Liberto
Parte da série I Was Here
Eu estava internado há 15 dias, o Dr Pacheco do HU viera acompanhar o meu caso junto ao Dr Rubens, ele era como um pai pra mim no HU.
Já não aguentava mais ficar deitado, mas ainda erámos apenas eu e a minha consciência tagarela, não conseguia me mexer, falar, ou abrir os olhos. Mas minha audição e meu olfato estavam intactos, ouvia e sentia odores que era uma beleza.
Sentia tão bem que percebi quando alguém entrou no meu quarto com um perfume igualzinho ao do Dr Lucas... ai Lucas, que falta você me faz! Será que você sabe que estou aqui? Desculpe não ter lido a tua carta ainda, nem ter enviado notícias depois daquele selinho, eu juro que era a primeira coisa que eu faria assim que chegasse em São Paulo, mas cá estou eu. Droga!
- Hey seu moleque, vamos levantar daí? Já passou da hora, vamos reagir! Eu sei que você consegue me ouvir, vamos... faça alguma coisa pra mostrar que está me entendendo.
Não acredito! Era ele, o Lucas estava ali comigo... com o mesmo cheirinho, ai que saudades Dr Gostosão. HAHAHA. Como eu vou me mexer? Eu não consigo!
- Sabe o que fez eu me interessar por você? Quando soube que eu iria supervisionar teu trabalho, e assumir posteriormente os teus pacientes, eu comecei a acompanha-lo mesmo que de longe, cada gesto, cada toque, o amor que você transmitia aos teus pacientes era lindo, não acreditava que você conseguisse ser tão cheio de esperança mesmo cercado de sofrimento. O ápice foi o último dia que você atendeu o Sr. Sebastião. Eu me emocionei com sua atitude em ceder o boné a ele, em ser tão sincero e esperançoso ao dar o diagnóstico a ele. Eu me apaixonei por cada pedacinho teu. E descobri que te amava quando você partiu! A Dra Ianne só foi me dizer o que havia acontecido com você ontem, até então eu não sabia de nada. Achei que estava aborrecido comigo por eu ter roubado um beijo teu, e que tinha ido para Londres sem ao menos falar comigo. Vamos Andrew, sai dessa cara! Me deixa cuidar de você, eu sei que posso te fazer muito feliz, reage por favor. Eu sei que você está preso aí dentro, só tente encontrar o caminho de volta.
Meu Deus, eu preciso sair daqui! Mexe dedinho, mexe... vai dedo! Olhos, abram agora! Por favor, eu prometo cuidar de vocês melhor com colírio quando eu voltar a vida normal, colaborem comigo vai. Eu preciso mostrar pra esse homem que eu estou aqui, vivo e ouvindo tudo o que ele diz! Preciso casar com ele, vamos corpo... colabora comigo!
Mas era em vão, nada do que eu fazia adiantava. Estava aprisionado ali, sabe lá Deus quando eu conseguiria sair.
Já haviam se passado 5 meses desde aquela visita do Lucas, e eu ainda estava aprisionado dentro de mim mesmo. Como não tinha noção de tempo, eu comecei a perceber que ele me visitava de 5 em 5 dias, presumo que eram aos finais de semana.
E toda vez era a mesma coisa, ele chegava, beija minha testa, segurava minha mão e dizia:
- Será que é hoje que você irá acordar? Sinto falta da sua alegria, do seu otimismo, do seu sorriso. Estou desacreditado já Andrew, estamos entrando no sexto mês já e você continua na mesma. Eu já não sei o que fazer pra te ter de volta meu menino.
Lucas se pôs a chorar igual a uma criança, aquilo apertou tanto meu peito, sentia que meu coração iria explodir, meus batimentos cardíacos entregaram que eu estava ouvindo ele.
E com os olhos marejados, uma lágrima rolou pelo meu rosto. Ao ver aquilo, Lucas gritava pelo quarto, cada vez mais alto:
- Ele me ouviu, meu amor está voltando para mim! Dona Sônia, ele chorou enquanto eu conversava com ele, seu filho consegue nos entender, esse é um grande avanço. Ele está voltando para nós, Dona Sônia.
- Se acalme Dr Lucas, meu Deus! Você ama mesmo o meu filho, não é mesmo?
- A Senhora não sabe o quanto, Dona Sônia.
- Depois dessa gritaria, eu não tenho mais dúvidas. Filho é a mamãe, meu amor! Você pode me ouvir então? Faz alguma coisa para que eu possa ver que você está me entendendo.
E num impulso, usei toda a minha força para mexer pelo menos um dedo para ela ver que eu estava ali sim. Foi quando eu consegui mexer o dedo indicador, minha mãe gritava e chorava mais do que o Lucas. Não sabia quem era pior, ele ou ela... descendentes de alemães e italianos, pensem no fuzuê que foi.
- Dr Rubens, ele se mexeu! Meu filho de mexeu!
- Que notícia boa, Dona Sônia! Vamos ver esse garotão aqui.
E ele acendeu uma luz dentro dos meus olhos que parecia o farol da Barra, quase me cegou!
- Tudo indica que ele está acordando do coma, vamos esperar como vai ser nas próximas horas.
Lucas dormiu na poltrona ao lado da minha cama, segurando minha mão como se eu fosse fugir dali. Eram 3h da manhã, quando eu consegui abrir meus olhos, meus movimentos estavam lentos, mas eu estava livre daquela prisão. Retirei a máscara do oxigênio que eles insistiam em me colocar, e tentei chamar pelo Lucas, sem sucesso na primeira tentativa. Tentei novamente e a voz saiu.
- Dr Lucas? Estou com cede, me dê um copo d’água.
- Vai lá pegar, moleque folgado.
Ele estava sonolento, não falava nada com nada, mas mesmo assim eu insisti.
- Sério que você vai me deixar com sede, seu maldoso!
- Andrew, está na geladeira! Para de fazer manha...Andrew? ANDREW MEU AMOR, VOCÊ ACORDOU DO COMA!
- Sim, e com sede! HAAHAHAHA
- Meu amor, você voltou pra mim! Que saudades desse sorriso, da sua voz...
Lucas alternava entre palavras nítidas e choramingo, confesso me deu uma dó ver aquele homem daquele tamanho chorando igual criança.
- Vem cá, Lucas “Apenas”... é a minha vez de te dar um abraço.