O lugar perfeito
Parte da série Um passo para a felicidade
Parecia que somente eu havia dormido de verdade. Todos estavam em suas mesas comendo em silêncio e com expressões cansadas, o que era estranho já que entramos mais cedo na escola, por volta das 7h 15min, enquanto no acampamento os professores nos acordaram às 8h. Creio que todo o frio que estava no local e um resquício de uma névoa formada durante a longa madrugada que ainda pairava sobre o lugar era responsável pelo tédio dos alunos. Eu, ao contrario dos outros, preferia explorar cada pedacinho do lugar, que agora pela manhã, era possível ver com mais clareza o lugar.
- Anime-se Letícia, pense que hoje vai ser um grande dia – estava tão apática quanto qualquer outro ali.
- Fale por você que vai fazer o trabalho com o gato do Miguel.
- Mesmo que você não esteja animada por fazer os trabalhos temos uma festa hoje à noite. Imagina a bagunça que vai ser, mesmo que não sejam permitidas bebidas alcoólicas, pode ter certeza que alguém trouxe escondido – provavelmente seria muito divertido.
Eduardo que até então estava comendo em silêncio à minha frente olhou para mim surpreso:
- Desde quando você começou a beber?
- Desde hoje à noite Eduardo. Nem começa você que vive me dizendo que devo me soltar mais, curtir mais as festas da turma. – geralmente nas nossas festas eu sempre ficava parado numa cadeira ou em algum sofá olhando as pessoas dançarem como loucas, não é errado querer ser louco por um dia.
- E quem disse que você precisa beber – Agora ele estava me incomodando.
- Nossa Edu, qual o problema de beber só um pouquinho na festa, todo mundo faz isso e não vejo problema nenhum – enquanto falávamos, Letícia apenas observava com os olhos.
- Desarme-se Diogo, não estou dizendo que você vai para o inferno, mas caso você não saiba, quando bebemos, ganhamos uma coragem que nos faz fazer coisas que temos vontade, mas não temos coragem enquanto estamos sóbrios – Nisso ele tinha razão, mas era exatamente o que eu queria que me acontecesse.
- Meninos, por favor, não tornem meu dia pior do que ele já está – Letícia estava mais dramática que nunca nessa manhã.
- Verdade Let. E querendo ou não Eduardo, se rolar bebida nessa festa eu vou ser o primeiro a encher o copo e você nem pense de tentar me impedir.
- Ótimo Diogo, quero ver no que vai dar essa sua liberdade limitada. Depois não venha falar que eu estava certo, até porque disso já sei. – Ele parecia ter ficado chateado com a notícia, mas eu não podia agradar a todos. O chato é ter desagradado justo ele.
Após comermos fui à minha barraca para pegar alguns papéis, uma prancheta e uma caneta para começar o trabalho. Antes de sair, passei o repelente e conferi se havia comigo tudo o que ia precisar.
- Diogo? Você tá aí? – Ao sair vi Miguel parado olhando para mim com um sorriso bobo no rosto – Sim você está.
- Estou? – Eu estava embriagado com sua beleza – Quero dizer, estou... estou sim.
-Então, vamos começar a pesquisa? Eu já li os papéis durante a noite de ontem e parece que vai ser fácil só que vai ser um pouco longo também. – Cada palavra que saía da sua boca era como o som de uma lira perfeitamente afinada e suave.
-Façamos o seguinte, cada um copia uma parte do trabalho, assim não fica cansativo e terminamos logo. Mas é bom pensarmos juntos, aliás, duas cabeças pensam melhor que uma.
- Fale por você Diogo, porque minha cabeça não vale muita coisa – caímos na gargalhada quando ele falou isso, ele realmente tinha bom senso de humor.
- Que nada, provavelmente você está sendo modesto – estava sendo fácil conversar com ele.
- Não estou. Mas quem sabe ficar perto de você desperte o meu melhor lado. – Seus olhos estavam encantadores.
- Obrigado. Mas não sou um tipo de “NERD” – Minha face estava queimando como pimenta da Etiópia, provavelmente tão vermelha quanto.
- Agora você que está sendo modesto vai. Toda sala sabe que você é o mais inteligente, eu lembro até hoje daquele seminário sobre o renascimento durante a aula de história no segundo ano. – Eu estava incrédulo.
