Capítulo 1
Parte da série Camilo
Capítulo 1
O futebol nunca foi o meu forte – aliás, como os esportes em geral. Lembro-me, quando garoto, do tédio que sentia nas tardes dos fins de semana, quando algum jogo importante mobilizava meus colegas e me deixava em profunda solidão – que se estendia ao dia seguinte, quando discussões acaloradas sobre tal e qual jogada me deixavam à margem. Creio que foi por isso que, por volta dos 13 anos, descobri e me deslumbrei com a natação. A partir daí, pude me sentir à altura dos meus amigos: eu agora também praticava um esporte, como todo homem deveria fazer. Não era o futebol, mas era, sim, um esporte.
Adotei a prática da natação como uma rotina em minha vida, embora em algumas fases – algumas mais longas, outras passageiras – a tenha abandonado. E foi por causa da natação que conheci Camilo.
Eu praticava em um clube próximo à minha casa. Era um clube grande, bastante caro, mas eu não era sócio: havia um programa para uso exclusivo das piscinas por uma mensalidade razoável. As duas piscinas – a coberta, aquecida, e a outra, maior, nos padrões oficiais – podiam ser utilizadas todos os dias úteis em horários determinados (logicamente, aqueles menos frequentados pelos sócios). O vestiário, comum aos praticantes de todas as atividades físicas, era limpo e bem cuidado e, com o pagamento de um pequeno acréscimo mensal, eu tinha direito até a um armário privativo e serviço de toalhas. Todas as demais instalações do clube (exceto o bar) me eram vedadas, mas elas não me interessavam. Enfim, era perfeito.
Meu horário me permitia nadar após o trabalho, quando em geral estava caindo a tarde, já no finzinho do período permitido pela mensalidade que eu pagava. Depois de um ou dois anos de frequência, naturalmente fiz algumas amizades, mas nada realmente muito forte. Em geral, terminava o treino, tomava banho no vestiário e ia embora sem maiores delongas. Uma ou outra vez comi algo no bar. Como morava próximo, me abastecia das proteínas pós-treino em casa. Mesmo após a separação de minha mulher – quando deixei de contar com a cozinheira que me preparava um lanche tão frugal quanto balanceado –, preferia comer em casa do que no bar, mesmo tendo ele um cardápio bem interessante para desportistas.
Por alguma razão inexplicável, um dia dei uma atenção maior a um rapaz no vestiário. Não por atração física, mas por seu comportamento ter me intrigado. Nunca havia prestado muita atenção no que se passava em torno de mim no vestiário, mas o fato de ele entrar no chuveiro de sunga e carregando a toalha me fez observá-lo. Explico melhor: diferentemente de muitos vestiários, as duchas eram separadas por paredes, como que cada uma numa espécie de cabine sem porta. O arquiteto, talvez devido a alguma história homossexual mal sucedida (sabe-se lá...), tomou cuidados para que os usuários não se tocassem ou mesmo se vissem durante o banho, levantando paredes entre os chuveiros. Assim era, embora parecesse uma maluquice: se ninguém se via enquanto tomava banho, todos tinham que se expor nus antes e depois, como em qualquer vestiário, porque as cabines, além de não terem portas, não possuíam ganchos ou quaisquer dispositivos que permitissem pendurar sungas, toalhas ou quaisquer coisas. Só havia o chuveiro, a torneira e uma saboneteira de louça, embutida numa das paredes divisórias. Assim, os frequentadores pegavam suas coisas nos armários, colocavam no banco, frente à cabine que iriam utilizar, e entravam na cabine já nus. Terminado o banho, eram obrigados a sair para pegar a toalha e, naturalmente, secavam-se ali, junto ao banco, completamente nus – e, nos horários mais cheios, uns ao lado dos outros. Vai entender...
