17. Lobo em pele de cordeiro, cordeiro em pele de lobo

Conto de Luã como (Seguir)

Parte da série Proibido

O final de semana havia passado voando e eu nem havia me dado conta. Já é segunda feira de manhã e o sol se mostra insistente, mesmo com um céu cheio de nuvens e com o clima levemente frio. Apesar de estar fazendo uns 17 graus, eu na verdade estou com calor, já que estou ajudando a arrumar os cestos de chá e de verduras da entrada da mercearia. Carrego um cesto de palha recém abastecido com erva doce até os caixotes da porta, onde há outros cestos com capim cidreira e hortelã. Algumas pessoas passam pela calçada rachada e observam as caixas de madeira com laranjas, recém tiradas do caminhão e colocadas nos degraus, como meus pais fazem toda segunda feira. Sinto meu celular vibrar dentro do meu bolso, então saco-o e vejo uma notificação de mensagem.

"Bom dia, menino Arthur! Planos para o almoço? Meu intervalo começa daqui a quinze minutos e eu não queria comer sozinho. Aliás, talvez depois a gente podia passar lá em casa e você dar um oi pros meus pais. Eles não param de perguntar por você desde que eu disse que você está na cidade. O que me diz?"

Sorrio e sinto uma pontada de culpa por querer ir e deixar meus pais se virando sozinhos,mas eu quero muito dar uma volta, ir até o centro, além do mais, a ideia de ver seus pais me anima. Faz tanto tempo que eu não vejo André e Fabiana, que eram como meus segundos país que eu sinto uma saudade ainda maior só de pensar. Parte de mim também diz que eu quero muito ver Henrique, mas eu sinto que isso talvez seja algo precipitado, ainda mais que toda vez quando eu penso nele ou vejo ele, Gustavo me assombra tanto em pensamento quanto em sentimento.

- Arthur, ajuda aqui a pegar umas coisas! – meu pai grita lá de dentro, felizmente me tirando de meus pensamentos. Chego até a porta do fundo da loja e o vejo carregando uma pilha de sacos de carvão para churrasco.

- pega o resto ali dentro.

Entro no corredor e vejo que só restaram três sacos, o que facilita ao poder levar em uma viagem só.

- o senhor levou quase tudo sozinho. Vai com calma aí. – Brinco com ele enquanto o sigo até a parte onde ficam os sacos de carvão, no corredor dos refrigerantes, enquanto ele sorri.

– pai, tava pensando, você e a mãe se importam se eu sair na hora do almoço, por um tempinho? É que eu queria ir até o centro, almoçar em algum lugar, dar uma volta e talvez ver os pais dele... – vejo meu pai fazendo aquela cara de quem sabe que há segundas intenções, enquanto ajeita os sacos no chão, os pingos de suor já brotando de sua testa, então desisto de tentar explicar. – pai, não olha assim não. Eu só quero ir almoçar com ele. E talvez ver o André e a Fabiana.

- tá bom, eu sei. Claro, almoçar, centro, ver o André e a Fabiana. - ele repete, zombando. – pode ir sim.

- valeu.

Me apresso pra não me atrasar e fico feliz em poder pegar o carro dos meus pais. Até o centro o caminho é relativamente curto, então eu me distraio nos poucos minutos entre a minha casa e a oficina de Henrique olhando o comércio, as crianças saindo da escola logo na esquina, enquanto penso que tudo parece se encaixar muito bem por aqui. Parece que eu estou tendo meu momento de tranquilidade e até estou me vendo como alguém daqui novamente, longe de toda aquela loucura de São Paulo.

Ao chegar na frente da mecânica, escuto o barulho das máquinas e do pessoal trabalhando. Além dos três carros com massa de reboco em alguns pontos aleatórios, estacionados na rampa, há mais dois sendo reparados dentro da garagem. Chegando na porta, Henrique, que está debaixo de um dos carros, percebe minha presença e se põe de pé, limpando suas mãos sujas em seu macacão e mostrando seu sorriso largo ao me ver.

- ei!

- oi. – eu respondo um pouco sem jeito e vejo que ele está me olhando de um modo diferente.

- não repara a bagunça, é que... você sabe né, sempre tem serviço.

- me parece a mesma coisa de quando eu ajudava você e seu pai nos finais de semana lá na sua casa, há uns bons anos atrás. Relaxa.

- ah é, eu tinha me esquecido que você gostava de graxa e tinta de carro.

- até demais. – eu sorrio e ele faz o mesmo, então lá está aquele olhar intimidador de novo. Pra quebrar o gelo, ele olha para o lado e grita para um de seus colegas, avisando que vai sair pra almoçar.

