Amor em Guerra - Capítulo 4
Acordei meio grogue, quando olhei pro lado meu pai sorria...
É estranho pensar que eu estou aqui agora, prestes a começar uma vida nova, ao lado de alguém que eu tanto almejei ter por perto... talvez não seja tão ruim assim ter um pai, talvez ele possa me aceitar de verdade. De uma forma em que a minha mãe e o meu padrasto nunca foram capazes.
Seu olhar sobre mim me transmitia segurança, afeto, carinho... por mais que a gente não se visse com muita frequência. Foi o bastante pra criar um laço forte entre nós.
ㅡ acordou bem na hora da gente descer ㅡ disse baixo ㅡ Vamos pegar as malas, o avião já vai pousar.
Eu abri um sorriso enorme quando ele disse isso.
Assenti com a cabeça que sim e ajudei ele pegar as malas. E quando eu olhei pra janela e "uuoou" que vista!
Era o Rio De Janeiro.
A cidade era mesmo maravilhosa, enorme e viva, bonita de um jeito que doía. Se o aeroporto já era assim, imagina o resto da cidade? Com certeza eu estou muito animado e pronto pra conhecer cada canto desse lugar.
O avião pousou e descemos logo em seguida com as nossas malas em mãos... fomos andando em direção à um carro preto que esperava a gente do lado de fora do avião, assim que chegamos perto do carro um cara saiu de dentro dele.
"Uuuoou, quem era aquele gato?"
Coração até acelerou.
ㅡ filho esse rapaz é o seu primo, Gustavoㅡ meu pai disse todo sorridente ㅡ ele vai levar agente até em casa.
Meu pai o apresentou e em seguida ele apertou a minha mão.
ㅡ olha, o senhor é o tal do Ricardo? ㅡ ele deu um meio sorriso ㅡ prazer. Como o tio Xandy (apelido do meu pai) já disse, me chamo Gustavo.
Apertei a mão dele e senti meu rosto esquentar.
Ele era lindo. Moreno, cabelo arrumado, orelha furada, olhos castanhos atentos. Corpo na medida certa. Uns vinte e três, vinte e quatro anos. Tinha cara de que sabia exatamente onde estava pisando e quem era.
Fiquei lá todo besta até meu pai quebrar meus pensamentos.
ㅡ filho tá tudo bem?
ㅡ sim pai, só tava pensando numas coisas aqui. Vamos? ㅡ respondi todo sem graça, eu com certeza encarei esse cara até parece un idiota ㅡ eu sou o Ricardo, como você pôde ouvir o meu pai dizer.
Retribui um sorriso todo sem graça.
Ele riu e entramos no carro. Gustavo não morava com o meu pai pelo o que eu entendi, ele tem o próprio apê só dele. Também sei que ele tem um irmão chamado Rafael, e que o pai não ligava muito pra eles dois. A mãe havia morrido no parto de Rafael, o que é triste só de imaginar... eu sinto muito por eles...
Chegamos ao nosso destino depois de uns trinta minutos, escutando o meu pai cantar todas as músicas da rádio, a casa do meu pai é um casão.
Meu pai é um arquiteto e também fazia web designer, por isso tanto luxo. Entramos e estavam três rapazes muito bonitos e um garoto sentado na sala que ficou me encarando com cara brava.
Acho que eu posso me acostumar com tanta gente gostosa nessa casa, eu fico até sem graça já que eu sou todo esquisito.
ㅡ ai Gus ㅡ o garoto disse com desdém ㅡ quem é o esquisito?
ㅡ Rafael, esse garoto é o nosso primo Ricardo ㅡ Gustavo pareceu todo sem graça, engraçado já que o esquisito à quem ele se referiu sou eu.
Ele mudou sua feição e fez um olhar diabólico, que me deu muito medo.
ㅡ aaah! Então ele é o dito cujo ㅡ ele se levantou devagar ㅡ vou adorar fazer amizade com ele.
Um frio percorreu minha espinha.
Eu não conhecia o Rafael, mas vi que meu inferno pessoal acabou de ganhar um nome.
Por mais assustado que eu tava eu não pude parar de reparar. Que garoto era aquele meu Deus, Se eu já tinha achado Gustavo bonito, Rafael era outra coisa.