O vestiário consistia num longo salão com pé direito bem alto. Ao se entrar, havia uma antecâmara com duas máquinas de autosserviço: numa delas, os frequentadores pegavam sandálias de borracha para uso durante o banho; na outra, aqueles que pagavam por isso pegavam toalhas limpas, também mediante a digitação da senha. Ao lado, havia duas aberturas na parede para a devolução de ambas as coisas. Não havia funcionários para fiscalização, pois imagino que, dado o tipo de frequentadores, fossem raros os espertinhos que não fizessem a devolução na saída. Na parede em frente, havia um grande armário metálico com diversos nichos, semelhantes a estes que se encontram em aeroportos, para guardar as mochilas daqueles que não utilizavam os armários pagos. Cada nicho tinha uma chave presa à porta, que se abria quando ela era girada e que se soltava ao ser fechada. O sujeito, assim, chegava, se vestia para sua atividade física e guardava suas coisas ali, levando a chave presa ao pulso por um elástico. Ao retornar, engatava novamente a chave, tirava suas coisas e, fechando a porta, prendia novamente a chave.
Um portal separava esta antecâmara do vestiário propriamente dito, que era bem grande e consistia num salão comprido. Junto a uma das paredes ficavam as cabines, razoavelmente amplas, dispostas lado a lado. A parede em frente era tomada pelos armários individuais. Entre estes dois conjuntos, o longo corredor era dividido por um banco azulejado que ia de ponta a ponta do vestiário, com duas interrupções para passagem – bem distantes entre si, visto o comprimento do salão. Em geral, os frequentadores que dispunham de armário deixavam suas tralhas no banco, frente a ele, e ocupavam a ducha também em frente – o que, no fim das contas, significava que ocupavam sempre as mesmas cabines.
Camilo já estava ali. Eu chegava ao banco, próximo ao meu armário, quando ele entrou na cabine que ficava bem em frente, ainda vestindo a sunga e com uma toalha na mão. Era curioso, porque nunca vira alguém fazer aquilo. Imaginei que fosse um novato e que, ao constatar que não teria onde pendurar nada, fosse voltar. Teria ignorado o desenrolar da coisa se, para minha surpresa, não tivesse ouvido a água começar a cair. “Caramba, o que ele fez com aquela toalha?”, pensei eu. Não havia sequer como botá-la no alto das paredes divisórias, pois, embora elas não alcançassem o teto, eram muito altas. Ato contínuo, levantei a cabeça e olhei para o interior da cabine.
Do banco, vi que ele a prendeu na torneira, que ficava um pouco ao lado da direção da água que caía. Como o cara permanecia de costas, não me furtei a acompanhar o resto: ele rapidamente tirou a sunga, ensaboou-a, enrolou o sabonete nela e passou a utilizá-la como uma esponja. E assim se banhou: com movimentos cuidadosos para não molhar a toalha pendurada tão proximamente à água, se ensaboava com a sunga numa das mãos. Achei curioso e voltei a meus afazeres, já pelado, arrumando a nécessaire e minhas roupas sobre o banco. Logo entrei na cabine ao lado, de onde poderia vigiar minhas coisas, próximas à mochila que deduzi ser dele.
Parece estranho – e foi – eu prestar atenção assim no que fazia o rapaz. Não que eu ignorasse o prazer que o corpo de um homem poderia me proporcionar: minha primeira transa na vida, ainda adolescente, fora com um gay, e perdi a conta do número de viados que comi ao longo da vida. Mas sempre separei as coisas: para mim, vestiários não eram lugares para se procurar bundas, assim como homens não eram minha prioridade quando pensava em sexo. Os gays simplesmente apareciam no meu caminho, sem que eu precisasse buscá-los ou mesmo pensasse neles. Eles vinham, se revelavam com os olhares e, se havia oportunidade concreta, eu os comia. O fato de ser um cara bem apessoado, com um bom corpo e – sem dúvida, o mais decisivo – nunca ter me preocupado em disfarçar o volume entre as pernas (não sou exibicionista, mas se a natureza me deu essa vantagem, por que me dedicar a escondê-la???), isso tudo fazia chover viados querendo me dar a bundinha. Preferia os discretos, claro, mas algumas vezes encarei uns afeminadinhos – e confesso que, a sós, adorava quando o cara se liberava e virava uma mocinha nas minhas mãos. Algumas das minhas melhores gozadas foram com gays, reconheço, mas isso nunca me fez deixar de ter a certeza de que minha prioridade mesmo eram as mulheres.