- vem comigo, deixa eu só lavar as mãos e trocar de camiseta, rapidinho.

Passamos pelos vários carros, uns sem as rodas, outros sendo soldados, até chegarmos em uma porta que leva até uma sala que parece servir de escritório e de refeitório. Há uma mesa com um computador no canto, um armário de metal, onde Henrique esta pegando uma sacola, e mais ao fundo uma geladeira, uma pia com um purificador de água, um armário pequeno com um microondas e uma mesa pequena para refeições. Me viro de volta para Henrique e o vejo sem camisa, com algumas marcas de graxa em seus braços fortes e algumas marcas de sujeira em seu abdômen, definido e com alguns pelos. Penso que talvez eu esteja olhando mais do que o normal é então pisco um pouco e desvio o olhar, torcendo para que ele não tenha visto.

- então quer dizer que você traz roupas limpas pra almoçar? Que vaidoso. – eu brinco, afastando a vergonha e a timidez.

- não, na verdade não. Eu trouxe hoje, pois eu sabia que almoçaríamos juntos.

- cê tá falando sério? – eu o encaro, incrédulo.

- sim, eu queria almoçar com você hoje. Só não sabia se você aceitaria ou não. Por isso eu até apelei pros meus pais na mensagem.

- você é muito confiante, pois eu nem tinha respondido se viria ou não. Vai que eu tivesse outro compromisso? – eu jogo, entrando em sua brincadeira de autoconfiança.

- na verdade, eu sabia que você viria. Pelo menos eu torcia que viesse. Então, aí está você. – Ele me olha e parece estar satisfeito por sua dedução estar certa, sorrindo no ápice de sua glória. Eu faço uma careta para que ele não se ache o tal, mas eu sabia que eu viria, sabia tanto quanto ele. Na verdade, desde que saímos no outro dia, eu esperava por uma mensagem ou uma ligação.

- bom, pelo menos eu sei que de uma escala de 0 a 10, minha nota é 11 em ser previsível.

- exato. Agora vamos comer, menino Arthur!

Nosso destino acaba sendo um restaurante do tipo buffet de comida colonial, a algumas quadras do seu serviço. Zombo de Henrique pelo tamanho imenso de seu prato, enquanto sentamos em uma mesa perto da porta.

- você não pensa em sair daqui de Prudente, algum dia?

Henrique me olha por cima daquele cerro de comida, então parece pensar bem no que eu acabei de perguntar.

- na verdade eu nunca parei pra pensar nisso. Mas quem sabe um dia?

- eu lembro que você me dizia que nunca sairia daqui. Sempre foi pé no chão, apegado com tudo daqui. Eu te admiro por isso, às vezes.

- admira?

- é, porque eu achava que você era muito novo pra dizer aquilo, tinha tanto pra conhecer por aí, mas depois que eu sai da casa dos meus pais eu percebi que as vezes voar pra longe não é assim tão fácil. Me admiro ainda mais ao ver que o seu pensamento não mudou, mesmo depois de tanto tempo. Geralmente as pessoas acabam mudando de ideia, mas você não.

- é, pode-se dizer que eu sou um pouco cabeça dura. Mas eu posso te visitar lá em São Paulo, algum dia.

Eu sorrio, vendo que ele ainda tem alguns traços fortes da nossa adolescência e parece muito com aquele típico homem de cidade pequena, que por um lado tem seu charme. Eu realmente não vejo Henrique desbravando o mundo por aí. Na verdade, isso seria até estranho, vindo dele.

Terminamos de almoçar e então ele acaba me levando pra dar uma volta em uma área rural, quase fora dos limites da cidade.

- você vai acabar se atrasando pro trabalho! E eu tambem. – eu o olho do banco do carona, vendo a luz entrar pela janela dele e iluminar seu rosto de lá pra cá, os olhos brilhando como água cristalina, os cabelos castanhos balançando com o vento.

- eu sei, mas ainda temos tempo. Relaxa aí, menino Arthur! – ele sorri e me olha, então eu balanço a cabeça em desaprovação e escorrego meu braço pra fora do carro, deixando-o dançar com o vento. As plantações na beira da estrada combinam perfeitamente com o céu limpo, agora com bem menos nuvens e sem nenhum sinal de chuva. O rádio ligado quase no volume mínimo deixa tudo mais calmo, então eu apenas me ajeito no banco e olho pra fora, admirando a vista.

