Ciclos
Parte da série I Was Here
Chamo-me Andrew, sou branco, alto, corpo normal como de qualquer outro jovem de 24 anos, tenho olhos e cabelos castanhos, que culmina em uma barba farta do mesmo tom com vários fios ruivos, presumo que esta seja a herança alemã que meu avô me deixara.
Dono de uma personalidade um tanto quanto forte, sempre fui muito reservado, sério, dotado de um silêncio ensurdecedor que muitas vezes era questionado se a minha presença em casa era ou não real, mas quando estava no trabalho, vestia uma amadura para não expressar meu estado de espirito aos meus pacientes, e não me envolver também com as histórias de vida deles, com isso tagarelava com eles sobre tudo. Essa é uma história real, mas visando preservar minha identidade, e dos envolvidos aqui, irei dosar com ficção sem fugir do contexto.
A vida nem sempre nos reserva aquilo que desejamos. No entanto, muitas vezes devemos deixar de lado aquilo que queremos e focar naquilo que realmente precisamos. A única certeza que me norteava naquele momento era que precisava me livrar daquele sentimento, daquela dor que insistia em me perseguir aonde quer que fosse. Acabara de sair de um relacionamento esmagado pelo peso de uma traição, e pensar que por um milésimo de segundo achei que me casaria com ele, doce engano.
Uma dúvida sempre pairava sobre mim, porque eu estava sentindo tanto a dor daquela separação? Oras, já passei por situações tão piores e nunca me deixei abater desta forma. O que havia de diferente agora? Amor? Como eu posso ainda continuar amando uma pessoa que me traiu?
E pior, tentando colocar a culpa em mim, julgando-me ausente em sua vida medíocre, enquanto eu tentava equilibrar todas minhas obrigações ante a ele como meu namorado, ante a Faculdade, aos meus pacientes, compromissos, relatórios, plantões. Em suma, abracei o mundo e segui junto a ele, mas ele não moveu um passo para me acompanhar, preferiu à mentira, omissão e traição à verdade para comigo.
E ante a esse furação de emoções, foquei nos últimos meses de faculdade, visando sempre a “liberdade” acreditando que esta me libertaria, e quem sabe talvez, devolveria o sorriso e a paz na alma que me fora roubados.
Estava no último ano de faculdade, em poucos meses me tornaria médico e o frescor da almejada liberdade já era tangível.
Meus planos depois de formado englobavam uma viagem pelo mundo, conhecer pessoas novas, experimentar culturas e sabores diversificados, precisava urgentemente colorir a minha vida novamente que desde que tudo aconteceu, tornará cinza.
Estava no plantão na Oncologia Clínica, quando ele chegou, Senhor Sebastião, nunca mais me esquecerei deste nome. Ele é um senhor com seus 70 anos de idade, forte, com o corpo um tanto torneado devido ao trabalho braçal na roça e uma lucidez invejável.
Ele havia sido internado devido à reincidência de um câncer que havia sofrido metástase. E como de praxe, fui examina-lo e conversar com o mesmo sobre a internação, a intervenção, tratamento e afins, a enfermeira já havia colocado o cateter para ele receber a quimio quando num rompante ele me questionou:
- Dr Andrew, essa nova medicação fará com que o meu cabelo caia? Olha, eu suporto tudo, exceto a queda do meu cabelo. Se o meu cabelo cair, eu não vou aguentar.
- Senhor Sebastião, essa medicação é para controlar o avanço do câncer do Senhor. O cabelo do Senhor irá cair sim, pra ser mais exato, no 12° dia é bem provável que o Senhor já esteja carequinha, mas não tenho dúvidas de que o Senhor ficará ainda mais charmoso. Um homem forte desse, com todos esses músculos definidos, vai lotar o quarto de Senhoras aqui para vê-lo, sem contar que fará a festa das enfermeiras aqui que juravam até apouco que o Senhor tinha 40 anos.
- Ora Dr, assim o Senhor me deixa acanhado!
- Não precisa Senhor Sebastião, o senhor já está famoso aqui no Hospital. Mas deixemos essa conversa de lado, vamos falar de coisa séria agora. Eu vou ser sincero com o Senhor, não vou fazer média visando acobertar a realidade só para que o Senhor se sinta bem embasado em uma mentira. O Senhor sabe por que está aqui, não é mesmo?
- Sim Dr, eu acho que sei.