Assim, não foi o interesse sexual que me fez despertar para aquele cara, mas ter acompanhado seus procedimentos bizarros – o que era fácil por ele ter ocupado uma área do banco bem próxima de onde eu havia colocado minhas coisas e, consequentemente, ter ocupado a cabine bem em frente a mim. Não demorou muito para que ele desligasse a água e voltasse ao banco, já com o corpo meio seco – e enrolado na toalha! Mais ainda: vestiu a cueca ainda com a toalha, numa óbvia dificuldade. Sempre de costas, finalmente jogou a toalha no banco e imediatamente vestiu as calças. Em seguida, calçou-se, guardou suas coisas, foi provavelmente pentear o cabelo, voltou, pôs a camisa, pendurou a mochila já fechada num dos ombros e saiu, com as sandálias e a toalha nas mãos. Tudo isto de costas, sem ter se voltado para mim em nenhum instante. Se não fossem tantos os cuidados para esconder a nudez, eu juraria que ele não havia me visto (o que, obviamente, era impossível).
Não, naquele momento não dei tanta importância assim àquela passagem, como está parecendo por esta narrativa. Apenas achei o cara esquisito e não pensei mais no assunto. Terminei meu banho normalmente e fui para casa, sem nem me lembrar mais dele. Na verdade, o que relatei só me voltou à lembrança alguns dias depois,quando o vi na piscina, e, principalmente, nos dias posteriores, quando notei que o via praticamente todas as vezes. Ele treinava no mesmo horário que eu. Mais tarde, soube que já há bastante tempo. Eu é que nunca notara, por não prestar mesmo muita atenção ao que ocorria ao meu redor. Como disse, embora sejam repletos de homens nus, nunca encarei vestiários como lugares de caça – e muito menos as piscinas. Aliás, nunca encarei lugar algum como local de caça a gays, simplesmente porque nunca me interessei em caçá-los: eles é que me procuravam e, quando convinha, eu topava.
Com o tempo, passei a observá-lo, por curiosidade. Mas a curiosidade acabou virando um franco interesse – e o franco interesse acabou virando tesão mesmo. Sim, ele era gostoso – muito gostoso. Tinha uma pele bem morena, num tom caramelo, que cobria um corpo esguio, embora ele não fosse propriamente alto. Calculo que, sendo um pouco mais baixo do que eu, deveria ter 1,78m (tenho 1,80). Não tinha uma aparência forte, mas era bem torneado, com a musculatura definida – talvez por conta da natação, talvez por ter pouca gordura, talvez pela genética de um corpo naturalmente longilíneo, ou, talvez ainda, como resultado da combinação disso tudo. Tinha poucos pelos – pernas, braços, costas, ele era todo liso, ou quase. Eu não olhava de tão perto assim, mas parecia imberbe – o que contrastava com as sobrancelhas escuras, bem marcadas embora não grossas, e uma cabeleira muito espessa, que ele usava curta, penteada pra frente, com uma franja bem rente à testa e costeletas discretas.
Era bonito – dono de uma beleza algo exótica, com um nariz muito bem feito, levemente arrebitado, proeminente, que encimava lábios finos muito vermelhos e um queixo masculinamente quadrado. Os cílios longos associados à pele imberbe, mais uma pelugem adolescentemente rala no peito, lhe davam uma graça algo juvenil, algo feminina, que quebrava na medida certa a virilidade do perfil desenhado pelo nariz e pelo queixo e do cenho constantemente franzido. Ele raramente encarava os que estavam ao seu redor, mantendo os olhos baixos, e era raro vê-lo trocar palavras com alguém. Não parecia ter mais do que 25 anos – depois, eu saberia que tinha 30. Havia ali uma curiosa – e atraente – mistura de raças. A pele talvez de ascendência negra, ou árabe; os cabelos grossos e lisos talvez indígenas – tais como os olhos oblíquos, quem sabe uma longínqua herança asiática; algo nórdico no nariz, nos lábios.