Henrique estaciona na beira da estrada cercada de árvores e e eu tento reconhecer onde estamos, mas não me recordo de já ter estado aqui. Saímos e começamos a caminhar em uma trilha que nos leva até uma clareira, onde podemos ver toda a cidade de cima.

- caramba!

- é, eu sempre fico assim quando venho aqui.

- como você descobriu esse lugar? – às vezes eu saia por aí, sem rumo. Uma dádiva pra quem não tem muitos amigos. – ele bate seu cotovelo em meu braço, sorrindo.

- então eu descobri aqui. Sempre que eu preciso pensar, ou ficar sozinho eu acabo vindo pra cá. Me faz pensar em como somos pequenos, apesar de acharmos que somos grande coisa, sabe?

Eu o olho, um pouco confuso, então ele sorri e tenta explicar de novo:

- às vezes pensamos que somos o centro do universo. Temos nossas vidas, nossos planos, mas aí eu venho até aqui e vejo como nossas vidas são pequenas perto dos lugares que ainda não conhecemos. Lá adiante há tantas vidas corridas, tantos planos, mas ainda assim é tão pouco... Eu também te admiro, Arthur. Porque você é corajoso o suficiente pra seguir o teu caminho, mesmo que ele seja longe daqui. Eu sou feliz em Prudente, mas sei que nunca ter saído daqui não me faz um cara melhor ou privilegiado. Na verdade, acho que é bem o contrário.

- ei, também não é assim. Você gosta daqui, não tem nada demais em não conhecer lá fora. Cada um tem suas perspectivas de vida, isso não significa que uma é mais certa do que a outra.

Ele me olha e então eu sinto o clima mudar, ficar um pouco mais intenso. Seu olhar me deixa um pouco intimidado, então eu olho pra frente e observo a cidade ao longe.

- já estou com saudades de São Paulo.

- já quer voltar?

- não sei. Tem horas que sim, tem horas que não.

- por enquanto que você não se decide, vamos aproveitar aqui, certo?

Certo. – Eu o olho e o admiro por ter essa calma, essa facilidade em ver as coisas do jeito mais simples. Queria voltar a ter essa mesma simplicidade de Henrique, simplicidade essa que eu não deveria ter deixado nunca escapar, mas que por sorte eu sinto que estou começando a recuperar.

Já no caminho de volta, coloco os pés no painel e mexo-os no ritmo da música, enquanto tento manter meu juízo e penso que temos que voltar para os nossos afazeres logo. A verdade é que estar com Henrique sempre me faz bem, então o tempo acaba se tornando curto.

Já de volta na frente da oficina, me sinto um pouco triste ao ter que me despedir de Henrique. Estou parado ao lado do carro dos meus pais, enquanto Henrique está encostado de lado na lataria do carro, me olhando com os olhos estreitos por causa do sol.

- obrigado pela companhia. E pelo almoço, também. Eu gostei muito.

- eu também gostei. Na verdade, tem sido muito bom sair com você desde que você voltou, Arthur. Eu senti muito a sua falta.

- é, eu também senti a sua.

Henrique sorri de canto e se põe ereto novamente, caminhando até a metade da calçada e parando pra me acenar. Eu aceno de volta e entro no carro, seguindo de volta para casa.

Ao me aproximar da mercearia, sinto meu coração parar por uma fração de segundos. O Audi de Gustavo está estacionado bem em frente à porta, fazendo minha bile subir até o começo da minha garganta. Que droga é essa?

Estaciono logo atrás do carro preto reluzente e penso que seja apenas algum carro igual ao dele que esteja fazendo compras ou na mercearia ou em algum outro lugar, ou até mesmo algum vizinho com visitas, ou qualquer outra coisa no mundo, menos Gustavo aqui. Essa seria a teoria mais maluca do mundo pra se seguir, e se caso for verdade, eu penso seriamente que talvez a minha vida esteja um pouco confusa demais. Ando apressado até a porta, devido a ansiedade, então eu empalideço. Lá está ele, vestindo uma camiseta cinza escuro, calças jeans e tênis, não parecendo nem um pouco o gerente de camisa social e sapato que eu era habituado a ver todos os dias. Por um momento eu sinto minhas pernas ficaram bambas e a vontade de dar meia volta e sair antes que me vissem me tortura, mas eu decido ficar e ver que droga é essa que tá acontecendo aqui.

- Arthur! – minha mãe fala aflita, ao ver eu parado ao lado do balcão. – o Gustavo estava te procurando.

Então ele se vira e me olha, aquele par de olhos castanhos me encarando no fundo dos meus, parecendo que lê o meu interior.

