. Eu te explico quando eu chegar.

- cara, que raiva de você! Eu odeio quando você some assim, ainda mais numa situação dessas.

- daqui a pouco eu to em casa.

Ao ouvir a ligação terminar sem nem um tchau, percebo o quão bravo Samuel está. Parece que eu estou metido em um grande problema.

- e aí?

- ele tá puto comigo. – digo pesadamente, guardando o celular de volta. Ao atravessarmos a rua quieta, com algumas lâmpadas dos postes estragadas, penso ter visto alguém atrás de nós. Me viro pra me certificar, enquanto chegamos no final da quadra e já perto da estação, mas não vejo ninguém. Será que eu estou ficando pirado?

- o que foi? – Gustavo pergunta, curioso ao me ver tenso.

- nada, só achei que tinha visto coisa.

Ele olha pra trás, não enxergando nada, então ri de mim, certamente achando que eu estou paranoico.

- tem certeza que quer ir embora sozinho? Ainda dá tempo de voltar e esperar a Leona. – ele insiste, brincalhão.

- ah Gustavo, fica quieto.

Ele sorri e então enlaça seu braço em volta das minhas costas, fazendo eu relaxar um pouco. Eu estou realmente precisando de um bom banho quente e das minhas cobertas. Esse dia tá ficando cada vez mais longo e estranho.

Ao descer as escadas rolantes, avisto uma pequena quantidade de pessoas já na beira da plataforma, esperando o metrô que logo aparece no túnel.

- bem na hora. – eu digo, chegando no final da escada e fazendo a frente, antes de Gustavo se por ao meu lado, enquanto caminhamos até a porta do vagão.

- me avisa quando chegar em casa.

- pode deixar.

- e não esquece que amanhã você vai dormir comigo.

- tá bom. – eu resmungo, reprimindo o riso. Gustavo sendo superprotetor é algo um pouco estranho pra mim, mas não deixa de ser algo bom de se ver.

- eu vou indo, se não eu fico pra trás.

Ele sorri pra mim e depois me rouba um beijo na bochecha, fazendo eu olhar para os lados e ver se alguém havia visto. Eu sacudo a cabeça em desaprovação e então entro no vagão, sorrindo e já sentindo sua falta.

As portas se deslizam até que se fechem por completo, deixando Gustavo do outro lado do vidro, me olhando com um quase sorriso, a expressão de quem queria entrar e vir junto comigo. Aceno para ele e vejo-o se amolecer um pouco mais, então eu solto meu sorriso frouxo. O metrô começa a se mover lentamente, até que saímos da estação direto para o túnel, então, quando eu perco Gustavo de vista, me contento a escolher um lugar pra sentar, o que não era muito difícil, a julgar pelo quão vazio os vagões estavam, por ser quase nove da noite de um domingo. Caminho até o assento perto da porta do outro vagão, me apoiando nas barras de ferro, então me acomodo em meu lugar, feliz por estar finalmente indo pra casa. Tirando o fato de Samuel estar querendo tirar meu fígado com as próprias mãos, o fato de eu sair daquela delegacia e de ter um pouco de paz e de uma noite sozinho para reorganizar meus pensamentos me deixam feliz. Acabo aproveitando a calmaria do trem e então puxo meus fones de ouvido, que felizmente eu havia esquecido de tirar do bolso da jaqueta no outro dia. Coloco minhas musicas no modo aleatório e então pouso minha cabeça pra trás, encostando no vidro. O dia havia sido tão confuso e cansativo que eu poderia dormir aqui mesmo, mas eu sei que perderia a minha estação e só pioraria as coisas, se fosse julgar pelo meu nível de azar. O vidro treme um pouco por causa da velocidade, mas não é nada tão incomodo. Na verdade, funciona mais como um ponto de atenção que eu me fixo para evitar pensar precipitadamente em tudo o que eu preciso pensar. Tenho certeza que eu vou ter a noite inteirinha acordado pra fazer isso, mesmo que eu queira muito dormir. Parte de mim acredita que eu irei conseguir empurrar essas preocupações pra mais tarde, mas enquanto isso, minha cabeça já trabalha seu subconsciente com uma tonelada de perguntas ainda sem respostas.