Seu ritual repetia-se no vestiário: só tirava a sunga dentro da cabine, onde permanecia sempre de costas, e de onde só saía enrolado na toalha, sob a qual punha a cueca. Inicialmente, conclui que era apenas tímido – uma timidez algo imatura, visto que éramos todos homens ali e ninguém parecia muito interessado em olhar o outro (ao menos, na minha percepção – vá lá - provavelmente distraída). Mas tanto refleti sobre isso, nas vezes em que observava discretamente o comportamento do cara, que conclui não ser bem isso. Afinal, ele tomava banho ali, mostrando o corpo nu, ainda que de costas. Não raramente, após pôr a calça, ele andava pelo vestiário sem camisa – inclusive atravessando-o de um lado ao outro, para devolver as sandálias e entregar a toalha molhada. E, afinal, ele fazia natação – creio que o esporte no qual mais se expõe o corpo!
Sim, era timidez, mas uma timidez muito específica: a timidez de expor o pau. Ele não escondia o corpo – aliás, acabava por expor especialmente a bunda, ao manter-se de costas: ele escondia era o pau. Melhor dizendo: apenas o pau!
Confesso que, ao chegar a esta conclusão – e demorei quase um mês de observação pra isso! -, fiquei fascinado. Pareceu-me algo tão infantil, de uma tamanha fragilidade, que, sinceramente, me encantou. Aquela mistura de virilidade e suavidade que seu corpo me transmitia agora se juntava à combinação de seu porte algo equino – sim, equino – com a vulnerabilidade de um macho que teme expor seu membro. No instante que pensei nisso, passei por um perrengue: meu caralho simplesmente endureceu em segundos – e se qualquer pau duro é difícil de ser disfarçado quando se está nu, mais ainda um como o meu. Mas não cheguei a passar vergonha: meu potrinho, como sempre, se mantinha de costas pra mim e o vestiário, como era habitual naquele horário, tinha poucos caras. Ninguém chegou a perceber – ao menos, foi o que me pareceu.
Sim, eu tinha passado a “secar” aquele sujeito. Buscava ser comedido, mas não escondia de mim mesmo que examiná-lo no vestiário tinha se tornado o ponto alto dos meus treinos. Nem sempre conseguia, seja porque nossa presença não coincidia nas duchas, seja porque ele escolhia uma cabine mais distante de onde estava meu armário (e, obviamente, eu não daria a bandeira de ir para uma ducha mais próxima, já que usava um armário pago). Na piscina, não conseguia acompanhá-lo muito. Afinal, ele ficava quase todo o tempo dentro d’água – assim como eu mesmo e praticamente todos os que estavam ali. Além disso, eu procurava ser especialmente prudente durante os treinos: o espaço era aberto, e havia uma boa quantidade de olhos para me flagrar olhando outro cara.
Mas no vestiário fui me dando conta de que não era necessária tanta discrição – principalmente porque meu alvo jamais me flagraria, visto que ou ignorava minha presença quando estava se arrumando, no banco, ou permanecia de costas durante o banho. Então, quando ele estava sob a ducha, eu tinha como observar generosamente seu corpo: a pele caramelo que parecia tão macia, a musculatura tenramente delineada, as costas largas nas quais se marcava a o desenho de sua coluna. E, sobretudo, a bundinha graciosa – pequena, mas saliente, lisinha, moldura perfeita para um cuzinho que eu imaginava tão delicado como aqueles mamilos saltados de seu peitoral moldado com brandura, mas ainda assim imponente pelos ombros largos. Sim, ele me dava muito tesão, e talvez pela primeira vez eu estivesse desejando não apenas um cu, mas um homem. Meter, meter, rasgar aquele corpo viril moldado com delicadeza, ver gemer na minha pica aquele cara de olhos baixos que tinha vergonha de mostrar o pau, apertá-lo nos meus braços enquanto o ouviria gemer baixinho pelo prazer de ser penetrado por uma boa jeba.
E eu pensava exatamente nisso, com o cacete à meia-bomba ainda sob a sunga, quando percebi que, enquanto ensaboava uma perna, seu rosto virou-se para mim e ele me olhou. Tinha sido pego no flagra.
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