- Como você se lembra desse seminário?
- Na verdade é difícil de esquecer. Qualquer um, mesmo os que não gostam de história, ficaram encantados com a sua apresentação. –A cada frase que dizia era uma descoberta para mim.
- Estou surpreso por isso. Nunca que eu imaginava que tinha essa fama toda. E apesar de estar gostando muito da nossa conversa acho melhor começarmos. – Na verdade, eu estava me segurando, cada elogio era um resquício de esperança que eu não poderia alimentar.
- Você tem razão, vamos começar antes que o sol comece a ficar pior.
Começamos a andar em direção ao rio. E ele estava mais bonito que nunca: usava uma camisa branca um pouco apertada, mas nada exagerado, uma bermuda verde musgo, um tênis preto e um boné branco que o deixava mais moleque, e apesar de não achar essa ultima parte legal ele estava encantador. Aliás, era quase impossível que ficasse feio.
- Então Miguel, você pode ler o que vamos ter que fazer?
- Tranquilo, vejamos aqui. Certo, é o seguinte: “Cada dupla deverá coletar duas espécies de briófitas, duas espécies de pteridófitas, ou seja, quatro espécies de criptógamas. Sobre estas, deverá constar por escrito as diferenças e semelhanças entre cada uma, além de outras características que os alunos considerarem importantes. Além da atividade acima, deverão descrever quatro tipos de Angiospermas que se encontram na região, contendo características de cada uma. Será necessária a entrega de apenas um trabalho por dupla. Boa sorte.” Parece que é só isso mesmo.
- Da forma que você falou fica legal mesmo Miguel. – Agora eu entendia sua lógica – Vamos Coletar primeiro as criptógamas que ficam próximas ao rio e depois vamos olhar na floresta.
- Está vendo? Eu tinha razão nas duas coisas – ele me olhava vitorioso.
- Posso saber quais são elas?
- Claro. Primeiro: se seguirmos essa ordem vamos terminar um pouco mais rápido; segundo: ficar perto de você me fez ficar mais inteligente – ri com sua convicção.
A medida que andávamos falávamos mais sobre nossas vidas do que sobre o próprio trabalho, até porque era uma coisa bem fácil de fazer, sobretudo quando está com alguém como Miguel ao lado. Sempre falando coisas engraçadas. Apesar de perceber toda sua simpatia para com os outros na escola, nunca imaginei que ele seria assim com todos, é difícil de imaginar alguém que sempre está confiante e sorridente. Eu por exemplo, não era o ser da confiança.
Sempre tive certo medo da vida real. Gosto de ficar no meu quarto ouvindo músicas o tempo todo ou lendo algum livro. Festas não são o tipo de ambiente que costumo frequentar como quase toda a escola, até porque não me sentia muito bem com meu próprio corpo ou personalidade. Toda vez que me olho no espelho sinto que falta algo, minha magreza absoluta me incomoda um pouco e geralmente incomoda mais ainda as pessoas à minha volta. Meu nariz não é algo que eu goste, sinceramente, é maior do que eu preciso e isso me rendeu alguns apelidos durante minha infância, coisas como “tucano” ou “papagaio” eram bem comuns de serem ouvidas pelas pessoas que estavam próximas a mim.
Para piorar as coisas, eu não costumava andar com os meninos na escola, geralmente eles estavam ocupados me xingando de alguma coisa pejorativa. Também não andava com as meninas, pois não gostava de suas conversas, coisas como cabelo, roupas e maquiagem rolam soltas com meninas de escola e isso não me interessa nem um pouco. Nunca cheguei a apanhar de verdade na escola, até porque sempre soube correr. Lembro que a primeira vez que sofri preconceito foi no primário quando um menino da minha turma me chamou de veado por não participar das mesmas atividades dos meninos, eu nem sabia o que queria dizer, mas sabia que ele estava me falando de certa forma, que eu era diferente. Mesmo que eu não quisesse isso, eles sempre faziam questão de me mostrar como era diferente deles.
A situação só melhorou quando mudei de escola, e mesmo que os adjetivos e substantivos que se referiam a mim ainda continuassem, eram de menor frequência e não havia mais espaço em minha vida. Contudo, tudo isso deixou marcas em minha vida e até hoje enfrento alguns problemas com minha autoestima. Gosto sempre de ver o melhor lado da vida, mas nem sempre isso é possível.