Olho para o lado e vejo apenas um casal sentado na outra ponta do vagão, com a mulher apoiando a cabeça no ombro do homem  e uma outra mulher, mais ao meio, lendo um livro, perto de mim. O chacoalhar do vagão apenas me deixa ainda mais sonolento, mas minha cabeça ainda está a mil com os acontecimentos de hoje; Diego, a caixa de fotos, Duda, o bilhete, o carro... Que droga é essa que tá acontecendo? Duda não me parecia ser alguém desequilibrada quando me cumprimentou a primeira vez, no meu primeiro dia de trabalho, logo depois que Amanda me levou até ela. Diego também não me parecia ser um tarado adepto ao incesto quando exibiu aquele par de olhos verdes e aquele sorriso perfeitamente alinhado pra mim, no meu primeiro encontro com a família Lobo. Ou será que fui eu quem não percebeu nada? Será que eu sou tão estupido ao ponto de não ver o óbvio?

Outra sacudida no vagão, dessa vez um pouco mais forte, então as luzes piscam levemente. Eu me ajeito na poltrona e me ponho ereto de novo, tirando o celular do bolso e trocando de música. Posso quase afirmar que eu acabara de dar uma cochilada de segundos, mas não sei ao certo. Sinto meus olhos um pouco pesados e estreitos, enquanto olho para a janela da frente na tentativa de ver onde estou. Porém, como eu esperava, só vejo o fundo cinza e continuo do túnel. Quando olho despretensiosamente para a direita, vejo alguém sentado bem ao lado da outra mulher no meio do vagão. Tudo o que posso ver é que é uma mulher também, mas tenho certeza que ela não estava aqui antes. O estranho é que há algo nela que me chama a atenção. Não sei se é a parte de seu cabelo longo e descuidado que eu consigo ver, ou se é os braços finos e brancos, mas ambas as coisas me lembram de...

- Duda? – eu sussurro, incrédulo.

Outra piscada nas luzes, então eu sinto meu corpo todo se aquecer com a tensão. Eu estou ficando louco? Não, não pode ser ela! Isso é coisa da minha cabeça. Para ter certeza, decido olhar novamente, então dessa vez consigo ver parte de seu rosto, então eu sinto meus olhos se abrindo ao ponto de quase saíram pra fora das órbitas. É ela. É a Duda. Ela me seguiu e está na porra do trem.

Me levanto calmamente e ando em direção ao outro vagão, tirando os fones e colocando no bolso da calça. Ao passar pela porta, percebo que dessa vez sou apenas eu nesse vagão, o que deixa tudo ainda mais assustador. Se Duda quisesse fazer alguma coisa, aqui seria perfeito pra ela. O pensamento me assombra rapidamente, antes de eu fechar todas as portas da minha mente que me deixassem ainda mais em pânico. Em seguida, digito o número de Gustavo e espero, as mãos trêmulas fazendo tudo ficar mais difícil.

- ei, já chegou?

- a Eduarda tá no trem.

- o que?

- a Eduarda tá na droga do trem! – eu repito, exibindo meu desespero.

- calma, você tem certeza?

- tenho! Quer dizer, não sei. Mas é ela! – eu afirmo, quase gritando, sentindo meus nervos ficarem descontrolados.

- sai do trem e me espera em algum lugar seguro. Eu vou chamar a polícia.

- ok. – eu falo, e desligo imediatamente. Droga! Que droga!

A próxima parada é na estação Santa Cruz, o que pelos meus cálculos vai demorar mais uns cinco minutos, então tudo o que eu tenho pra fazer e esperar. Olho novamente para o outro vagão, através da pequena janela quadrada no meio da porta, e não vejo nada. Será que era realmente ela? Bem, parecia muito... Mas se era, por que ela não veio atrás de mim?

"Você vai acabar perdendo a cabeça, Arthur!"

Decido sentar e tentar acalmar os nervos, caso contrário a estação demoraria ainda mais pra chegar. E quando finalmente chega, eu salto pra fora, agoniado, olhando pra trás e não vendo ninguém que se pareça com ela sair. As outras pessoas do outro vagão saem, mas ela não. Há mais outras pessoas saindo de um outro vagão mais atrás, mas também não a vejo. Acabo sentindo meu celular vibrar e quase pulo de susto, colocando a mão por cima da calça e logo depois enfiando meus dedos no bolso para puxar o telefone.

- cadê você?

- acabei de sair do metrô. To na estação Santa Cruz. – digo, caminhando em direção às escadas rolantes.

- eu to a caminho. O delegado me disse que todas as viaturas estavam na rua mas que iria pedir reforço de outra delegacia. Fica tranquilo, logo logo eles estão aí.

- tá bom. – eu agradeço, enquanto penso que as escadas rolantes seria muito óbvio. Talvez ela estivesse lá em cima, me esperando. Ou talvez ela me veja subindo por ali e me encontre lá. Dessa vez eu preciso ser mais rápido do que ela.