- ah tava? – meu tom de voz sai violentamente irônico, então nossos olhos se encontram e é como um encontro de dois rostos tristes e magoados.

Um pequeno silêncio constrangedor se instala antes de minha mãe pedir licença e sair de perto, visto que a situação não era das melhores.

- então você veio pra casa dos seus pais. – ele começa, cauteloso, tentando disfarçar a tensão ao me ver, a mesma tensão que eu estou sentindo. – eu tentei te procurar a semana toda, fui até o apartamento, tentei te ligar, deixei mensagem... Então o Samuel disse que você foi viajar pra ver seus pais e que não tinha previsão de volta.

Samuel, seu cretino! Eu vou arrancar essa sua língua com minhas próprias mãos quando eu estiver em São Paulo!

- é, eu vim. E você, o que tá fazendo aqui?

- eu vim te ver, Arthur. A gente precisa conversar, conversar direito.

- a gente não tem mais nada pra conversar, Gustavo, eu já disse. – termino a frase quase sem ar nos meus pulmões, só por falar seu nome. Eu venho evitado falar ou até pensar nesse idiota desde que nos vimos pela última vez, mas ter que enfrentá-lo parece ser a minha sina.

- eu sei. Eu sei disso, e eu sei também que você tem todo o direito de estar com raiva de mim, mas eu não quis te magoar.

- você deveria ter pensado nisso antes de...

- Arthur, você esqueceu o seu... – Henrique entra e vê a situação tensa que estava acontecendo, então ele nos olha desconfiado, com meu celular na mão. – tá tudo bem por aqui?

- Henrique! – eu reajo, assustado. – tá, tá sim.

- e quem é esse? – Gustavo pergunta, o tom irônico e agressivo.

- sou Henrique, amigo do Arthur. Muito prazer. – Gustavo recebe a resposta automaticamente, o braço de Henrique estendido para um aperto de mão, mesmo que sua atitude não combine com seu rosto, que não é dos mais amigáveis. Gustavo não o cumprimenta, deixando-o com a mão pairando no ar, então abre seu sorriso de sarcasmo.

- vejo que você está muito bem aqui em Prudente.

- Gustavo, vai embora. – droga, isso não vai acabar bem.

- vai me dizer que esse é o babaca do seu ex namorado, Arthur?

O ódio nos olhos de Gustavo parece fuzilar Henrique, que está com os punhos fechados, a mandíbula fechada.

- então é por isso que você não me atende e nem me responde? Tá saindo com esse cara? – ele fala calmo, o tom de voz excessivamente educado e frio, como se quisesse me atingir de forma sutil.

- Gustavo, para.

- é, ele tá sim. Algum problema, parceiro? Que eu saiba, você não queria nada com ele. Mas no fim das contas isso foi até bom. Ele merece coisa muito melhor do que você.

- e essa coisa melhor seria você? – ele zomba, o tom desafiador.

- talvez, isso só o Arthur pode falar. Mas eu tenho certeza que eu não faria o que você fez com ele. Sabe por que? Porque eu sou homem de verdade, não um filho da puta que brinca com o sentimento dos outros.

Basta dizer isso para que Gustavo avance pra cima dele, empurrando-o contra a estante de madeira, derrubando alguns potes de achocolatado no chão, mas eu me ponho no meio dos dois, afastando-os um do outro e evitando a confusão que estava prestes a começar.

- ninguém vai brigar aqui dentro! Que droga! Gustavo, eu já falei pra você ir embora. E Henrique, obrigado por trazer meu celular, mas é melhor você ir também.

Os dois se ajeitam e se entreolham, a raiva parecendo estar palpável. Então, Henrique é o primeiro a sair, de forma brusca, um pouco antes de Gustavo me olhar decepcionado e eu sustentar seu olhar. Uma corrente elétrica percorre o meu corpo e eu sinto vontade de chorar. Eu já deveria ter me acostumado com isso, pois é sempre desse jeito quando eu o vejo.

- antes de eu ir embora, só me diz uma coisa. Você tá saindo com esse cara?

- o Henrique é meu melhor amigo de infância, Gustavo. Mesmo que eu quisesse, não aconteceria nada. Mas eu to saindo com ele sim. Pra tentar me distrair e me tirar dessa confusão que ficou na minha cabeça, depois que eu te conheci. E isso tá me fazendo muito bem.

Ele desvia seu olhar do meu e pela primeira vez eu o vejo decepcionado, sem sua casca grossa defendendo seus sentimentos.

- era isso que eu precisava saber. Fico feliz por você.