Mais bruto. Mais perigoso, moreno, cerca de 1,80, corpo definido sem exagero. Estava sem camiseta, exibindo um tanquinho que parecia proposital. Os olhos… amarelados, iguais aos do irmão. O cabelo preto azulado, raspado dos lados, liso em cima. Sobrancelha e orelha furadas. Bermuda larga do Bob Marley, pulseiras no braço, descalço.
Ele parecia não ligar pra nada e isso assustava mais ainda.
Meu pai disse pra mim subir e descansar um pouco, perguntou quem podia levar as minhas malas.
Rafael se pronunciou na hora.
Claro que seria ele...
Subimos juntos em silêncio. Ele deixou as malas no quarto, sentou na cama como se fosse o dono do lugar e acendeu um cigarro, eu fiquei olhando ele com um pouco de medo, fiquei todo sem graça com essa atitude dele.
Ele percebeu o meu olhar.
ㅡ o que foi cegueta? ㅡ me encarou ㅡ perdeu algo aqui?
Eu não respondi. As vezes eu era muito mosca morta, e deixava me pisarem as vezes. Mas pra quebrar o clima eu tinha que fazer alguma coisa.
ㅡ começamos mal eu acho... ㅡ tentei ㅡ é.. já que somos primos. Acho melhor deixar os problemas e...
Ele me puxou pela blusa e me prensou contra a parede com força. O corpo dele colou no meu, quente, dominante. Ele se aproximou do meu ouvido e falou num tom assustadoramente calmo:
ㅡ olha aqui eu vou falar uma vez só ㅡ sussurrou ㅡ fica longe de mim! Eu sou muito conhecido e não quero um esquisito, um nerd como você manchando a minha imagem. Entendeu?
Assenti que sim com a cabeça tremendo.
Ele me soltou como se eu fosse nada... e saiu do quarto.
A porta bateu atrás dele.
O quarto ficou em silêncio, pesado. Minhas costas ainda queimavam onde tinham batido na parede, o cheiro do cigarro parecia grudado em mim.
Minhas pernas falharam e eu me sentei na beira da cama, tentando puxar o ar pros pulmões.
Foi aí que a lembrança veio.
Sem aviso.
O balanço leve do avião. O som distante do motor. A voz do meu pai.
ㅡ tem alguém que eu quero que você conheça melhor quando chegar…
Fechei os olhos com força.
ㅡ o Rafael.
Meu peito apertou do mesmo jeito que agora.
ㅡ ele passou por muita coisa, Rick… perdeu a mãe cedo, o pai nunca foi presente. Cresceu rápido demais.
Engoli em seco.
ㅡ ele não é fácil, eu sei. É fechado, meio explosivo às vezes… mas tem um coração bom. Só não sabe demonstrar.
A imagem do sorriso tranquilo do meu pai se misturou com o olhar frio que eu tinha acabado de receber.
ㅡ acho que vocês dois podem se dar bem.
Uma risada sem som escapou de mim.
ㅡ ele desenha às vezes, acredita? Talvez vocês tenham isso em comum.
Minha mão tremeu.
Eu tinha acreditado.
Tinha criado um rosto gentil pra ele antes mesmo de conhecê-lo. Tinha escrito o nome Rafael no meu diário como se fosse algo seguro.
Abri os olhos.
A parede branca à minha frente parecia mais estreita agora, o quarto não parecia um quarto, parecia uma jaula.
ㅡ você vai gostar dele… ㅡ murmurei, repetindo a frase do meu pai como uma piada cruel.
Passei a mão pelo rosto, sentindo o coração disparado.
Talvez ele fosse tudo aquilo que meu pai descreveu.
Talvez.
Mas naquele momento, tudo o que eu sabia... era que o garoto que eu tinha idealizado no avião não existia e que o inferno, como sempre, tinha começado com uma expectativa.
Minhas pernas falharam. Sentei na beira da cama, o coração disparado, a cabeça girando... tava tudo bem, pensei. Deve ser só uma fase.
Mas mal sabia eu que essa “fase” não ia passar tão cedo.
Que tolo eu era.