O Mundo Parou
Parte da série I Was Here
Estava entorpecido ainda com aquele misto de sentimentos, principalmente agora com o selinho roubado pelo Lucas. Louco, uma criança de 30 anos que estava mexendo comigo. Saí do baile de formatura, meus pais me deixaram em meu apartamento e seguiram para o hotel que estavam hospedados.
Eu pedi para ficar sozinho aquela noite, era última noite no meu apartamento, no meu quarto. Quantas e quantas madrugadas eu virei grudado na escrivaninha estudando para as provas, redigindo artigos e relatórios.
Quantas vezes eu chorei sozinho, achando que não daria conta de seguir com tudo aquilo, de lidar com a morte todos os dias. Não acreditava que eu conseguiria me manter forte até o final, mas eu consegui e esse ciclo estava findado.
Cheguei ao meu apartamento, tudo já estava embalado, minha mãe havia cuidado de toda a mudança. Foi quando o coração apertou, aquele medo de voltar para São Paulo novamente tomava conta de mim. Sabe aquela sensação de que não te cabe mais lá? Pois é, é o que sentia toda vez que eu visitava meus pais.
Coloquei a minha playlist pra tocar, e a primeira música que veio foi “I Was Here” do álbum 4 da Beyoncé. Quem conhece a letra dessa música sabe que é um mantra, eu amo muito. Faz parte da minha história, principalmente quando fala:
“I want to say I live each day, until I die
And all that I had something in, somebody's life
The hearts I had touched will be the proof that I leave
That I made a difference and this world will see
I was here
I lived, I loved”
Cara, não há nada melhor do que representar algo na vida de alguém, e na medicina o sentimento que você nutre pelos pacientes é transcendental, aquela história de que médico é frio, não sente, não chora e blábláblá é tudo mentira. Sentimos sim, nos envolvemos sim, choramos sim! Faz parte da nossa profissão. No entanto, devemos filtrar e expelir o que sentimos, sem expressar absolutamente nada para os nossos pacientes. Eu pelo menos sou assim.
No outro dia, logo cedo fui acordado pelos funcionários da transportadora que levaria minha mudança para São Paulo e pelos meus pais que os acompanhavam. Minha mãe, com a sua pontualidade britânica, já mandava e desmandava neles apressando-os para partir logo.
Tomei uma ducha, me troquei, tomei o café da manhã que a minha mãe trouxera da padaria próximo ao Hotel, me despedi do meu apartamento e saímos rumo a capital.
Seguimos em comboio, meus pai e minha irmã no carro deles, Fábio no carro dele, eu no meu e o caminhão de mudança logo atrás.
Estávamos próximo à Jundiaí quando aconteceu... o caminhão da transportadora havia perdido o freio e eu estava bem a frente dele, o motorista gesticulava para eu sair da frente, mas não tinha como, estávamos em trânsito intenso devido às obras em uma das vias.
E eu por não entender o que estava acontecendo, e fui desacelerando até se aproximar mais dele e entender o que estava acontecendo, foi quando o caminhão deu uma arrancada tão forte e o motorista conseguiu parar com o freio de mão, mas o meu carro foi atingido na traseira em cheio, e força do impacto me fez capotar na pista.
O mundo havia parado, meus pensamentos eram desconexos, a vida se passava em minha mente em uma fração de segundo. Eu estava morrendo? Tentei abrir os olhos várias vezes, mas foi em vão.
Havia muitas vozes, uma pessoa gritava desesperadamente pelo nome. Quem será? Calma, essa voz era da minha mãe! Mãe, calma eu estou bem! Olha só, eu consigo me mexer... eu não conseguia me mexer, um gosto de sangue inundava minha boca.
- Andrew, filho calma nós vamos te tirar daí! Alguém me ajude, por favor!
- Andrew, é o Fábio... pelo amor de Deus maninho, fica comigo! Não me abandona não, era por isso que você estava tão aflito ontem né? Mas eu te prometi que ficaria bem, vai ficar tudo bem maninho.
Uma sirene ecoava de longe para abrirem passagem, sentia como se a vida estivesse esvaindo pelos meus dedos, não entendia porque eu não conseguia falar que eu estava bem. De repente tudo ficou em silêncio, só ouvia o pulsar do meu coração. Eu estava perdendo os sentidos.