- Algum problema Diogo? – Parece que eu estava viajando em meus pensamentos por muito tempo.
- Nenhum, o sol que está me castigando um pouco, achei que a essa hora da manhã ele ainda estaria “menos quente” – Apesar de não ser esse o motivo da minha repentina melancolia, suportar os raios solares estava desconfortável.
- Não seja por isso, pegue – disse retirando o boné de sua cabeça e estendendo-o a mim.
- Não precisa, daqui a pouco vamos para a floresta e não vou precisar de boné. – por mais que eu olhasse como um predador para o acessório, estava envergonhado para aceitar.
- Para de besteira e pega logo.
- É sério, quando formos à floresta não vou mais usar. – Isso de certa forma era verdade.
- Então, quando formos para lá você me devolve, mas enquanto isso você vai usar. – Agora já seria uma grande falta de educação minha recusar.
- OK, você me convenceu.
- Viu como não é tão difícil – sorriu novamente mostrando os dentes perfeitamente alinhados.
- Obrigado, depois te pago de alguma forma.
- Pode ser. Só que vai ser um pouco caro – Disse de forma irônica.
- Então vou ter que pagar parcelado. Pode ser Miguel?
- É, vou te fazer esse favor – Novamente caímos em gargalhadas, ele era absolutamente agradável.
Olhei para o lado e vi Letícia chegando como um cometa.
- Que cara é essa Let, por acaso não está conseguindo fazer o trabalho? – Sua face era de poucos amigos.
- Bota trabalho nisso, o problema nem é a questão das atividades, mas ter que ficar ouvindo o tempo todo uma cantada do Roberto.
- E qual o problema disso Let? Tenta relevar ué.
- O problema é que para cada nome de planta que ele fala, ele solta uma cantada de pedreiro, pode? Eu realmente mereco algo melhor sabe. Já está sendo um saco ficar aqui embaixo desse sol escaldante, sendo que eu poderia estar na piscina, ainda tem ele para ficar me falando besteira. – Não entendia como ela poderia falar isso tudo sem respirar.
- Então, você não acha melhor falar isso para ele de forma mais calma ou fazer o trabalho mais rápido para acabar logo com a tortura? – Letícia olhou para Miguel incrédula com suas palavras, ele realmente tinha esse dom.
- Acho que você tem razão Miguel, mas Diogo se ele continuar com essa palhaçada até o final do acampamento, eu vou amarrar uma pedra no meu pescoço e me jogar no rio.
- Calma que tudo vai dar certo. Qualquer coisa dá um grito que eu vou até vocês.
- Certo meninos continuem fazendo o trabalho de vocês. Eu vou voltar à tortura agora.
- Cuidado com o drama Let. – Ela andava de forma desengonçada quando estava estressado.
Miguel estava com uma expressão divertida no rosto.
- Ela é sempre assim Diogo?
- Só quando está com raiva, ou seja, quase sempre. Mas ela é uma excelente amiga, a melhor na verdade – e era mesmo. – Então você já pegou as Samambaias?
- Já agora só falta pegar as outras. Isso é animador – seu sarcasmo estava em alta.
- Ei, você disse que tinha uma irmã, certo? – Durante a caminhada estávamos contando algumas coisas pessoais.
- Sim, Mariana o nome dela. Ela é muito fofa, uma das coisas mais preciosas da minha vida. – O brilho em seus olhos era encantador – Você deveria conhecê-la quando voltarmos para a cidade. Você tem irmãos Diogo?
- Adoraria conhecê-la, e não, não tenho irmão. Minha mãe tem problemas para engravidar, os médicos disseram a ela quando ela engravidou de mim, que era uma sorte grande, quase um milagre.
- Você nunca ficou triste por ser sozinho, assim, filho único?
- Há muito tempo atrás sim, mas depois que cheguei a essa escola e conheci a Let, as coisas foram se resolvendo.
- Mas você nunca teve vontade de ter um irmão homem?
- Sim, mas além da Letícia eu tenho o Eduardo que é praticamente meu irmão – O rosto do Miguel que até então estava pacífico tornou-se rude e amargo o que me deixou desconfortável.
- Sei. Pronto, agora vamos para a mata pra terminarmos logo com isso. – Falar sobre o Eduardo o deixou com raiva pelo que pude perceber.