- eu vou desligar, depois a gente se fala.

- me mantém informado, Arthur. To correndo pra aí.

- tá bom. Se cuida.

- você também.

Assim que desligo, olho pra trás e não vejo nenhum sinal de Duda. Algumas pessoas fazem seu caminho até as escadas rolantes, onde eu estava parado em frente agora a pouco, mas felizmente não a vejo. Começo a caminhar até as escadas convencionais, mais ao canto, enquanto meu sangue parece estar fervendo dentro das veias. A sensação de alerta máximo me faz ficar agitado, olhando para os lados e temendo encontrar ela a qualquer momento. É só quando finalmente começo a subir as escadas que me sinto um pouco mais aliviado, estando a caminho da Avenida, em meio aos carros e à estranha segurança quase inexistente, mas que é melhor do que estar em uma estação de trem quase vazia com a possibilidade de uma quase sociopata estar atrás de mim. Subo o primeiro lance de escadas e, quando estou quase virando para subir o segundo, vejo um grupo de homens parados no meio do caminho, usando alguma droga que eu não vejo ao certo, mas que parece ser crack. Faço o máximo de silêncio para não ser notado e então dou meia volta, pensando que tudo o que eu menos preciso hoje é ser assaltado, pra terminar de ferrar com o meu dia.

De volta na estação, saco o celular pra mandar uma mensagem para Gustavo.

"Ei, já está quase chegando? Estou te esperando no subsolo, perto da plataforma. Quando estiver chegando me avis..."

Então, um barulho mais à frente interrompe minha mensagem, fazendo eu tirar meus olhos da tela do telefone e firma-los adiante. A figura estática de Eduarda a uns dez metros de distância faz meu corpo paralisar automaticamente, enquanto eu sinto uma espécie de soco no meu peito. Estamos apenas eu e ela no grande salão cinza e com lâmpadas amareladas, o silêncio mortal fazendo eu ouvir o som da minha própria respiração. Olho para uma de suas mãos e percebo o metal reluzente tremendo com o ritmo de seus dedos. Santo Cristo, é uma arma!

- Duda?

Ela pende a cabeça pro lado, me olhando inexpressiva, mas mesmo assim dizendo muito. O que eu faço? Saio correndo? Tento conversar? Grito pra alguém? Pensa rápido, Arthur!

- o que você tá fazendo aqui?

- vim me certificar de que você recebeu meus recados.

Sua voz ecoa no ambiente, mesmo que fraca e instável, fazendo eu engolir em seco. Tento pensar em algo pra dizer, mas nada que me venha a cabeça parece ser adequado para tentar acalmar alguém armado em minha frente.

- eu vi você na delegacia. Você e o Gustavo. Eles não vão me pegar.

- ninguém quer te machucar, Duda. Você só precisa de ajuda.

- eu não preciso de ajuda! – ela grita, apontando o cano para a minha direção e fazendo eu olhar pro lado, abrindo os braços. – eu preciso do Gustavo. É só disso que eu preciso. Você chegou naquela droga de banco e roubou ele de mim. Você acha isso certo?

Alguns segundos de silêncio e eu permaneço imóvel, sentindo o medo entrar pelas minhas entranhas.

- responde! – outro grito, então eu vejo a arma tremer com seu movimento brusco.

- não! Não é bem assim, Duda. Eu não roubei ele de você.

- então por que ele está comigo ao invés de você?

- por que ele gosta de mim. Se você ama ele de verdade, deveria respeitar a decisão dele. – mesmo que o que ela sinta por ele esteja longe de ser amor.

- se você não tivesse se metido no meu caminho, eu estaria com ele. Sou eu quem deveria beijar ele, tocar seu corpo, ser levada pra casa, sair nas fotos das colunas sociais... Mas não! É você quem está tendo tudo isso!

- Duda, o Gustavo é gay. Ele não gosta de mulheres... – eu tento explicar, mesmo achando que não é uma boa ideia.

- é mentira! Foi você quem bagunçou a cabeça dele. Por isso eu tenho tanta raiva de você. – ela sibila, os olhos quase queimando, as mãos ainda mais trêmulas, revelando seu descontrole. – e é por isso que você vai morrer hoje, Arthur.

A última frase me provoca um arrepio na cabeça, passando pela minha coluna e chegando até meus pés.

- Duda, não...

- mas eu vou fazer isso lentamente. Pra que você se arrependa amargamente de ter cruzado o meu caminho.