Ele passa por mim sem nem me olhar e sai pela porta, então eu me encosto no balcão, a raiva me fazendo ficar com os pensamentos em velocidade máxima. O barulho da porta do carro e do motor rompem o silêncio, então eu o escuto ir embora. Fecho os olhos e tento me acalmar, mas parece que é em vão. Minha mãe aparece na porta dos fundos, me olhando cautelosa, então eu me desencosto do balcão e me abaixo para recolher as latas do chão.

- tá tudo bem?

- tá sim, só teve um desentendimento entre o Henrique e o Gustavo.

- eu vi, filho. Eu me referia a você. Tá tudo bem?

Eu olho pra ela e minha expressão de choro não deixa esconder.

- ah, Arthur...

- não, mãe. Tá tudo bem. Eu só vou arrumar aqui e se você não se importar, vou lá pra cima. – eu a interrompo, antes que ela venha me abraçar e deixe tudo ainda pior.

- tudo bem. – ela entende que eu não estou afim de falar sobre o ocorrido, então entra em um dos corredores do fundo, me deixando sozinho. O barulho do meu pai arrumando as coisas no açougue denuncia que provavelmente ela foi falar com ele sobre o assunto e me deixa intrigado sobre ele não ter escutado a quase briga. Eu logo lembro da máquina barulhenta de carnes, então penso que felizmente tudo passou despercebido.

Depois de arrumar as coisas na prateleira, subo pra casa e sinto minha cabeça latejar. Como ele se atreve a vir até aqui e foder ainda mais com a minha cabeça? E ainda mais arrumar confusão dentro da mercearia, como se ele e o Henrique fossem dois animais descontrolados?

Entro em casa e sigo direto para meu quarto, e é lá que eu fico o resto da tarde. Depois de ver Gustavo, todo o meu esforço de tentar supera-lo caiu por terra. Com isso, me sinto ainda mais triste e exausto do que eu estava em relação a tudo isso antes de vir pra cá. Fico deitado de tênis e tudo, olhando pro teto e com uma das mãos apoiando minha nuca, deixando que meus pensamentos percorressem cada centímetro do meu cérebro e talvez me deixassem em paz, já que eu estou tentando há tanto tempo segura-los em algum lugar trancado e de nada adiantou. O meu breve encontro com Gustavo foi o suficiente para me despertar uma saudade que quase me tirou do juízo lá embaixo. Se eu não tivesse um bom autocontrole, teria corrido até ele e o beijado, assim que o vi falando com a minha mãe. Por que eu, meu coração e a minha cabeça precisamos ser tão estupidos? Por que ele precisa fazer tudo parecer que fosse minha culpa? Eu ter saído de São Paulo, estar saindo com Henrique pra tentar esquecê-lo, mesmo que não haja nada entre a gente a não ser uma amizade de anos? E é em meio a essas indagações que eu acabo adormecendo.

Quando eu acordo já é noite e meus pés estão sem meus tênis. Olho em volta e me sinto um pouco zonzo enquanto a briga de hoje mais cedo me faz pressionar a mão na cabeça. Meu celular toca, então eu me espicho até o criado mudo para pega-lo e então o número de Henrique aparece na tela. Hesito por uns instantes e penso que talvez seja melhor não atender, mas um impulso me induz a fazer o contrário.

- alo?

- ei, Arthur! É... Tudo bem?

- tudo, tudo sim. E com você?

- também! Na verdade, eu queria te pedir desculpas sobre hoje de tarde. Eu fui um idiota em ter me intrometido na briga de vocês.

- tá tudo bem, relaxa. – eu falo calmo enquanto me ajeito na cama, sentando mais na beirada.

- mesmo assim, queria te falar isso pessoalmente.

- como assim?

- vai na tua janela.

Me levanto e caminho até minha janela, então lá está ele, sorrindo com o celular na orelha.

- surpresa.

Eu dou um sorriso tímido e amarelo, ainda chateado por toda a situação entre eu e Gustavo, então desço até lá para encontrá-lo.

Caminhando na quadra debaixo de casa, andamos lado a lado na calçada, enquanto estou com as mãos nos bolsos em silêncio.

- a noite tá linda, né?

- é, tá linda. – eu confirmo, olhando pra cima.

- tá tudo bem? Ele te falou ou te fez alguma coisa depois que eu sai?

- não. Quer dizer, na verdade só a presença dele já me afasta, mas tirando isso, tudo tranquilo.