- Maninho, fica comigo... não me deixa Andrew! Andrew! ANDREW!
Eu não sabia em que dimensão eu estava, mas me sentia bem. Não havia mais dor, poderia sair pulando ali mesmo. Ao longe eu escutava uma voz muito familiar que sussurrava ao meu ouvido, parecia que estava chorando. Quem era dessa vez?
- Meu amor, o que aconteceu com você meu Príncipe? Você não pode me deixar aqui nessa Terra sozinho, eu errei com, você não sabe como eu me odeio todos os dias por ter feito aquilo com você. Volta pra mim, eu não consigo viver sem você. Andrew, eu te amo! Reage, eu sei que você está aí dentro lutando bravamente, reage meu amor.
Henrique...o que ele faz aqui? Já não bastava todo o sofrimento que me causou, ainda veio tripudiar da minha desgraça? Que vontade de te expulsar daqui, ridículo! Some, você me traiu, me fez de gato e sapato, e agora vem me dizer que está arrependido? Nem mentir sabe mais, se eu pudesse me mexer ou falar, te expulsaria daqui agora mesmo!
Esse cheiro era tão característico, eu estava em um Hospital e, pelo visto, estava na CTI cercado de eletrodos mensurando meus batimentos cardíacos e minha ventilação.
Ao longe ouvi a voz do Fábio discutindo bem baixinho com o Henrique.
- O que você está fazendo aqui, Henrique? Já não basta o que você fez com ele? Some daqui agora antes que eu chame meus pais e os seguranças do Hospital.
- Fábio, eu entendo o ódio que você tenha por mim. Foi a sua mãe que me avisou sobre o acidente, eu vim correndo pra cá. Eu amo o Andrew, Fábio, amo muito! Às vezes precisamos perder para dar valor a quem temos a nossa volta. E não está sendo diferente comigo, eu aceito não tê-lo como meu namorado, mas não aceito que ele morra. Eu sei que ele vai reagir, ele é forte, deve estar lutando pra sair dessa.
- Olha aqui Henrique, se você acha que me engana com essas tuas belas palavras e blábláblá, você está muito enganado. Eu quero que você saia daqui agora, e não volte nunca mais. O Andrew sairá dessa, e terá todo o apoio de quem ama ele de verdade, o que não é o teu caso. Vai embora!
Após isso, houve um silêncio ensurdecedor. Onde estão todos? O Fábio está aqui, mas cadê meus pais e a minha irmã? Me sinto elétrico, mas ao mesmo tempo tão exausto, um sono que não tem fim. Vou tirar um cochilo até alguém aparecer.
- Olha Sr. Otávio, o filho do Sr. sofreu um trauma muito grande na cabeça. O cérebro dele está bem inchado, ele está em coma induzido. Daqui a 5 dias nós vamos começar a diminuir a medicação para verificar como ele reage, mas já adianto para o Sr. que mesmo diminuindo a medicação, ele pode não acordar.
- Dr Rubens, faça o que tenha que fazer! Mas salve o meu filho, traga o de volta para nós. Ele é tão jovens e cheio de vida, ele não queria voltar pra São Paulo, nós que insistimos. Ontem ele se formou, ele é médico também. Foi uma festa linda, um momento único em nossas vidas.
- Eu imagino Sr. Otávio, não medirei esforços para ver o Andrew bem. Eu conheço a Dra Ianne que trabalhou com ele no Hospital Universitário, ela falou muito bem sobre teu filho, ele era bem visto por ela e por todos os médicos de lá. Acho que nos próximos dias eles enviarão um neurologista para acompanha-lo aqui junto comigo.
- Obrigado Dr Rubens, não tenho palavras para agradecer o que fazes por ele e por nós.
- É meu trabalho Sr. Otávio, agora tenho que ir ver outros pacientes. Mais tarde eu volto, vamos submeter ele a mais uma ressonância para verificar se o edema diminuiu. Eu particularmente presumo que sim, afinal, já fazem 7 dias que ele está sedado.
- Ok Dr, obrigado.
Como é que é? Eu estou aqui há 7 dias já? Mas o acidente aconteceu há poucas horas, não fazem 7 dias... meu Deus! Eu quero levantar daqui agora, estou bem... olhem pra mim, estou até mais gordinho eu acho. Gente? Fábio? Pai? Mari? MÃE!