Dito isso, eu firmo meus olhos nela, vendo que ela não esta blefando nem um segundo sequer. A confirmação vem quando eu vejo-a disparar, o barulho ensurdecedor atravessar a distância entre eu e ela e cruzar uma das pilastras bem perto de mim, fazendo eu sobressaltar e colocar uma das mãos na cabeça.

- porra! – eu solto, desesperado. Vejo ela sorrir satisfeita ao me ver pendendo pro lado, me desequilibrando e quase caindo. Ela está fazendo eu ser sua diversão momentânea, pra depois acabar com a minha vida.

- Duda, por favor...

- por favor o que? Você acha que eu vou deixar você ficar com ele, Arthur? – ela pergunta, as sobrancelhas arqueadas e os olhos úmidos enquanto reprime o riso psicótico em sua boca. – eu posso até não ter ele pra mim, mas você também não vai ter.

Me ajeito novamente, me concentrando em firmar meus pés no chão e tentando uma aproximação, mesmo que isso pareça loucura. Porém, se eu irei morrer mesmo, eu preciso tentar alguma coisa.

- eu posso me aproximar?

Ela não diz nem que sim, nem que não, apenas me olha entre as mechas caídas em seu rosto. Eu respiro fundo e dou o primeiro passo, tentando criar mais coragem do que eu já havia tentado algum dia na minha vida.

- me dá essa arma, vamos conversar com calma. Eu quero que a gente se entenda, que tudo isso se resolva e que ninguém saia machucado.

- ninguém saia machucado? – ela ri, achando que eu estava fazendo algum tipo de piada. – só você é quem vai sair machucado aqui, Arthur. Mais ninguém.

Outro disparo, dessa vez comigo mais perto, o que me faz pensar que seria certeiro, mas felizmente passando longe de mim, causando um estrondo ao atingir uma lâmpada e deixando o lugar um pouco mais escuro.

- merda! Eu preciso melhorar minha pontaria. – ela zomba, xingando a si mesma. Vejo que a cada segundo que passa ela fica mais descontrolada e parece que eu estou sem saída.

- Eduarda, não! – a voz de Gustavo ecoa atrás de mim, então eu me viro, vendo-o em pânico, descendo as escadas rolantes quase correndo.

- opa opa opa, vai com calma aí, chefinho! – Duda rosna, apontando a arma novamente pra mim, então eu fico parado entre os dois, vendo Gustavo chegar na plataforma e parar, na base da escada, analisando a situação.

- olha quem resolveu se juntar à nós.

- Duda, abaixa essa arma, por favor.

- abaixar? Por que eu deveria abaixar?

- porque você vai acabar fazendo bobagem. – ele tenta, dando um passo à frente, com os braços pra frente tentando apaziguar o momento.

- eu tentei avisar ele, tentei falar pra ele ficar longe do nosso caminho, mas ele não ouviu!

- Duda, por favor, se você machucar ele, você vai acabar me machucando também. É isso que você quer?

Ela parece ter um estalo em sua consciência, mudando sua expressão e ficando um pouco mais seria.

- machucar você? Não, claro que não Gus. Eu nunca te machucaria.

- então! Viu? Se você fizer alguma coisa com o Arthur, vai doer em mim, porque eu gosto dele. Deixa ele ir embora, o seu assunto é comigo.

- Gustavo, não...

Ela para pra pensar um pouco, encostando a arma em sua boca e olhando pro teto, fazendo a antecipação me corroer por dentro. O que essa louca está pensando?

- sabe o que é, Gus, eu já fui longe demais. Agora que eu to aqui, preciso ir até o fim. – ela diz calmamente, voltando a apontar a arma em minha direção e apertando a trava de segurança, deixando a pistola pronta para me acertar a qualquer momento.

- Duda, abaixa essa arma! – eu peço, a voz alta, então ouço outro disparo, fazendo eu andar pra trás.

- você não tem a droga do direito de dizer o que eu faço ou deixo de fazer, Arthur! Lembra que sou eu quem está com a arma? Eu é quem decido as coisas por aqui, então é melhor você calar essa sua boca! Porra!

Ela fica trêmula novamente, a raiva transparecendo em cada poro de seu corpo, então eu fico calado. Acho que nem quando eu estou correndo perigo de vida eu consigo fechar a minha boca.

- agora deixa eu pensar, pra onde poderíamos fugir? Dizem que Paris é a cidade mais romântica do mundo. Que tal nos mudarmos pra lá? Hein Gus? O que me diz?

- Eduarda, a gente não vai a lugar algum.