Viramos a esquina e chegamos na praça do bairro, onde há um escorregador, balanços e gangorras. Caminhamos pela grama até chegar nos balanços, onde o chão muda de verde e macio para cinza e barulhento, por causa dos cascalhos.

- vocês ficaram juntos quanto tempo?

- pouco mais de dois meses.

- é, foi pouco. Como vocês se conheceram?

- ele era meu chefe. – eu confesso, pela primeira vez falando sem rodeios, mas ainda sim com um pouco de vergonha.

- uou, Arthur! Safadinho. – ele brinca, me dando um soco no braço.

- pode acreditar, isso era o que eu menos queria. Só me causou dor de cabeça.

- eu imagino. E eu fico triste por vocês, você parece gostar muito dele...

- é, eu gosto. Infelizmente. – eu suspiro, sentido uma certa raiva de mim mesmo. No fim das contas, o cretino da história talvez até seja eu, por saber que isso não era boa ideia desde o começo e mesmo assim insistir nessa loucura.

- às vezes a gente gosta de quem não gosta da gente. É a vida, né? A gente vai tentando encontrar a felicidade ate achar alguém que nos mereça.

Eu o olho, então vejo que ele olha pro nada, o tom de voz melancólico revelando que ele não se referia apenas a mim e a Gustavo. Uma pontada de culpa me acerta no peito, pensando que talvez ele esteja gostando de mim.

- a vida às vezes é estranha, Rique. A gente tem que acompanhar o ritmo sem deixar a peteca cair, mesmo que as vezes pareça impossível.

Ele me olha e eu vejo a luz iluminar seus olhos azuis e brilhantes.

- obrigado por tudo, Rique. Você tá sendo uma ótima companhia pra mim esses dias. E um ótimo defensor, também.

- meu punho de ferro tá aqui para o que você precisar, parceiro! – ele fecha o punho e ergue a sobrancelha, brincalhão.

Ambos de nós rimos, então eu sinto que apesar de recém termos chegado, já é hora de eu ir embora.

- eu acho que é melhor eu ir. Eu não avisei meus pais que eu sairia, então provavelmente eles vão mandar o FBI me procurar quando eles verem que eu não estou em casa.

- tudo bem.

Já na esquina de casa, eu paro pra me despedir de Henrique.

- obrigado pelo passeio. Tava precisando me distrair um pouco.

- sempre que precisar, menino Arthur.

Eu sorrio de canto e sou pego desprevenido com um beijo na bochecha.

- boa noite. – sua voz é baixa e agradável, então eu o olho ainda surpreso com o beijo.

- boa noite.

Atravesso a rua e chego na calçada de casa, a porta da mercearia já fechada e as luzes de casa acesas, o que me diz que eu vou ter que explicar algumas coisas quando eu chegar. De repente, em um impulso quase que impensado, me viro e olho para Henrique, que ainda está parado no outro lado da rua:

- você tem hora pra chegar em casa?

- não, por que?

- vamos sair? Pra qualquer lugar, deve ter algum lugar aberto segunda a noite, certo?

Ele sorri, surpreso e contente.

- é véspera de feriado, com certeza deve haver alguma coisa por aí pra gente fazer.

- beleza, eu vou me trocar e desço em cinco minutos.

Por incrível que pareça, ao subir e ver meus pais na sala, não sou bombardeando de perguntas ou advertências por sair sem dar notícias. Apenas troco de camiseta, colocando uma um pouco mais apresentável pra sair e aviso que irei dar uma volta e que estou levando a minha chave, então penso que minhas atitudes inconsequentes são algo novo pra mim, mas que pelo menos agora são bem válidas e necessárias. Eu preciso sair e esquecer que Gustavo esteve frente à frente comigo hoje, me fazendo sentir sua falta mais do que nunca. Eu não posso sentir sua falta, não depois do que ele disse, não depois do que ele fez. Eu repito isso incansavelmente dentro da minha cabeça até encontrar Henrique no outro lado da rua, então seguimos para sua casa para que ele troque de roupa e pegue seu carro.

Nosso destino é um bar Gay Friendly perto do centro da cidade. Com uma fachada não tão convidativa, eu fico com um pouco de receio, mas logo me acostumo e acabo simpatizando com o público, que varia entre heteros tatuados e gays afeminados. Me sinto confortável e penso que a cidade acabou evoluindo muito desde que eu sai, o que é algo ótimo. Mal chegamos e Henrique já vai até o bar pedir duas doses de tequila para o barman que parece ter se apaixonado por seu belo par de olhos e seus braços fortes.