Depois que saímos da margem do rio, Miguel ficou todo o tempo sem falar, apenas quando eu fazia alguma pergunta ou então para falar algo sobre o trabalho e apenas isso. Toda essa esfera formada ao nosso redor estava transformando, até então, um passeio agradável em algo muito desconfortável, e creio que para ambos.
O silêncio estava me sufocando, achava-me culpado por essa mudança repentina de ambiente. Queria de alguma forma ouvir sua voz. Sempre fui afim dele, e quando tenho a oportunidade de coversarmos acabo estragando tudo. Parecia que dessa vez eu havia ganhado o atestado de burro do ano. Quando eu ia quebrar o silêncio, um som maior que minha voz foi propagado por traz de arbusto, foi suficiente para chamar nossa atenção. Não foi exatamente um rugido, mas o som de folhas mexendo com muita força. Foi suficiente para um frio percorrer minha coluna. Eu não era tão medroso, mas vai que sai uma cascavel ou coisa pior dali, cobras peçonhentas eram comuns no cerrado brasileiro. Miguel olhou nos meus olhos com uma expressão séria, e juntos fomos verificar o havia lá. Ele pegou um galho seco de árvore que havia no chão e fomos em direção ao arbusto com cautela. A sena a seguir foi muito rápida. Algo que parecia ser um tatu saiu correndo em direção à mata o que nos fez pular, literalmente, de susto. Miguel deu um passo para trás se desequilibrando e caindo em cima de mim.
Toda a cena havia sido muito engraçada, não parávamos de rir do nosso lado medroso, tudo estava tranquilo até percebermos a posição constrangedora em que nos encontrávamos. Eu estava com as costas sobre as folhas secas que haviam caídos das árvores há um bom tempo. Seus olhos me fitavam como se fosse a primeira vez que considerasse minha existência. Nossa respiração estava estranha, uma sensação totalmente embaraçada. Sua boca estava tão próxima à minha que foi difícil não beijá-lo. Podia jurar que todo o momento durou por anos, pois consegui notar cada detalhe. Seu peso sobre o meu corpo, suas mãos postas ao lado da minha cabeça. Suas pernas ligeiramente entrelaçadas com as minhas por causa da queda, seus cabelos bagunçados caindo sobre seu rosto perfeito. Eu gostaria de falar algo ou tomar qualquer atitude, temia não poder me controlar, e acabar por perder para sempre algo que nunca tive.
Ele se levantou de forma desengonçada, arrumando os cabelos e tirando algumas folhas que ficaram presas em sua bermuda. Eu como um retardado fiquei estirado no chão, sinceramente, eu desejei que uma árvore caísse em cima de mim naquele momento. Ele estendeu a mão para que eu pudesse me levantar o que me deixou com mais vergonha.
- Você está bem? – Me perguntou.
- Estou, só com algumas folhas no corpo, galhos e outras coisas – acho que falei algo engraçado, pois ele voltou a sorrir de forma meiga novamente.
- Sério? Eu caí... he... em cima de você, tem certeza que está tudo bem? – Ele voltara a ser doce.
- Está, obrigado. A nossa sorte é que ninguém nos viu. Seria o mico do ano pode ter certeza.
- Aposto minha casa que qualquer um teria ficado com medo. – Ele tinha razão – Primeiro o som das folhas e depois o silêncio completo.
- Verdade, só que prefiro deixar isso entre nós, pode ser Miguel? É que eu não quero contar nosso episódio “Pânico na Floresta” para o restante da turma – Novamente voltamos a sorrir como antes.
- Pode ser. Provavelmente é o melhor. Eles não iam entender o nosso momento.
- Então, acho que terminamos, agora é só passar o que escrevemos a limpo e esperar até amanha para entregarmos para os professores. Até que não ficou ruim.
- Óbvio que não Diogo, nós somos os melhores.
- Nisso você tem razão. Agora vamos voltar para tenda porque até os melhores precisam comer.
- Verdade, andamos por tanto tempo que eu nem vi a hora passar. – o sol já estava sob nossas cabeças, indicando provavelmente que já era hora do almoço.
- Vamos então.