- O câncer do Senhor voltou, agora ele está com metástase nos pulmões e no fígado. Essa nova medicação é para conter esse avanço, diminuir o tamanho dos nódulos para verificarmos a possibilidade de uma cirurgia para retirada dos mesmos. O estado do Senhor é delicado, mas descobrimos os novos nódulos precocemente, não tenho dúvidas que vencerá mais essa batalha. No entanto, conto com ajuda do Senhor em querer se ajudar também.
- Pode deixar Dr Andrew, eu seguirei a risca às recomendações do Senhor. E muito obrigado por ser tão sincero comigo, acredito que o Senhor fará o que puder por mim para que eu saia o quanto antes daqui.
- Não tenha dúvidas Senhor Sebastião, e pra mostrar que eu me preocupo também com a tua aparência, irei providencia um boné bem bonitão para o Senhor, assim quando os cabelos se forem devido à medicação, o Senhor não se sentirá tão desconfortável assim.
- Oh Dr, muito obrigado. O Senhor é muito gente boa mesmo, vou cobrar o boné viu?!
- Pode deixar Senhor Sebastião, vou pegar ali nas minhas coisas e já lhe entrego. Agora eu tenho que ir, qualquer coisa o Senhor pode chamar uma das enfermeiras que elas irão lhe auxiliar. Aliás, eu vou pegar o boné agora, hoje é o meu último dia aqui, me formo semana que vem, infelizmente não poderei acompanhar o Senhor até o final do tratamento, mas não tenho dúvida que o Senhor ficará em boas mãos.
Fui até o meu armário, retirei o meu boné da John John da mochila e voltei ao leito do Senhor Sebastião e para entregar. No meio do corredor, minha chefe no Hospital, Dra Ianne me parou e disse:
- Andrew, esse aqui é o Dr Lucas, ele é R3 aqui no Hospital e irá acompanhar teus pacientes de agora em diante. Como eu vou entrar em reunião, vou me despedir agora de você. Desejo muito sucesso em carreira, não tenho dúvidas que será um ótimo oncologista e nunca perca essa humanidade e generosidade para com os teus pacientes, o teu diferencial é exatamente esse, além da sua sinceridade gritante, é claro.
- Dra Ianne, eu não tenho palavras para agradecer todo o carinho, cuidado e amor para comigo. Sou grato pelos ensinamentos, pelo conhecimento adquirido, pelas experiências que pude vivenciar ao teu lado. Irei espera-la em minha colação de grau na próxima semana.
- Sem dúvidas eu irei Andrew. Agora preciso ir, meus olhos marejados já me entregaram até de mai. Até a próxima semana.
- Até logo Dra.
Eu estava tão comovido com aquilo tudo que precisei de um momento para me recompor, foi quando o Dr Lucas, que até então eu havia esquecido completamente que estava ali, me acordou dos meus pensamentos, dizendo:
- Andrew, está tudo bem?
- Está sim Dr, só irei sentir falta disso tudo. Mas é vida, preciso alçar novos voos, esse ciclo chegou ao fim. É hora e me formar!
- Com certeza, você é novo ainda, tem muito a viver ainda.
- Como se o Senhor fosse velho, né Dr?
- Estou com 30 anos, Andrew. E só vivo de trabalho, eu acreditava que quando chegasse aos 30 anos, eu ao menos tivesse uma família constituída. Mas cá estou eu, solteiro, sem vida, com plantão atrás do outro, ficarei pra tio mesmo.
Nós rimos de toda a situação, e seguimos para o quarto do Senhor Sebastião entregar o meu boné para ele, e para apresentar o Dr Lucas a ele, uma vez que era ele quem cuidaria do Senhor Sebastião agora.
Até então eu não havia reparado no Dr Lucas, mas com o breve relato dele, comecei a observá-lo. Ele era lindo, forte, um pouco maior que eu, com ombros largos, mãos fortes, com o penteado perfeitamente desenhado, e uma barba devidamente aparada que destacava seus lábios fartos, sem contar no perfume que exalava, 1 Million do Pacco Rabanne.
Sabe aquela sensação de borboletas no estômago? Começará a sentir... ai ai ai, não posso! Chegando no leito do Senhor Sebastião, entreguei o boné, apresentei o Dr Lucas a ele, me despedi de todos, peguei as minhas coisas e segui rumo a saída do hospital com a sensação de dever cumprido.
Estava quase chegando no meu carro, abri porta do porta-malas para guardar minhas coisas, quando ouço alguém me chamando, quando olho uma interrogação paira sobre mim.