- aqui, pra começar bem nossa noite! – ele me alcança o copo, então tomamos a dose ao mesmo tempo, uma dose que faz minha garganta queimar e meu corpo se acender. As grandes janelas que se estendem a poucos centímetros do chão até o teto deixam tudo muito mais arejado, evitando aquele suor e aquela sensação desagradável de quase claustrofobia que lugares assim acabam causando. Descemos alguns degraus até chegar na pista de dança, num ambiente mais reservado e com ar condicionado, onde está tocando Into You, da Ariana. O ritmo da música por si só já me deixa animado, mexendo meus quadris e dançando de forma quente com os olhos fechados. Quando eu os abro, no refrão, vejo Henrique me encarando, os olhos parecendo estar acesos de desejo. Eu tento me manter inexpressivo e continuar dançando, pois eu não quero que nada aconteça entre a gente. Ele se aproxima por trás e coloca suas mãos em minha cintura, então começamos a dançar em sincronia, enquanto sua respiração está colada no meu pescoço.

- Henrique, melhor não.

- é só uma música, Arthur. Relaxa.

Eu fecho os olhos e então faço exatamente o que ele diz. Sinto toda a tensão dos meus ombros irem embora, enquanto eu me mexo e sinto seus dedos apertarem minha pele, seu corpo chegando cada vez mais perto do meu, até que tudo fica um pouco fora do normal e eu me afasto, evitando que a noite acabe se estragando.

- eu, hum, vamos buscar alguma coisa pra beber?

- claro. – ele diz, sorrindo. – deixa que eu pego.

Fico sozinho na pista e aproveito o resto da música pra dançar sozinho. Quando outra começa, Henrique está de volta com duas garrafas de cerveja, então levamos a situação com um pouco mais de calma, dançando um na frente do outro, sem contato físico, mas Henrique continua me olhando de um jeito diferente, feroz, necessitado. Ele definitivamente está afim de mim, mas eu não quero estragar as coisas entre nós. Será que podemos continuar nesse ritmo lento que estávamos até agora e assim evitar qualquer dor de cabeça?

Nossa noite continua seguindo com muita cerveja e eu me sinto cada vez mais desinibido. As musicas me fazem querer dançar cada vez mais e eu sinto meu corpo suar, mas eu honestamente não ligo. Porém, o álcool começa a me deixar um pouco zonzo e eu sinto que não estou firme em meus passos, ainda mais quando eu tento ir até o banheiro sozinho e acabo esbarrando em algumas pessoas.

- vai com calma aí, pe de cana. – Henrique envolve sua mão em minha cintura, me ajudando a chegar até o banheiro.

- não e pra tanto, vai. – eu me defendo, mas a minha língua pesada me denuncia. Dentro do banheiro, eu sigo tateando até o mictório e esvazio a bexiga, lavando as mãos e vendo Henrique rir do meu estado. Eu quero muito ficar bravo com ele, mas penso que talvez eu esteja realmente em uma situação bem confrangedora é só meu melhor amigo de infância e também Samuel poderiam rir de mim sem que eu ficasse zangado.

Já de volta na pista, volto a dançar com as mãos pra cima e sentindo cada batida da música vibrar no meu corpo, fazendo eu relaxar e me sentir realmente leve. Uma mão nas minhas costas faz eu abrir os olhos e ver Henrique encostando em mim, frente à frente, seu corpo quente e suado pressionado contra o meu, então eu sinto sua ereção roçar em minha calça.

- Henrique, não.

- Arthur, você sabe que eu quero você. E você sabe que também me quer.

- não, a gente não... Você é meu amigo. – eu tento, mas minha voz de bebado não me dá muita credibilidade.

- entao vamos só nos divertir essa noite, amanhã a gente volta a ser amigos, se você preferir.

- não Henrique, não é assim... – eu tento o afastar, sentindo que estou ficando tenso. Não era bem essa a ideia de "sair pra me divertir" que eu tinha em mente.

- vem, Arthur. Eu to louco pra te beijar, pra te ter só pra mim, desde que você chegou.

Sinto sua outra mão encostar em minha nuca e me puxar pra mais perto dele, pra um beijo, então I o empurro mais forte.

- não, Henrique!

- sai de cima dele, seu filho da puta! – ouço a voz de Gustavo, então tudo é tão rápido e confuso que eu apenas vejo Henrique caído no chão, as pessoas em volta olhando e então Gustavo me puxando pra fora do lugar.

- que droga e essa? Por que você tá aqui? – eu pergunto, irritado.