Ao chegarmos, todos estavam comendo, por incrível que pareça já passavam das 11h. Quando nos aproximamos houve um silêncio absoluto nas mesas e todos nos olharam e isso foi o fim. Pelo que percebi até Miguel ficou constrangido com todos aqueles olhares. Até a própria Isabella me olhava de forma estranha e toda a simpatia que eu via em seus olhos quando falava com os outros desapareceu em instantes.
Sentei à mesa com meus amigos e Miguel foi para os seus. Senti um pequeno vazio por isso. Aos poucos a conversa foi ficando maior e finalmente esqueceram-se do ocorrido que até agora não havia entendido qual foi. É incrível como pequenas coisas podem chamar atenção das pessoas, mesmo sem nenhum motivo em especial. Depois que ocupamos nossos lugares, um dos professores veio falar comigo e avisar que da próxima vez não deveríamos ir tão longe, pois mesmo que tivessem guardas espalhados pelo local, era um lugar fácil de perder o caminho de volta. Quando o professor saiu Letícia me olhava com um sorriso gigante estampado na face.
- Por que você demorou tanto Diogo? Não vai me dizer que a floresta tem poderes afrodisíacos? – Finalmente seu humor estava de volta.
- Claro que não sua boba, nós estávamos fazendo o trabalho é claro. Só que você sabe que eu sou um pouco lento, aliás, eu concordo que a pressa é a inimiga da perfeição.
- Verdade, qualquer pressa é inimiga da perfeição – disse apontando para o Miguel – nossa, a Isabella está te olhando de uma forma que eu posso jurar que está saindo fumaça da cabeça dela.
- Eu notei isso desde a hora que cheguei aqui. Só não entendo o motivo para isso, nem chegamos a nos falar.
- Não é óbvio?
- Pelo menos não para mim Let.
- Ela deve estar com ciúmes de você com o “Boy magia negra” dela. – começando a rir instantaneamente.
- Você está louca? Claro que não, isso não tem a menor possibilidade.
- Vocês poderiam parar de falar besteira pelo menos na hora do almoço, por favor? – A veia temporal de Eduardo estava quase explodindo.
- Nossa, que temperamento é esse Eduardo? – Letícia olhava desconfiada.
- Desculpem-me, mas desde a hora que chegamos aqui, a única coisa que tenho ouvido vocês falarem é da porcaria desse Miguel, sinceramente já esta ficando chato. Como se não bastasse o calor.
- Eduardo! Eduardo olha para mim! Por que você tem tanto ódio dele? Eu te conheço a ponto de dizer que é algo muito forte. Mas sinceramente não sei o que é. – Eu realmente estava preocupado com a situação.
- Eu não o odeio Diogo. Mas é realmente chato ficar ouvindo vocês falando isso o tempo todo, como se só ele existisse. Vamos aproveitar mais o lugar, nós três.
- Você tem razão Edu – Ela levantou o copo descartável com refrigerante – vamos brindar.
- Letícia você pirou, vamos brindar a quê?
- Ué Diogo. Vamos brindar a nós três. Vamos vai ser legal.
- Pode ser – Levantamos os copos e brindamos.
Durante toda a tarde me ocupei em passar a limpo todo o trabalho. Combinamos que cada um ia fazer uma parte escrita do trabalho, mas depois que vi as letras do Miguel pensei melhor no assunto e preferi fazer sozinho. Quem já tinha terminado o trabalho estava dormindo em redes armadas em árvores ou liam um livro. Eu estava ansioso para a festa que ia acontecer durante a noite. Lógico que não tínhamos uma banda de Rock no lugar, mais umas fogueiras e alguns violões já eram o suficiente.
Finalmente a bendita noite chegou e algumas pessoas que eram responsáveis por cuidar do lugar ajudaram os alunos a construir algumas fogueiras perto do rio. O chato é que a piscina não ficou tão próxima o que a deixou praticamente vazia. Eu estava usando um uma camisa simples e uma calça, sei que usar calça num lugar como esse é estranho, só que mesmo com repelente, tinha certo receio de ser picado por algum inseto. Todos conversavam animadamente, apesar de ter mais de uma fogueira no lugar, todos estavam próximos a maior de todas e isso foi algo bem agradável.
