Remember - Capítulo 3
Parte da série Surgery
Com suas mãos no meu pescoço ele me beijou, primeiro foi um selinho. Daí nós olhamos nos olhos um do outro e demos um beijo mais profundo, era cedo demais para dizer que eu o amava, mas eu não costumo beijar quem eu não amo.
Mesmo assim, o beijo era bom... Era ótimo... Eu lembro e bate saudade desse tempo, muita coisa mudou nesses cinco anos, de uma forma muito brusca... Oportunidades vieram a mim, e eu abri mão de muitas coisas.
É, bate saudade sempre que eu lembro... Lembro de como ele olhava para os meus olhos, lembro dele deixando sua língua livre e solta pela minha boca... Tudo foi bom, até um certo tempo e quando nós paramos o beijo, viramos nossos rostos para a direção da porta do salão e a coisa ficou feia.
É, nossos pais viram a cena, inclusive a Débora, mãe do Léo... Ela não parecia tão nervosa, mas Cláudio e o Daddy estávam préstes a explodir... Sérios e de braços cruzados, assim eles estávam, Daddy me encarava e fazia cara feia, Cláudio fazia o mesmo, só estáva com cara de que queria esmurrar o Léo. Fui esperto, olhei para o Léo e ele entendeu o quê a minha expressão queria dizer... O objetivo era responder tudo que eles perguntassem, de um jeito que tirou eles do sério rapidinho
- Não me venha com esse negócio de "Não é o quê você tá pensando", nunca funcionou - Disse Cláudio, que fez aspas com os dedos -
- Do quê iria adiantar papaizinho? Você já viu - Respondeu Léo que também cruzou os braços -
- Tinha que ser burro pra falar isso - Sussurrei e o Daddy voltou sua atenção para mim -
- Flinn De Santa Mo... Castro! Você tem idéia do quê você fez?
- E você tem idéia do quê você falou? Teve um pequeno corte na sua fala, e pelo o quê eu sei, meu nome completo não contém M! - Respondi, Daddy não fez nem falou nada, mas Cláudio olhou para ele, sua expressão não era boa -
- Léo, filho... Vamô pra casa e a gente conversa lá, ok? - Sugeriu Débora -
- É... Não! Eu não vou pra casa
- Vai sim! - Gritou Cláudio -
- Não, não vou! - Gritou Léo de volta - Dia 4 de janeiro eu fiz 18 anos e isso significa que pai nem um manda em mim... Eu escolho com quem quero ficar, com quem quero namorar, você não manda mais em mim... E idaí se eu for gay? Quem vai sofrer vai ser eu, quem vai ir pro inferno vai ser eu! Então poupe sua saliva, sua voz e vai tratar de problemas cardíacos e de transplantes por quê, dá minha vida, cuido eu... Só me deixa em paz, e aliás, homofobia é crime, dá cadeia... Vem Flinn, vamô embora daqui - Léo pegou na minha mão -
- Ah, claro... Vamos
- P-Pedro, você vai deixar?!
- Cláudio, apesar da situação ele tem razão, ele é maior de idade, escolhe com quem quer ficar - Falou Daddy, que parecia mais estar feliz do quê decepcionado -
- Vou deserdar ele, é isso... - Daddy o interrompeu -
- Não ia adiantar nada, Flinn tem uma boa quantia de dinheiro ds herança da mãe, ela poderia retirar esse dinheiro dele, mas infelizmente ela não está mas entre nós
- Pedro, sua mulher morreu? - Perguntou Débora -
- Sim, há dois anos... Metástase, melanoma grau 4... Um grande tumor atingiu seu cérebro e ficou inoperável... E sabe qual é a maior irônia?
- Ela era oncologista - Terminou Débora -
- Ela era oncologista... E amanhã faz três anos que eu a perdi e o meu maior medo é... E se algum dos meus filhos tiverem herdado esse câncer?...
É, iria fazer trés anos sem a minha Mommy... Era díficil, pois eu vivi a minha vida toda com ela... É quase ímpossivel superar... Mas ela me disse uma coisa antes de morrer, "O importante é seguir em frente, não fique para trás...".
Eu fui pra casa com o Léo, e fui dormir... O dia seguinte era uma quarta feira, dia 8. O dia amanheceu nublado... Daí eu fiz tudo que eu faço quando eu acordo, tomo um banho, escovo os dentes e vou tomar café... Mas dessa vez, depois do banho eu não fui tomar café, encostei minha cabeça na parede e me vieram memórias da minha mãe... Isso acontecia todos os anos desde que ela morreu... Comecei a chorar, chorar sem parar. O Léo acordou e viu que eu não estáva bem
- Eii, o quê foi? - Ele se sentou na cama -
- Hoje... Hoje faz três anos que a minha mãe morreu e nesse dia sempre... Sempre me vem memórias dela, mas só vem memórias de quando ela tava com o câncer
- Vem cá, senta aqui
Eu me sentei ao lado dele e ele pegou na minha mão e olhou nos meu olhos.
- Só memórias ruins?
- Só... E-Eu lembro de quando o cabelo dela começou a cair, de quando ela descobriu o câncer... Eu vi o cabelo dela cair, fio por fio e dói muito só de lembrar, quando ela descobriu o câncer ela teve um problema cardíaco, seu coração não iria suportar tantos procedimentos, daí, ela entrou pra lista de transplantes e ficamos um ano... Um ano esperando um coração e quando esse coração chegou, o tumor se expandiu bastante e não... Não... Não tinha como resseca-lo, ele tava enorme, virou um tumor inoperável. Eu vi minha mãe morrer lentamente, e eu preferia que ela tivesse caído de um prédio, pra ninguém passar por tudo isso e quando ela morreu... Quando ela morreu, o seu cabelo já tinha crescido denovo, ela parecia normal como antes... Só tava morta e essas memórias não me deixam em paz...Além de passar por tudo isso, ainda tenho que encarar tantas lembranças ruins e nesses momentos eu queria não ter essa maldita memória fotográfica, só pra esquecer tudo isso... Léo, se a minha mãe estivesse viva ela apoiaria nosso namoro,ela iria adorar você, se bem que... Nem conversamos sobre isso
Os olhos do Léo se encheram de lágrimas, assim como os meus. Ele não fez nada, apenas me abraçou e as lágrimas de nós dois não paravam de cair.
- Flinn, você não merecia passar por isso
- Minha mãe não merecia passar por isso Léo... E sabe qual é o pior?
- Eu sei... Não fala... Só me abraça
- Eu posso ter herdado essa metástase
- Falei pra você não falar... Agora fica quieto, my boyfriend...