- não interessa, Arthur. Você prefere voltar lá e ficar com seu amiguinho bêbado e aproveitador? Não sei se você percebeu, mas ele tava te agarrando a força. – Gustavo rebate, irritado.

- e o que você tem a ver com isso? Me solta! – eu grito, parando no lugar e o encarando. – eu pego um táxi, pode ir embora.

- deixa de ser ridículo Arthur, eu vou te levar pra casa, sem discussão.

Me sinto uma criança de dez anos ao fechar a cara e seguir Gustavo até seu carro, um pouco abaixo do bar. Entro e sento no banco do carona, a raiva emanando de mim e me fazendo quase bufar. Ele me seguiu? Eu só consigo pensar nessa explicação para ele saber onde eu estava, bem na hora que eu precisava. E de todas as pessoas do mundo para me tirar de lá, Gustavo com certeza era a ultima que eu queria que tivesse o feito.

- agora você viu quem é esse seu amiguinho? Eu sabia que tinha alguma coisa de errada com ele.

Eu fico em silêncio, apenas torcendo para que o caminho até minha casa seja o mais rápido possível.

- você gosta dele, Arthur? Você gosta dele de verdade ao ponto de querer ficar com ele não fazendo nem um mês que estamos separados?

- ah céus, Gustavo cala a boca! Eu não queria nada com ele, só queria sair pra esfriar a cabeça.

- eu vi o jeito que você tava esfriado a cabeça. – sinto o veneno jorrar de sua boca, enquanto ele olha com raiva para a estrada.

- eu acho que eu não te devo satisfação de nada, desde que a gente se separou.

- você não me deve satisfação, mas nem por isso precisa encher a cara e sair com um tarado aproveitador, num bar de quinta e dar a desculpa de que faz isso pra me esquecer.

Suas palavras acabam me ferindo, como sempre. Mas dessa vez o álcool me faz ter a coragem que sempre me falta, pra rebater todas as ofensas que ele me faz engolir goela abaixo.

- sabe por que eu bebi desse jeito? Pra esquecer que você veio até aqui, de São Paulo até aqui, de carro, só pra me tirar do sério e fazer eu perder todo o meu esforço de tentar te esquecer, Gustavo! Você é um cretino, idiota, que não soube dar valor pra alguém que se importava com você. Eu tive que sair daquela droga de cidade porque eu tava me sentindo sufocado, querendo me rastejar até você mesmo sabendo que você não me queria. Foi pra isso que você veio? Pra ver o quão fodido eu estou sem você? Pra ver o quanto eu estou sentindo a tua falta? – eu despejo, piscando ora tentar afastar as lágrimas, mas sinto que é inútil. Elas já estão ali, caindo nas minas bochechas, enquanto eu sinto que acabei de colocar pra fora tudo o que eu precisava colocar. Um silêncio mortal nos inunda e até mesmo o motor silencioso do Audi parece ser barulhento demais pra mim.

- eu não quis te deixar assim. Eu vim justamente pra tentar consertar as coisas, Arthur. Mas aí eu vi aquele cara entrando na mercearia, falando aquelas coisas e... – ele pausa, franzindo o cenho. – você realmente me acha alguém tão ruim assim?

- não, eu não acho. Você foi uma pessoa maravilhosa pra mim nos meses que a gente ficou junto. Mas você acabou se transformando em alguém totalmente diferente, só pra me afastar de você.

- eu sei.

- se você sabe, por que você veio até aqui, Gustavo? Se você acabou de admitir que quis me afastar de você, porque você continua me ligando, vindo atrás de mim, me seguindo, tentando consertar as coisas e bancando o herói resgatador de mocinhos bêbados na noite?

- porque eu te amo, Arthur.

O que? Ah Gustavo, não.

O silêncio se instala entre nós novamente, dessa vez de forma ainda mais incomoda. Sua confissão parece ter lhe deixado desestruturado, pois ele nem ao menos consegue me olhar. Eu, ao contrário dele, o encaro e tento ver se o que ele diz é algum tipo de brincadeira. Mas não. Essa é uma das poucas vezes que vejo Gustavo vulnerável, visivelmente nervoso, então eu não consigo falar mais nada, me virando pra frente e deixando que fiquemos sozinhos com nossos pensamentos até chegarmos em casa.

Comentários

Há 2 comentários.

Por Dannnn em 2017-05-16 16:50:26
Gente... Espero que eles voltem a ficar juntos. Estou amando esse romance, espero que não demore o próximo capítulo.
Por edward em 2017-05-16 14:45:53
Nossa ... E agora ? Será os dois vão se entender ? Aguardo ansioso