A noite mal havia começado e eu já estava à procura de alguma bebida mais interessante, não havia muito a quem recorre e a única pessoa que eu sabia que com certeza teria algo era o Joaquim. Ele como eu já disse faz parte do grupo de amigos do Miguel. Levantei de onde estava sentado e fui a sua direção.
- Oi Joaquim.
- Fala Diogo – Pelo que percebi ele tinha o que eu queria, pois já estava levemente alterado.
- Qual a boa que você tem aí?
- Não vai me dizer que hoje você vai beber – estava surpreso com a ideia, até porque todos sabiam que eu não era muito de “encher a cara”.
- É bom sair da rotina. E aí, tem?
- Claro, isso nunca falta. É tipo um pedaço meu – Me permiti rir com o comentário.
- Você tem Tequila?
- Tenho, mas é bom você beber apenas umas duas a três doses já que você não é acostumado.
-Tudo bem, mas eu quero três doses.
O liquido desceu em minha garganta como facas, não entendi realmente como as pessoas conseguiam beber com frequência. Nessa hora eu desejei não ter bebido, mas se isso me colocaria para cima teria que aguentar. Depois que bebi voltei à fogueira e fiquei ao lado do Eduardo. Um pouco à minha frente estavam Miguel e Isabella de mãos dadas o que causou uma expressão de enjoo no rosto.
- Está tudo bem Diogo? – indagava Eduardo.
- Está sim, só a tequila que está querendo sair – não estava bêbado mais podia ser considerado um pouco feliz.
- Estou sentindo o cheiro, cuidado que se você ficar perto da fogueira pode acabar pegando fogo e explodindo – Seu sorriso era doce.
- Sério, eu estou cheirando a cachaça? – eu não havia bebido tanto assim.
- Não seu bobo, estou brincando contigo.
- Mas eu estou com cara de bêbado, tipo olho vermelho e tal?
- Não se preocupe você está lindo. Como sempre.
- Como? O que você disse? – Mesmo que ele fosse meu amigo, esse elogio não era comum.
- Desculpe-me. – a fogueira refletia sua pele vermelha.
- Não, não precisa se desculpar. Eu apenas não estou acostumado com comentários desse tipo – Aposto que minha face estava tão vermelha como a sua.
- Está bem. Vou ver onde está a Letícia – e saiu com passos rápidos.
- Espera... não me deixa aqui... sozinho de novo.
Ao Olhar para frente vejo uma cena nada agradável, Isabella estava beijando Miguel. Mesmo com os boatos que eles namoravam foi algo que fiquei surpreso e com muita raiva. Não é porque nunca vou ficar com ele que não quer dizer que não dói. Ver aquilo me deixou tão mal quanto qualquer outra coisa, e tudo girava em alta velocidade na minha mente. A única reação que tive foi sair de lá e fui para um lugar onde ninguém pudesse m e incomodar. Como a piscina estava afastada ninguém estava por lá e seria o ambiente perfeito para que eu colocasse as coisas no lugar.
Tirei meus sapatos e coloquei minhas pernas na água que estava muito gelada por sinal. Algumas lágrimas rolaram por minha face, nunca imaginei que seria tão doloroso ter a certeza que ele não pertencia a mim. Sinto alguém se aproximando e olho para trás, Miguel estava parado atrás de mim com uma aparência tensa.
- Desculpa, eu não sabia que ia ter mais alguém aqui.
- Tudo bem Miguel, pode ficar – falei limpando algumas gostas que corriam pelas minha bochechas.
- Por que você está chorando? – Ele veio em minha direção e puxou meu rosto.
- Não foi nada – desviei de suas mãos e voltei meu olhar para a água.
- Posso te fazer uma pergunta Diogo?
- Fique a vontade, apenas não sei se vou conseguir responder.
- O que você faria para saber se alguém que você ama há muito tempo, e não teve coragem de falar, também gosta de você? – essa pergunta era estranha.
- Não entendi. Pelo que todos sabemos, a Isabella te ama – isso era óbvio.
- Não é dela que estou falando, é de outra pessoa – falava enquanto olhava para o céu.
- Estranho porque agora pouco você estava aos beijos com ela – os espinhos estavam me agarrando agora.
- Na verdade foi ela quem me beijou, eu não poderia simplesmente empurrá-la – a cólera em seu rosto era evidente. – e você não respondeu a minha pergunta.
- Sinceramente Miguel – olhei em seus olhos – esta é a única pergunta que eu não consigo te responder.