- quem sabe Londres? Ou Lisboa? Seus pais vão adorar me ter como nora, nós seremos a família perfeita! Pensa só como nossos filhos serão lindos... – ela vislumbra, olhando pra Gustavo, os olhos em um brilho amedrontador. – quer saber, não interessa o lugar! Seremos felizes em qualquer cidade, desde que estejamos juntos. É uma pena que o Arthur não vai viver pra ver isso.

Vejo-a se aproximar mais ainda de mim, fazendo com que o disparo fosse impossível de desviar de mim. Tomo uma última respiração antes de fechar os olhos, pra ao menos me poupar de ter em minha mente a lembrança de Eduarda atirando em mim.

- não!

O grito de Gustavo retine pelos quatro cantos, logo depois seus passos barulhentos se aproximando de mim, então eu ouço o gatilho falhar e logo depois eu estou no chão, embaixo de Gustavo, que havia me derrubado violentamente tentando me salvar do tiro. Quando ele vê que a arma havia falhado, ele se levanta e corre sedento até Duda, derrubando-a com ainda mais força no piso da plataforma, mas dessa vez com uma força bruta, propositalmente violenta, enquanto ela grita ao bater com o corpo no piso gelado.

- não! Sai de cima de mim!

- Arthur, chama a polícia!

Eu confirmo com a cabeça, ainda zonzo, enquanto vejo ela tentando se livrar dos braços de Gustavo, já desarmada, com a pistola jogada a alguns metros de distância.

Quando eu saco meu celular do bolso, vejo os policiais no topo da escada, correndo em nossa direção, me fazendo soltar um urro de alívio. Eles correm até Gustavo, enquanto Duda ainda tenta desesperadamente se soltar de seus braços pra fugir, mas a polícia logo a contém. Depois que eles assumem, vejo-os pressionando ela contra o chão fortemente para poderem algema-la. Enquanto isso, sinto uma enorme vontade de chorar, quando percebo tudo o que acabara de acontecer. Eu quase morri, quase que Duda consegue fazer o que queria.

Enquanto um dos homens apanha o revólver do chão e coloca dentro de um saco plástico, vejo Eduarda ser levantada do chão e ser conduzida pelos policiais até as escadas do canto, as quais eu havia tentado subir antes. Olho uma última vez para Duda, sua expressão de derrota se misturando com raiva, e assim que nossos olhares se cruzam, eu permaneço olhando pra ela, surpreso com a minha atitude, pois tudo o que eu consigo sentir é pena. Como alguém consegue chegar a esse ponto? O que a obsessão e a falta de controle fazem com uma pessoa?

Só então que eu vejo Gustavo de pé ao meu lado, os olhos tensos e carregados de preocupação, então em outro segundo ele está me puxando para seu peito, uma das mãos encaixada em minha nuca, me trazendo um pouco de calma depois de todo esse caos.

- já acabou. Já foi.

- você é louco. Ela poderia ter atirado em você aquela hora.

- eu não deixaria que ela fizesse algo que te machucasse.

- mesmo que isso colocasse a sua vida em perigo? – eu replico, um tanto amuado.

- sem dúvida nenhuma.

Eu me desvencilho dele parcialmente para lhe olhar, então avisto seu par de olhos castanhos brilhando pra mim. Pela primeira vez na noite eu sinto que estou seguro, então consigo afrouxar minha cara tensa e lhe tentar um riso tímido, que ele acaba retribuindo, fazendo toda a confusão de agora a pouco parecer um pouco menos grave do que realmente havia sido.

- dessa vez eu posso te levar pra minha casa?

- você é insistente... – eu digo, mas já avaliando sua proposta e achando uma ideia boa. Não sei se passar a noite sozinho com meus problemas é algo que eu ainda queira fazer.

- se você for eu deixo você ficar com a parte maior da pizza de chocolate.

- pizza de chocolate?

- e algum filme, pra distrair. O que me diz?

- contanto que não envolva armas ou cenas de ação, por mim tudo bem.

- acho que uma comédia cai melhor. – ele brinca, então me planta um beijo antes de sairmos dali e começarmos nossos esforços pra deixar esse dia no passado.

Comentários

Há 2 comentários.

Por Diva em 2017-06-18 23:11:14
Nossa! Fiquei com medo da parte que eles estão indo pro trem ate Duda ser presa 😨😨😱😱 muito bom soube causar tensão e amor ao mesmo tempo
Por edward em 2017-06-18 03:40:02
Nossa que tensão! Tô amando a história!