Ficamos em silêncio por um bom tempo.
- Vamos entrar na água Diogo? – Essa pergunta me pegou de surpresa.
- Eu não sei nadar.
- Não se preocupa você pode segurar na lateral da piscina.
- Eu não sei se é uma boa ideia.
- Claro que é, vamos aproveitar que não tem mais ninguém aqui e por isso a água não está suja – Nisso ele tinha razão – Não sei por você, mas eu vou.
Ele tirou a roupa ficando apenas de cueca e pulou na água. Eu sabia que tinha que entrar também, só que tirei apenas minha camisa, minha calça já estava molhada mesmo. Daí tirei a conclusão que eu realmente estava bêbado, pois quando sóbrio jamais tiraria minha camisa para entra numa piscina.
- Olha só, você entrou! – Novamente com o sorriso bobo no rosto.
- Pois é, o chato é que não posso sair daqui, o máximo que posso fazer é contornar. – nesse momento ele mergulhou e levantou com os cabelos grudados no rosto.
- Você ficou muito sexy assim – disse da forma mais irônica que pude.
- Obrigado. Agora sai daí e vem até onde eu estou.
- Você tá ouço? Eu não sei nadar.
- Acho que tenho uma solução para isso – Mergulhando novamente e reaparecendo na minha frente.
- O que você vai fazer? – Eu estava começando a ficar tenso.
- Sinceramente não sei, mas sei que é o certo. – Ao terminar colocou seus braços em volta do eu abdome chegando ate a curvatura lombar nas minhas costas.
Senti-me seguro a ponto de poder soltar-me e deixar que ele me guiasse.
- Está vendo não é tão difícil assim. É até mais fácil que parece. Estávamos tão perto que pude sentir seu hálito doce batendo em minha face.
Coloquei meus braços em seus ombros e me permiti viajar como numa valsa lenta e prazerosa. Fechei meus olhos e senti seus lábios encostarem-se aos meus de uma forma delicada e suave. Seu beijo era gentil e forte ao mesmo tempo, uma sensação indescritível. Abri os olhos e vi os seus que estavam faiscando, me encarando como um gavião encara sua presa nas alturas. Quando ele fez a menção de se desculpar eu voltei a beijá-lo. Podia sentir cada parte da sua boca, a cada toque seu em meu tórax eu sentia espasmos de prazer me consumindo. Aos poucos, fui conhecendo cada pedacinho de músculo do seu corpo, seus braços que me prendiam como correntes, enrolando seus cabelos molhados em meus dedos. Estava ficando sufocado com o beijo molhado, contudo queria mais.
- Eu nem acredito que isto está acontecendo – ele disse quando finalmente separamos nossos lábios. – Parece um sonho.
- E se for? – Me permiti perguntar.
- Então não quero acordar nunca mais – Voltamos a nos beijar.
Nem mesmo o perigo eminente de ser pego a qualquer momento fez com que eu resistisse aos seus toques. Paramos novamente e ele volta a olhar nos meus olhos.
- Eu posso ir para a sua barraca mais tarde?
- Como? – Estava surpreso com a pergunta tão repentina.
- É porque meus amigos entram com muita frequência na minha.
- Pode ser... então.
- Perfeito. É melhor sairmos antes que alguém apareça – Disse com um sorriso malicioso nos lábios, mostrando seus dentes brancos como as estrelas.
- Então até mais tarde – Eu ainda estava atordoado com o momento.
- Até. – Disse me dando um beijo rápido.
O vi saindo com os cabelos ainda molhados, ainda vestindo sua camisa, mostrando suas curvas esculpidas pelos deuses. Terminei de me vestir e fui em direção a minha barraca. A noite prometia ser inesquecível........
...... Obrigado pelos comentários. Desculpem-me por demorar tanto para publicar esse capítulo,esse atraso foi sobretudo pelas minhas aulas na faculdade estarem voltando e eu preciso resolver algumas coisas antes de começar. Vou tentar escrever o próximo o mais rápido possível.Ah, notei que no texto anterior haviam alguns erros ortográficos horríveis, me perdoem por isso, é porque geralmente escrevo apenas durante a madrugada, pense em um menino louco! Mais uma vez muito obrigado e não esqueçam de comentar. Abraços.